Aprender a desligar: telemóveis e empatia

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Algumas pesquisas recentes demonstram que a utilização frequente de telemóveis tem mais impacto na nossa forma de comunicar do que poderíamos supor. Isto acontece porque, mesmo quando não estamos a usá-los, os telemóveis afetam os nossos níveis de empatia.

A sua utilização torna-nos mais absortos e faz com que revelemos um menor empenho em conversar com os nossos interlocutores. Este desinteresse compromete, de forma óbvia, a nossa capacidade para compreender e partilhar os sentimentos das pessoas com quem estamos a falar. De acordo com uma avaliação baseada em 72 estudos efetuados por uma equipa da Universidade do Michigan, a empatia entre estudantes universitários decresceu 40% nos últimos 30 anos. A maior descida registou-se a partir de 2001, data a partir da qual os telemóveis tomaram literalmente conta do nosso quotidiano.

 A própria natureza das relações humanas alterou-se de forma a adaptar-se à era do telemóvel, sobretudo no que diz respeito às gerações mais jovens. Segundo Sherry Turkle, professora do MIT, o telemóvel ajudou a desenvolver competências em termos de comunicação aberta. “Os alunos dizem-me que conseguem estabelecer contacto visual com o interlocutor e, ao mesmo tempo, digitar mensagens, sem que qualquer das atividades seja menos bem executada”, escreve Turkle no The New York Times. Contudo, o fenómeno da atenção dividida faz com que o nível de troca comunicativa estabelecido seja superficial. Quer a empatia quer o entendimento mais profundo das pessoas exigem uma atenção plena e uma escuta ativa. Ora, estas tarefas tornam-se difíceis quando nos sentimos ansiosos acerca de uma hipotética desconexão em relação ao mundo.

Segundo Turkle, os telemóveis fazem mais do que interromper um diálogo presencial profundo. “Claro que podemos continuar a manter conversas empáticas,” afirma a professora do MIT. “No entanto, não se trata apenas de termos substituído a comunicação face a face pela comunicação digital. Trata-se de não permitir que a comunicação presencial tenha sequer lugar porque os telemóveis continuam a ser omnipresentes na nossa vida.”

A presença dos telemóveis não compromete apenas a conexão entre duas pessoas que já têm uma relação estável e definida. Tal como Helen Lee Lin, psicóloga social, escreve na revista Scientific American: “O uso dos telemóveis pode mesmo chegar a reduzir a nossa consciência social.”

Segundo a Time, pesquisas efetuadas pela Universidade de Maryland revelam que, após um curto período de tempo passado com o telemóvel, os utilizadores revelam uma menor vontade de ajudar as outras pessoas, desempenhar tarefas de voluntariado, contribuir para tarefas comunitárias, e têm um desempenho francamente mais fraco em jogos cujos resultados corretos reverteriam a favor de atividades de beneficência.

Felizmente, contudo, há sinais de esperança. Um estudo de 2015 realizado pelo Pew Research Center revela que 82% dos adultos inquiridos têm a noção de que o uso de telemóveis prejudica a comunicação face a face. Este tipo de consciência pode ajudar a despoletar atitudes que contrariem o domínio excessivo dos meios digitais de comunicação na nossa vida. Entretanto, já há campos de férias onde as crianças podem ver despertada a sua empatia pelo mundo circundante entretanto adormecida. Enquanto passeiam pelos bosques, estas crianças desconectadas redescobrem a sua individualidade e a sua capacidade para a autorreflexão. O que as torna mais recetivas para estabelecer uma relação mais profunda com os outros, que está nos antípodas daquelas que estabelecem através de mensagens digitais lacónicas e rápidas.  

Ser-nos-ia útil prestar atenção ao conselho de Sherry Tucker: “Devemos deixar de ver o mundo como uma aplicação gigantesca e reivindicar a comunicação connosco, com os nossos amigos e com a sociedade. O diálogo é o antídoto para a maneira automatizada de ver a vida porque nos proporciona fluidez, possibilidade e carácter.”

Ed. Decker

http://www.spiritualityhealth.com

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