O génio do riquexó

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Chen era dono de muito pouco.

O riquexó de palhinha era a sua verdadeira riqueza pois, devido a ele, podia comprar uma tigela de arroz e, às vezes, conserva de carne com gengibre. Tinha ainda um grande chapéu que servia também de guarda-chuva. E, por último, dispunha de uma cabana de bambu, no alto de uma colina, com vistas para a baía de Hong-Kong.

Uma cabana, é exagero. A casa de Chen resumia-se a três tábuas e a um montão de folhas. Estava encostada ao muro de suporte de uma bela propriedade. Dele saíam ramos de jasmim que, no tempo da floração, ofereciam a Chen uma sombra perfumada.

O rapaz era feliz. Durante o dia, puxava o riquexó pelas ruas da cidade. À noite, ia conversar um pouco com o seu amigo Wang, que pescava com um corvo-marinho. Wang lamentava-se invariavelmente por a sua ave estar a ficar velha.

— Tenho de pescar muito peixe para poder comprar outro corvo-marinho. Sem o corvo-marinho, como poderei pescar?

Problema sem solução. Chen não encontrava saída. E Wang suspirava.

♦♦♦♦

Uma vez, ao voltar à cabana, Chen decidiu colher um ramo de jasmim para afastar a impressão de tristeza deixada pelo amigo. Às vezes é assim que começam as aventuras, por uma ideia inesperada, um pequeno nada que nos arrasta para bem longe…

 

Chen escalou o muro. E ficou sem palavras perante o que os seus olhos acabavam de descobrir. A seus pés, estendia-se um jardim maravilhoso onde todas as flores da Ásia exibiam as suas cores. Alguns quiosques de porcelana refletiam-se na água límpida dos lagos circundados por caminhos de areia branca. O rapaz saltou do muro e caminhou pelo relvado onde pétalas de magnólia caíam uma a uma. Os quiosques ostentavam, em papel de seda, palavras de boas-vindas pintadas a vermelho vivo. Eram um convite para provar os bolos de amêndoa, as compotas rosadas, os licores e a fruta, em cestos de prata, pousados em cima de mesas lacadas.jardim-chines-m

Chen provou aquelas guloseimas deliciosas que lhe deixaram a cabeça à roda e, depois, foi-se embora a correr. O que ia na sua pobre cabeça quando voltou a saltar o muro! Até então, contentava-se com uma tigela de madeira e ficava muito feliz quando podia enchê-la de arroz. E eis que agora sonhava com uma tigela de jade! O patê dos dias de festa, que sempre devorava com um sorriso nos lábios, não passava agora de uma simples comida, depois de ter saboreado alimentos que nem sequer imaginava que pudessem existir!

E, pela primeira vez, sentiu-se infeliz.

Pegou no riquexó e foi para a baixa da cidade. Seguia pensativo quando, ao passar junto da entrada da bela propriedade, ouviu alguém chamá-lo.

♦♦♦♦

Um jovem acenava-lhe, e pedia-lhe que se aproximasse. Estava ricamente vestido com um fato cor do sol em que resplandeciam inúmeras peónias. Acima de tudo, era belo, com a tez clara, uma trança brilhante e mãos delicadas que cautelosamente abrigava dentro das mangas. Que ar tão frágil ele tinha! De longe, parecia uma criança.

É rico e leve, não haja dúvida, pensou Chen. Um bom negócio a dobrar!

— Leva-me ao porto — disse o jovem numa voz suave.

Ao porto! Por ruas a descer até ao mar! Só tinha de se deixar levar pelo riquexó e pousar o pé de onde em onde para se relançar de novo.

Triplamente bom negócio! — cogitou Chen. E triplicarei o preço — decidiu ele de imediato.

Na sua cabeça, até então sem cuidados, fazia agora cálculos. Poria o dinheiro a render juros elevados. Emprestava uma parte a Wang, mas com um bom lucro. Também ele haveria de ter quiosques de porcelana… Ia tão absorto nos seus pensamentos que nem se apercebeu da velocidade que tomava o riquexó. Parecia empurrado por uma enorme força, como se uma energia irresistível o projetasse.

Quando Chen se deu conta, já era demasiado tarde!

Que correria até ao porto!

Em grandes passadas, descia as ruelas em degraus, atravessava encruzilhadas, mal tocando com os pés no chão. Atrás de si ficavam espeques caídos, transeuntes atirados por terra que se levantavam aos berros. Corriam pessoas atrás dele, atirando-lhe pedras e injúrias.

— Ah! Seu malandro! Patife!

— Agarrem-no! Castiguem-no!

Ouvia à sua volta um alarido que crescia, crescia e se tornava ensurdecedor. Mas só via os obstáculos que vinham na sua direção e que ele simplesmente pulverizava! E o riquexó sempre, sempre a voar em direção ao mar, cada vez mais perto, e ele a tentar travar com os calcanhares e os dedos em riste. Ofegante, pelas ruas em declive, Chen sufocava.

No fim da última rua, estendia-se a doca do porto, calma, profunda, sombria, deveras sombria. Como num sonho, Chen mergulhou nas águas espessas, de pés para a frente e com todo o peso do riquexó infernal atrás de si. Quando voltou à superfície, viu que só flutuava o chapéu e o riquexó. Cliente, nem vê-lo! Tinha desaparecido!

Uns marinheiros que estavam à beira da água riam à gargalhada, dando palmadas nas coxas.

— Viram… viram um rapaz? — perguntou Chen.

— Que rapaz… onde?

— Bem… no meu riquexó!

Então é que eles se riram à brava, acusando-o de ter bebido demasiado álcool de arroz.

— Mas o teu riquexó estava vazio!

Não havia nenhum rapaz? Então o que é que isto significava?

Chen ficou a olhar para a água a ver se o seu cliente vinha à superfície. Será que estive a sonhar? Mas … eu transportei um rapaz!

♦♦♦♦ 

Para afastar a sua preocupação, foi visitar Wang.

Encontrou o amigo muito pensativo, de queixo apoiado nas mãos e o olhar perdido ao longe.

— O corvo-marinho morreu — murmurou Wang.

Chen ficou emocionado. Um pensamento atravessou-lhe o espírito, rápido, pontiagudo, um daqueles pensamentos que não deixam escolha e levam a dizer de imediato:

— Se arranjar dinheiro esta tarde, dou-to.

O tempo do calculismo tinha acabado. Ficaram afogados nas águas do porto os desejos de poder egoísta e os sonhos de riqueza à custa da amizade.

Chen voltou para o seu riquexó. De novo com o espírito livre, os pés bem assentes no chão, lá estava ele no meio da multidão. Passando pelos anúncios multicores, com o chapéu de lado, Chen desceu até à baixa da cidade.

— Pst!

Alguém o chamava. Parou. Um homem enorme ocupava a passagem de uma porta. Chen avaliou-o pelo queixo que fazia três dobras e a barriga que fazia quatro sob um vestido luxuosamente bordado.

Vai partir o riquexó!

Mas lá se aproximou com passo hesitante.

— Onde deseja ir, Muito Respeitável Senhor?

— Lá acima.

Chen interrompeu, com uma vénia, a saudação que sempre fazia aos clientes importantes. Levantou os olhos, depois o nariz, e por fim ergueu-se completamente. Lá acima! Ao cimo da encosta onde ele morava! Tinha de puxar por este homem enorme até ao cimo!

— Eu sei…— disse o mandarim com um grande sorriso. — Mas serás bem recompensado pelo esforço.

Chen pensou na promessa que fizera a Wang.

— Está bem! — respondeu, cuspindo nas mãos.

A palhinha rangeu quando o nobre personagem se instalou. O eixo vergou e as rodas pareciam pregadas ao chão. Chen entesou as pernas magras e, com um esforço enorme, lá conseguiu mover o riquexó. Subiu lentamente, rua após rua. O suor queimava-lhe os olhos. Os músculos do pescoço do infeliz quase rebentavam de tanto apertar os maxilares para se concentrar no seu esforço.

Wang vai ficar contente, repetia Chen para arranjar coragem. Não passaria tudo isto também de uma ilusão? Pareceu-lhe, ao fim de uns momentos, que o homem já não era tão pesado e que a subida era menos íngreme.

Mas não era uma ilusão. Pouco a pouco, Chen já quase não fazia esforço. Contudo, não ousava virar-se para trás, com receio de perder o balanço e de ser arrastado para baixo.

— Para! — ordenou a voz, atrás. — É aqui.

Acabavam de chegar diante da casa dos quiosques de porcelana.

Chen virou-se e nem queria acreditar no que os seus olhos viam.

No riquexó, em vez do mandarim, encontrava-se o jovem da manhã, sorridente, de trança brilhante e fato cor de sol. Entregou a Chen uma grande moeda de ouro e disse, sem nunca deixar de sorrir:

— Não te admires. Viste-me jovem e depois mandarim. Ver-me-ás pássaro, talvez, ou raio de luar… ou pau de incenso, sei lá que mais? Sou um génio. Conheço os bons e os maus pensamentos dos humanos. Toma este ouro. Mereceste-o. Usa-o como pensaste.

O génio desapareceu sob a forma de fumo. Um ténue fumo azul que se elevou em direção ao portão para passar pelo buraco da fechadura.

Será que estive a sonhar?, interrogou-se Chen.

No entanto o ouro ali estava, bem verdadeiro, na palma da sua mão morena…

E também iria ser bem verdadeira a alegria de Wang.

Jean-Côme Noguès
Le génie du pousse-pousse
Toulouse, Éd. Milan, 2001
(Tradução e adaptação)

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