A Terra do Nunca

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A última parte das suas vidas passaram-na numa rua sem saída. Tinham trabalhado para conseguir a sua casa, sonhado com ela uma vida inteira, poupado para ela uma vida inteira. Era pequena, acanhada e mal dividida. Os condutores que entravam no minúsculo jardim da frente só conseguiam sair de marcha-atrás e com dificuldade. Era a última casa do lado direito, no final do beco estreito.

Ali estavam eles agora, num isolamento voluntário, embora toda a vida tivessem ansiado viajar. Talvez o seu desejo de viagens tivesse passado para os filhos, pois estes partiam, cada vez com mais frequência, para países e continentes longínquos, enquanto os pais se iam tornando mais sedentários e parados.

Claro que havia horas, dias, em que o idoso sentia a nostalgia das terras distantes crescer-lhe nas mãos, nos olhos, no pensamento. Subia então ao sótão, ia buscar a caixa com os postais de todo o mundo, os prospetos e os mapas de países. Mas, de súbito, erguia a cabeça e olhava através da janela para a velha fachada da casa do vizinho. Regressava então à realidade, afastando de si as fotografias.

O bairro fora construído nos anos trinta com os meios mais económicos. Cinco modestas casas numa rua demasiado estreita absurdamente denominada “Monte”. A casa dos dois idosos não se situava em monte algum. Na verdade, encontrava-se num vale, no fundo da vala do ribeiro, onde o frio e o nevoeiro permaneciam durante mais tempo.

Contudo… a pequena casa ao fundo do beco era, de certa forma, o centro. O centro de uma família muito ramificada e dispersa por diferentes países e continentes. Sem que os dois tivessem contribuído muito para isso — ou teriam? — a casa do Beco do Monte tornara-se uma espécie de central de notícias. A central de notícias do clã inteiro.

Cada membro da família dava notícias ao casal através de carta ou por telefone. Eram os velhos os primeiros a sabê-lo: falecimentos, nascimentos, divórcios, quem, quando e onde iria talvez de férias, e com quem. E sempre que alguém procurava alguém, telefonava primeiro para casa deles.

A mulher tinha os pés muito deformados, imensas dores de coluna e um aspecto cansado. Por vezes, distorcia um pouco as notícias ao transmiti-las. Mas, nos seus olhos, brilhavam ainda o interesse e a vontade. Conservava-se lúcida e interessada pelos outros.

O velho andava com duas muletas e muito devagar. Nos dias bonitos, coxeava pelo beco abaixo até à estrada principal. Sentava-se num dos bancos da paragem do autocarro e ficava algum tempo a olhar o trânsito. Esta era a viagem mais longínqua, que só podia fazer no Verão, ocasionalmente. Os dias de bom tempo eram raros. Tinha dificuldade de respirar, o que o obrigava muitas vezes a levantar-se da cama durante a noite. Sentava-se então numa cadeira de recosto inclinada, que os filhos o tinham convencido a comprar, contra sua vontade, e que era demasiado grande para a minúscula sala. Mas fazia-lhe bem nas noites em que sentia falta de ar, tinha de admiti-lo. Quando, assim sentado, tentava adormecer, o que não demorava muito, a mulher aparecia, arrastando os pés, e cobria-o cuidadosamente. Mas, como resmungava por ele ter saído do quarto sem a ajuda dela, acabava por acordá-lo.

Por vezes, quando um dos dois fazia anos, ou nas vésperas de algum feriado, alguns membros da família juntavam-se em casa deles. Filhos, netos, genros e noras, e até os genros ou noras divorciados, apareciam lá em casa de tempos a tempos, de forma imprevisível. A bisneta era a especial alegria do idoso e, quando ficavam sozinhos na sala, ele contava-lhe, por vezes, as suas antigas histórias, as da Terra do Nunca. Histórias que os filhos nunca se cansavam de contar aos filhos com entusiasmo, e que estes queriam insistentemente voltar a ouvir. Gostariam tanto de poder gravar e guardar aquelas maravilhosas histórias da Terra do Nunca! O idoso costumava dizer que as esquecera havia muito. Só Lisa, a bisneta, sabia que não. Também ela adorava as histórias da Terra do Nunca, da mesma forma que a sua avó também as adorara em criança. Mas Lisa nada dizia.

Quando a velha senhora festejou os oitenta e dois anos, quatro gerações voltaram a reunir-se na minúscula casa do Monte. O filho mais novo enviara orquídeas. Orquídeas do seu jardim num país distante. E ela ficara toda a tarde a acariciar, no regaço, a caixa repleta de algodão onde as flores tinham vindo embaladas.

Durante dias, os netos tinham feito  grandes  preparativos. Tinham pedido  emprestada  uma  boa  aparelhagem  com  um  microfone.  Recordaram-se dos tempos de escola e foram buscar as velhas flautas de bisel e, juntamente com Lisa, formaram uma banda. Lisa e as mulheres da família cantaram os “Parabéns a você”, que nem soou nada mal. A filha do casal contribuíra com duas narrativas que até tinham sido já impressas e que contavam aos dois homenageados passagens da história da família. Lisa esforçara-se muito para as ler ao microfone numa voz clara e percetível.

Nenhum deles era rico, mas todos tinham contribuído e comprado à matriarca um aparelho muito fácil de usar: um walkman com auscultadores. Mas esta não se mostrou nada contente quando, com todos a rodeá-la cheios de expectativa, desembrulhou o presente. Resmungou. Tanto dinheiro para uma inutilidade que ela nem seria capaz de usar. Todos sabiam que nem rádio tinha, porque o marido não suportava o barulho; além do mais, que absurdo era aquele? Os filhos e netos deram-lhe tempo. Quando se acalmou, sentaram-na, colocaram-lhe os auscultadores por cima do cabelo ralo e fizeram-na escutar. Inicialmente, deixava transparecer insegurança e expectativa, mas pouco a pouco, começou a esboçar um sorriso, uma lágrima rolou-lhe pela cara enrugada, e o olhar virou-se para o interior. Começara finalmente a escutar.

Todos a observavam em silêncio, cheios de alegria. O marido começou a agitar-se na cadeira. O que é que se estava a passar, perguntava, e porque é que ele não ouvia nada. Os familiares puseram um dedo sobre os lábios. Um deles apontou com o queixo a idosa ali sentada, tão pequena e frágil, agarrada à caixa das orquídeas, a escutar com toda a atenção. Lisa segredou ao ouvido do bisavô o que a bisavó estava a ouvir: histórias e canções, flautas a tocar. Mas, lá por isso, não precisava de pôr aquela expressão tão esquisita, disse, num tom de voz um tanto travesso. Os netos sorriram. Já conheciam aquele jogo entre os dois. Aquele fazer-
-zangar-o-outro, que podia deixar embaraçado quem fosse de fora. Lisa levou a sério aquele ataque simulado. Gostava, e muito, de ler, e por vezes perdia-se nas histórias e esquecia tudo à sua volta. Achou que devia defender a bisavó, por isso disse:

— Chiu! A bivó agora está na Terra do Nunca.

Isso também era uma tolice, insistia o idoso. Não havia nenhuma Terra do Nunca. Lisa discutia com ele. Se fora ele mesmo que lhe falara sempre da Terra do Nunca nas suas histórias! E, além disso, o melhor era pedir à mulher que lhe fizesse o favor de o deixar experimentar os auscultadores. Não, insistia o bisavô, ele não queria experimentar aquilo, nem sequer uma vez! A mulher tinha entretanto regressado da Terra do Nunca. Pediu que voltassem a explicar-lhe o fácil manuseamento, agradeceu a prenda, mostrava-se radiante. A festa de aniversário continuou. Nos dias e nas semanas seguintes, em todos os telefonemas e cartas, a idosa falava da prenda que recebera, e da sua alegria. Também contou aos vizinhos, e mostrava os auscultadores.

Assim, o carteiro e os vizinhos passaram a trazer-lhe amiúde cassetes: com modinhas do seu tempo de juventude, um teatro radiofónico do genro, programas de rádio da filha, conversas e entrevistas com pessoas que conheceram. Lisa trouxe-lhe a sua cassete de contos e assim, em poucas semanas, ela ficou com um programa variado que lhe permitia passar muitas horas em casa. Naturalmente só podia colocar os auscultadores enquanto o marido estivesse a fazer a sesta. Este não gostava de a ver ali sentada de olhar vago, perdido no passado.

Porém, um dia, em que ele decidira colocar os auscultadores enquanto o neto levara a avó ao médico, foi apanhado em flagrante. Quando entraram na sala sem ele dar conta e, rindo, se mostraram contentes com a sua atrapalhação, o velhote arrancou os auscultadores e disse precipitadamente, como desculpa, que só tinha querido ouvir que disparate era aquele. E que as histórias nem sequer eram bonitas. Eram só mentiras, tudo fora diferente – antigamente. E, além do mais, não se conseguia aguentar tanto barulho nos ouvidos. Aquilo não era a Terra do Nunca, era só ruído. Insistia na sua ideia e nunca mais voltaram a apanhá--lo com o aparelho.

No inverno seguinte, o velho casal piorou. Os filhos que moravam na cidade revezavam-se com os vizinhos e os netos num mudo acordo. Todos os dias alguém ia ver os idosos, fazia compras, chamava o médico, deitava uma ajuda aqui e ali. O idoso nunca mais dormiu na cama: respirava com dificuldade e lutava por um novo dia sentado na cadeira. A senhora tornara-se ainda mais pequena e frágil e não ousava adormecer para não deixar de tapar o marido. Na sua idade já bem avançada, lutavam pela vida em conjunto. Faziam-no com determinação e muitas vezes parecia que lutavam um contra o outro: o marido dava à esposa um comprimido para o sono, e ela dava-lhe a cheirar uma essência de odor forte, que ele detestava, e que acabava por não lhe trazer melhoras.

Numa dessas más noites, enquanto a idosa dormia um sono forçado, e o velhote pensava que ia asfixiar, tirou os auscultadores da prateleira e colocou-os. Reclinou-se e tentou concentrar-se na voz que chegava até ele. Ouvia a voz familiar da bisneta a ler-lhe uma história que a filha tinha escrito. Falava do tempo em que ele fora um pai jovem e divertido, e inventava histórias da Terra do Nunca. Foi assim que a mulher o encontrou pela manhã, com um sorriso ao canto dos lábios e os auscultadores nos ouvidos, a cabeça inclinada para o lado, como se ainda estivesse a escutar. A senhora gritou. Gritou até virem os vizinhos, que avisaram toda a família. Desatou a soluçar quando retiraram os auscultadores da cabeça do marido. Alguém pôs a cassete em cima da mesa. Lisa olhava para a bisavó desfeita em lágrimas, e pôs-lhe os braços em volta do pescoço.

— Acalma-te, bivó, ele agora está na Terra do Nunca. Tem um ar feliz!

— Terra do Nunca, Terra do Nunca, Terra do Nunca… — gemia a idosa, colocando os auscultadores e, com as mãos, apertava os dois discos contra os ouvidos.

A partir desse momento, ficou em silêncio, como silenciosa ficou, também, a minúscula casa ao fundo do beco.

Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
Fernweh
Wien, Herder Verlag, 1980
(Tradução e adaptação)

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