A irritação tóxica

autocontrole-1

Aquele que domina a sua cólera,
domina o seu pior inimigo.

Confúcio

Todas as nossas emoções existem para serem sentidas. Como parte delas, sentir-se irritado é algo normal e universal. De acordo com a forma como a utilizamos, a irritação pode ser uma emoção geradora de energias ou uma emoção tóxica.

Quando nos irritamos? Quando as nossas expectativas são goradas; basicamente, quando esperamos uma coisa e recebemos outra.

A irritação é uma força emocional que, quando canalizada de uma forma bem sucedida, nos faz seguir caminho superando obstáculos, e pode fazer parte da nossa resistência. Tudo depende do que faremos com essa emoção, de que forma a soltaremos. Tal atitude é o que vai determinar se essa irritação será positiva, ou não.

 Da irritação à violência 

Muitas pessoas têm tendência para confundir irritação com violência mas as duas emoções devem ser diferenciadas. Tal como dissemos, a irritação é uma emoção natural em todos os seres humanos, enquanto a violência é um comportamento tóxico e patológico. A violência é uma forma tóxica de exprimir irritação.

A irritação é uma forma de energia e, se soubermos utilizá-la, será útil para resolvermos situações difíceis.

Imaginemos que quer conseguir algo: por exemplo, ir a um determinado lugar a uma determinada hora. De repente, alguém bate no porta-bagagem do automóvel que acabou de ir buscar ao concessionário! Tal é a raiva que sente que nem sabe por onde começar! Certamente que a sua primeira reação não dispõe de filtros, tais como: Pobre mulher! De certeza que os travões falharam. Talvez tenha batido no meu carro porque estava muito preocupada com algum assunto importante... Raramente pensamos assim – a bem dizer, nunca.

A primeira atitude é irritar-se, aquilo a que chamamos, em psicologia, frustração, e a violência é a resposta mais comummente utilizada nestes casos. Todavia, seja qual for a situação em que nos encontremos, não devemos permitir que a irritação se transforme em violência porque há outros recursos ao nosso dispor que podem ser utilizados para não chegarmos ao ponto de “explodir”

Se desejamos que a nossa irritação não seja uma emoção tóxica, o mais saudável seria conhecermos os diferentes recursos interiores com os quais contamos para evitar que esta nos domine. Por exemplo, sabermos que todos nós dispomos de autodomínio, que nada mais é senão autoridade sobre nós próprios e sobre as nossas reações.

Quantas vezes já disse a verdade é que não segurei a mão, mas não era caso para tanto? Quantas vezes já se arrependeu de palavras que nunca deveria ter proferido?

Quantas vezes deu asas à sua raiva com a pessoa errada…?

Segundo um conto popular, existem quatro coisas na vida que não se podem recuperar:

  1. Uma pedra, depois de atirada.
  2. Uma palavra, depois de proferida.
  3. Uma oportunidade, depois de perdida.
  4. O tempo, depois de passado.

A violência é um comportamento anormal e o seu objetivo é magoar o outro. Existem vários motivos pelos quais uma pessoa transforma a sua irritação em raiva ou violência.

Devemos ter em conta que: 

  • Quanto maior a frustração, maior a agressão

Entendemos por frustração um impedimento, um obstáculo que nos surge no caminho para atingir uma meta. Quando uma pessoa vive o obstáculo como algo frustrante, como um impedimento, reage agressivamente. Há pessoas com muito baixa tolerância ao “não” e, por isso, qualquer dificuldade que surja fá-las explodir de raiva.

  • Quando repetida, a violência tende a ser encarada como normal

De cada vez que uma pessoa fica exposta à violência, produz-se um reflexo psicológico chamado “dessensibilização”: quanto mais violência vejo, mais normal ela se torna para mim. Estes parâmetros de normalidade aparente fazem com que a pessoa funcione agressiva ou violentamente, como se estas formas de nos relacionarmos com os outros fossem normais. De repente, elas transformam-se em algo quotidiano e, com frequência, em atos como gritar, partir objetos e insultar. Pensemos, por exemplo, na quantidade de imagens violentas a que assistimos diariamente na televisão. Chega um determinado momento em que, por termos visto tantos sequestros, mortes, drogas, roubos e violência, uma grande insensibilidade a tudo isto se produz em nós. É então que estes atos são aceites como algo de natural.

  • Por um determinado tipo de personalidade

A violência manifesta-se mais  em pessoas do “Tipo A”. Em psicologia, a pessoa Tipo A tem três características básicas. Em primeiro lugar, trata-se de pessoas competitivas: tudo é motivo de comparação e de concorrência. Em segundo lugar, são pessoas que trabalham contrarrelógio: vivem em permanente estado de tensão. Em terceiro lugar, são pessoas com pouca tolerância, explosivas, que rapidamente passam da palavra à ação. Estas três características conjugadas podem gerar bastante violência.

A linha entre a irritação e a violência é ténue. Contudo, as consequências de uma simples irritação ou de um ataque de violência são totalmente diferentes. Canalizar corretamente as energias reveste-se de uma importância vital. Por exemplo, se a pessoa tem por hábito pensar em alternativas, interrogando-se como resolver determinado problema, será capaz de focalizar a sua irritação de uma forma positiva. Pelo contrário, se a sua irritação se concentra no obstáculo que a deixa frustrada, não chegará a encontrar uma solução. 

Já lhe aconteceu alguma vez?

Estava em apuros, ia chegar atrasado ao trabalho e, ao correr para apanhar o autocarro, o motorista não parou… Ou chega à estação de metro, está na fila, como um bom cidadão, à espera da sua vez e alguém se põe à sua frente sem pedir licença. Sai do metro e empurram-no com força sem pedirem desculpa. E não é só isso: um automóvel passa a grande velocidade e molha-lhe a roupa com a água suja da sarjeta… É assim que muitas vezes começamos o nosso dia. Novamente a pergunta: é normal irritarmo-nos? E novamente a resposta: sim! Face a estas circunstâncias, o que não é saudável é ficar o dia inteiro de mau-humor por causa dos incidentes da manhã. Por isso, sempre que nos irritamos devemos ter em conta aquilo que “nos convém” antes de optarmos pelo que temos vontade de fazer, ou de não fazer.

 Irritei-me – e agora, o que faço?

Temos de escolher as nossas reações antes que a irritação o faça por nós: 

PRIMEIRO: ESCOLHER A NOSSA ATITUDE

A questão é: o que fazer com a irritação. De entre as opções existentes, podemos fazer quatro coisas: 

  1. Optar pelo estilo passivo: falamos daquelas pessoas que retêm a irritação sem se dar conta de que estão a reprimi-la. Muitas pessoas tentam prender a irritação dentro do corpo e desta forma provocam doenças graves. Estas pessoas têm tendência para sofrer da síndrome da mosca morta. Não se apercebem de que estão irritadas. A grande maioria das pessoas que sofrem de depressão sofrem também desta síndrome.
  1. Reagir de uma forma passivo-agressiva: neste caso, a pessoa reprime a sua raiva para a seguir a exprimir de forma acutilante ou com um tom sarcástico. Uma série de reações altamente tóxicas começa a manifestar-se. É aqui que surge a síndrome da bomba de tempo. Ou a síndrome do envenenamento por gota, isto é, a pessoa que engole a raiva e que a deixa sair a conta-gotas, a pouco e pouco. Sempre que pode e tem oportunidade para o fazer, reage com indiretas ou de modo desabrido para assim poder escoar a cólera que sente.
  1. Seguir o caminho explosivo: perante qualquer tipo de frustração, a pessoa em causa reagirá com violência, magoando-se e magoando os outros até se sentir aliviada. O seu nível de tolerância é muito baixo, e não é capaz de aceitar um “não” como resposta aos seus desejos. Trata-se de uma personalidade rígida.
  1. Assumir a atitude do vencedor: trata-se do tipo de pessoa que sabe pôr em palavras a irritação e utiliza essa capacidade como uma força de superação. O vencedor é aquele que sabe dizer o que sente, quer em tempo quer em linguagem. Fá-lo em devido tempo, ou seja, dá-se tempo para entender o que está a acontecer, e por que razão se sente dessa forma. E logo procura uma maneira de o expressar à pessoa certa de um modo que não seja agressivo.

SEGUNDO: ESCOLHER O NOSSO LEGADO

De que nos alimentamos? Sejamos seletivos em relação ao que recebemos diariamente e ao que interiorizamos como hábitos e formas de reagir, uma vez que será isso o que transmitiremos aos nossos filhos.

Talvez se interrogue sobre o que é natural no ser humano. Nascemos com um impulso violento e ensinamos a não-violência? Ou, pelo contrário, como adultos, transmitimos aos nossos filhos exemplos de comportamentos e raciocínios violentos?

Desde que nascemos, começamos a relacionar-nos com os outros e com o mundo que nos rodeia. Somos seres sociais, e como tal precisamos de aprender a proceder. E os primeiros responsáveis pela educação dos mais jovens são os pais…

Enquanto adultos, temos de ser capazes de transmitir aos nossos filhos uma escala de valores ético-sociais sólida. Trata-se de lhes demonstrar que há coisas más que sempre o serão: bater, mentir, roubar, ofender, insultar.

  1. Sair da ética situacional: o que está errado está errado, seja qual for o contexto. Se o seu filho traz da escola um objeto que não lhe pertence, o melhor é dizer-lhe que deve devolvê-lo no dia seguinte, uma vez que alguém estará à procura desse objeto. Contudo, há pessoas que consideram essa atitude um ato de somenos importância, e dizem: “É uma coisa insignificante, deixemos passar; caso contrário, ele (ou ela) vai chorar…” Tal comportamento é errado. Devemos sair do conceito de “ética situacional”, que afirma que o bem “depende do contexto”. Não podemos mentir porque o outro nos mentiu; não devemos gritar com alguém porque esse alguém nos gritou; não podemos ficar com o que não é nosso por alguém já o ter feito. O mal será sempre mal.
  1. Ser responsável: a responsabilidade consiste em tratarmos de assumir as consequências dos nossos próprios atos. Inculcar-se nas crianças o sentimento de culpa não basta se estas não forem ensinadas a assumir a sua culpa e a agir no sentido de corrigir o que fizeram de errado. Elas precisam de saber que cada decisão tem consequências, e que as consequências são o resultado das nossas decisões.

Enquanto pais, devemos ensinar-lhes a descobrir que ninguém “me provoca” ou “me faz sentir assim” mas sim que eu tenho “o controlo remoto” do meu mundo emocional.

O grau de compromisso que os nossos filhos exigem no que diz respeito aos seus comportamentos é sumamente importante no desenvolvimento da sua inteligência emocional. Vale a pena investir neles uma vez que o que é aprendido em casa crescerá com eles e acompanhá-los-á durante a vida.

Na mente e na alma de quem está em paz consigo próprio não há tempo para a violência.  

 Recursos para resolver problemas e conflitos

Aldous Huxley escreveu o seguinte: “Os factos não deixam de existir pelo simples facto de os ignorarmos.” E assim é; existem maneiras positivas e negativas de expressar irritação. Como pessoas civilizadas que somos, urge aprender a fazê-lo de uma forma positiva, sem nos magoarmos a nós próprios nem a quem está próximo de nós.

Se não trabalharmos a irritação, acabaremos por nos prejudicar a nós próprios e por nos alhearmos do mundo que nos rodeia. Ninguém gosta de estar com pessoas que vivem constantemente irritadas e enraivecidas, de tudo dizendo mal.

Bernardo Stamateas
Emoções tóxicas: como sarar o dano emocional e ser livre para ter paz interior
Carnaxide, SmartBook, 2011

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