As fadas da tia Lúcia

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Quando Lourenço, já adulto, regressa à casa de férias da sua infância, as memórias desse tempo trazem, de novo, a magia à sua vida…

Chamo-me Lourenço e acredito em Fadas. Já direi porquê.

Voltei hoje, depois de anos e anos de ausência, a esta mansão enorme que eu e a minha irmã Inês recebemos em herança por morte da Tia Lúcia, da querida Tia Lúcia. Com o coração apertado, visitei-a sala por sala. Dir-se-ia que o tempo não tinha passado: as transformações tinham sido tão insignificantes que reconheci móvel por móvel, quadro por quadro, estatuetas e jarrões, pratos chineses nas paredes caiadas, manchadas e esfareladas, e até as chávenas de porcelana dependuradas no guarda-loiça da sala de jantar, e os tachos de cobre arrumados nas prateleiras negras da cozinha. Vi tudo.

Mas um outro motivo me trouxera ali. Aliás, a Inês tinha insistido:

— Não deixes de a ir ver. Repara bem em tudo.

Corri para o quintal e lá estava ela: a Casa das Fadas, ou antes a NOSSA CASA.

A hera e a madressilva cobriam quase por completo os muros toscos, emaranhando-se no vão da porta que já não existia. Afastei-as, curvei-me e entrei. Um perfume ténue de violetas misturava-se com o cheiro espesso de humidade e bolor. E logo um súbito rufiar de asas e o roçar de qualquer coisa viva pelo meu rosto me fizeram estremecer.

— A Fada Violeta — murmurei, sorrindo. — E porque não?

Via-se mal. A luz do Sol não conseguia atravessar as telhas de vidro que tinham servido de claraboia e que o tempo tornara opacas. Puxei do meu isqueiro e aproximei-o do pavio da lâmpada de azeite que permanecia sobre a mesa. Milagre! Depois de crepitar por um momento, só um momento, uma chamazinha brotou do pavio, tão trémula, tão frágil que pouco mais alumiava do que a si própria e a um pequenino círculo que descrevia no tampo da mesa. Recordei o êxtase que essa mesma luz provocava em mim e na Inês:

— Vê-se muito bem — dizia ela, esforçando-se por distinguir os bonecos do seu livro de histórias.

E eu confirmava:

— Pois vê. É melhor que a luz lá de casa.

Mais afeito à escuridão, olhei em volta. A lâmpada, a cadeira de baloiço, de palhinha esfarrapada, o meu pião de lata, o triciclo em que andávamos à vez, uma boneca, um tambor, o vaso de barro em que um tufo de violetas sem viço teimava no entanto em florir… Toda essa variada gama de prendas maravilhosas com que as Fadas da Tia Lúcia iam correspondendo aos nossos pedidos e até aos nossos desejos — as boas e estimáveis Fadas adivinhavam-nos — ali jaziam à minha frente, cobertas de pó, de teias de aranha, inertes, como que à espera de que um príncipe encantado as fosse desencantar.

Vou contar tudo desde o princípio.

Tinha a Inês cinco anos e eu seis, quando o meu Pai e a minha Mãe decidiram passar uma temporada em Londres.

Os meus Avós maternos viviam na província com a minha Tia Lúcia. Eu mal os conhecia e não aceitei de bom grado a ideia de me separar dos meus Pais. Como acontece muitas vezes, pouco tempo estávamos juntos, mas eu ansiava pela sua presença. Sentia-me desamparado quando os sabia fora de casa, ainda que não contasse ouvir mais do que frases já bem conhecidas:

— Portaram-se bem?… Não arreliaram a Constança?… Comeram a sopa toda?…

E nós íamos respondendo, com olhares de esguelha para a Constança, não fosse ela desdizer-nos:

— Portámos… Não… Comemos…

— Bem, bem. São horas. Vão dormir. Leve-os, Constança.

Assim, quando nos comunicaram que íamos passar “uns dias” com os Avós, a minha primeira reação foi a de chorar e protestar entre lágrimas e soluços:

— Não vou, pronto. Não vou.

A Inês encarou a emergência sob outro ponto de vista:

— Se calhar, lá não é preciso comer a sopa toda… Se calhar, lá não é preciso lavar as mãos todos os dias…

Se calhar… Se calhar… Se calhar…

A verdade é que essas hipóteses aliciantes me levantaram o moral. E, quando vi os meus Pais a afastarem-se, depois de termos sido entregues e bem recomendados aos Avós e à Tia Lúcia, a par de uma certa angústia que não conseguia vencer, palpitava dentro de mim uma estranha sensação de liberdade, liberdade essa, vim depois a verificar, que era um tanto ilusória.

De facto, a minha Avó, preocupada com a responsabilidade que lhe havia “caído em cima”, como ela dizia, vigiava-nos de perto, obrigava-nos a comer o que nos punha no prato, e mandava-‑nos para a cama ainda mais cedo do que minha Mãe o fazia:

— Toca para a caminha. São horas. São mais que horas.

Dormíamos no quarto da Tia Lúcia, um quarto muito grande, de traves no teto, situado ao fundo da casa. A Inês adormecia imediatamente. Eu não. O sobrado rangia, um cão uivava ao longe, o vento gemia. No telhado de telha mourisca, os pardais barafustavam e, por entre as tábuas do forro, já pouco ajustadas, caíam grãos de terra e de areia, num rumorejo quase impercetível que me crispava os nervos delicados de menino da cidade. Só respirava quando percebia o andar ligeirinho da Tia Lúcia a aproximar-se. Chamava por ela:

— Tia Lúcia…

— Ainda acordado?

— Tenho medo.

— De quê, tolinho?

— Não sei.

— Nem podes saber. Aqui não há nada que te faça mal. Olha a tua irmã como ela dorme. Dorme também.

— Não tenho sono.

— Queres que te conte uma história?

— Quero.

A Tia Lúcia começava então. Eram histórias que ela ia inventando e em que havia muitas fadas, todas com nomes de flores: a Fada Amarílis, a Fada Mimosa, a Fada Violeta… Todas lindas e excelentes, muito amigas de ajudar os meninos, também sempre muito bons.

Eu adormecia, a minha mão bem agarrada à mão da Tia Lúcia, e dormia bem, dir-se-ia que toda a noite, sob o sortilégio daquela voz carinhosa e da extrema bondade das Fadas e dos meninos seus protegidos. De manhã, porém, quando abria os olhos, já a Tia Lúcia lá não estava, mas sim a Avó, a revolver as gavetas da cómoda, indecisa na escolha da roupa que iria vestir-nos, e já impaciente pelo nosso despertar.

— Bom dia, Avó.

— Bom dia, Lourencinho. Bom dia, Inesinha. Dormiram bem? Toca a levantar que já é tarde.

Inês remexia-se, espreguiçava-se, bocejava… e enroscava-se.

— Então, Inesinha, são horas. Já está tudo a pé.

— Tenho sono.

— Ai que dorminhoca tu me saíste!

Era a Avó que nos lavava, nos vestia, nos calçava…

— Trabalhos… Trabalhos…

— Mas eu sei vestir-me, Avó — insurgia-me eu, um tanto envergonhado.

— Está bem, está bem, Amanhã será.

— Ai, Avó! — choramingava a Inês. — Entrou-me sabão para os olhos. Eu sei lavar-me sozinha.

Ora, se a Avó não confiava em mim, muito menos confiava na Inês.

— Calculo!… É que é uma grande responsabilidade. Que dirão da Avó se te virem desprezada?

— Ai, Avó! — gritava ainda a Inês. — Não me puxe o cabelo. A Constança não faz doer.

À Avó não deviam agradar comparações com a Constança:

— Está bem, está bem. A Constança é que sabe tudo. E pronto, podem ir. Um beijo à Avó. Não se afastem… Não desarrumem nada… Não vão para a cozinha empatar a Tia Lúcia… Nem para a sala da entrada, que já hoje a varri… Nem para a sala de jantar, que a Emília anda a esfregar o chão…

As divisões eram muito amplas, com portas diretas de umas para as outras, sem corredores, mas não eram muito numerosas. Com as restrições que a Avó nos impunha, quase nada nos restava para expandirmos “a nossa liberdade”.

A Inês aspirava fundo:

— Que bom cheirinho a café… Vem da cozinha…

E decidia:

— Vamos lá ver.

A Tia Lúcia sorria-nos, beijava-nos:

— Dormiste bem, Inês?… Já nem me sentiste. E tu, Lourenço? Que tal a história?

A história impressionara-me, não havia dúvida:

— Tia Lúcia, a Tia conhece mesmo a Fada Violeta… e a Fada Amarílis… e as outras?. Conhece mesmo?

— Então não havia de conhecer! Desde criança que oiço falar nelas e que as vejo por aí a rondar…

— Vê-as?!

— Bem… Entrevejo-as… no arvoredo.

E ria.

A Inês amuava:

— Só eu é que não oiço histórias.

— Ouves logo. Sentem-se.

Poisava na mesa um jarro de leite acabado de ferver, a cafeteira fumegante do café, pão, manteiga, mel, queijo fresco…

E sentava-se também:

— Faço-lhes companhia. O Avô e a Avó já comeram. Eu quis esperar por vocês. Vou tomar uma grande caneca de café com leite e comer uma grande fatia de pão com mel. E tu, Inês? E tu, Lourenço?

Era uma euforia, só de a vermos a nosso lado, dando-nos a escolher o que mais nos agradasse! E, claro, queríamos tudo quanto ela queria.

— Também tomo uma caneca de café com leite… grande… e pão com mel — dizia eu.

E a Inês dizia comigo:

— Eu também… Uma fatia grande… com muito mel.

A Tia Lúcia ia falando e nós íamos comendo um lauto pequeno-almoço, sem um protesto, antes com pena de lhe ver o fim.

— Pronto. Não querem mais nada?…

E a Tia Lúcia levantava-se da mesa.

— Vão ter com o Avô que não deve andar longe. Chamem por ele.

E começava logo a juntar a loiça, a colocá-la sobre o poial, em gestos precisos e harmoniosos.

É assim que recordo a Tia Lúcia: eficiente e calma, ora na cozinha a ajudar ou a substituir a Emília, ora a passar a ferro, cestos e cestos de roupa que a Emília lavara e a Avó borrifara e enrolara, ora a compor uma jarra com flores que escolhera no jardim, ora a limpar, ora a arrumar… Sempre vestida de claro, figurinha gentil, nem alta nem baixa, cabelo castanho-escuro, revolto, a escapar-se-lhe dos ganchos e travessas com que tentava domá-lo, e que ao menor sopro de vento se rebelava e dispunha em moldura graciosa em torno do seu rosto de feições miúdas, de grandes olhos negros, aveludados, e dentes muito brancos, um tanto irregulares. Hoje, é assim que a vejo.

Naquele tempo não saberia descrevê-la. Só sabia que a achava linda, que por sua causa oscilava entre desejar e temer o regresso dos meus Pais, e que ela e as Fadas se confundiam no meu espírito de tal forma que eu não conseguia imaginar Fada alguma que não fosse com o cabelo revolto, o sorriso meigo, os olhos aveludados e o vestidinho claro da Tia Lúcia. E nem conseguia evocar a Tia Lúcia que não fosse a esvoaçar na brisa pura das madrugadas, por entre flores que brotavam e rescendiam ao toque mágico da sua varinha de condão.

A Quinta não era grande, mas nela o Avô encontrava sempre que fazer e que ensinar.

— Venham aqui espreitar as colmeias.

Abria a janelinha que havia na parte de trás de cada uma delas. Pouco se divisava: as abelhas cobriam o vidro quase por completo, mas a novidade era tanta que nós ficávamos a olhá-‑las tempos infinitos, interessados nos seus movimentos em que não descobríamos qualquer finalidade, enquanto o Avô nos falava das obreiras, da rainha, dos malfadados zângãos…

— É um povo exemplar, disciplinado e trabalhador, que não admite ociosos na sua comunidade. E os zângãos não fazem mel. Não fazem nada.

— Então para que servem?

— Aí é que está. Neste mundo tudo tem o seu préstimo e a rainha tem que se casar e quer ter por onde escolher. Um dia, um só dia na sua vida, que chega a durar três, quatro ou mesmo cinco anos, ela sai da colmeia e voa, voa, cada vez mais alto, cada vez mais alto. Os zângãos seguem-na, todos eles, mas são muito mais lentos, muito mais pesados, e vão ficando pelo caminho. E ela sempre, sempre a voar, até que tenham desistido todos menos um. Esse ganhou a partida. Esse casará com a rainha.

O Avô tinha sempre consigo uma tesoura de poda. E não havia árvore ao alcance da tesoura de que ele não tivesse de cortar algum ramito.

— Avô, deixa-me cortar um? — pedia eu.

— A mim também — exclamava logo a Inês.

— Não, filhos, não. Para isto é preciso saber quais os ramos que não prestam. E vocês não sabem.

Na horta, o Senhor Romão, o marido da Emília e homem indispensável da Quinta, sempre pronto e apto para qualquer serviço, entretinha-se a regar. E digo “entretinha-se” porque se me afigurou a coisa mais divertida deste mundo, regar como ele regava. A água corria com força pelo sulco ao longo dos canteiros e enchia-os, um de cada vez, obedecendo à manobra engenhosa do Senhor Romão que, munido da sua enxada rasa, ia abrindo e fechando, alternadamente, canteiros e sulcos. A Inês não se conteve:

— Eu ajudo. Eu sei.

Não iria consentir que ela o fizesse e eu não. E adiantei-me:

— Eu é que ajudo. Eu sei melhor.

O Avô riu-se. O Senhor Romão esboçou um sorriso:

— Para isto é preciso saber. E os meninos cuidam que sabem, mas não sabem.

Palavras do Avô, exatamente. Até parecia que estavam combinados. Nós não sabíamos, nem isto, nem aquilo, nem coisa nenhuma.

E quando viríamos a saber e como, se ninguém nos ensinava?

A sineta badalou. Era a Emília a chamar para o almoço, ou antes, para o jantar, como todos diziam. Ao cimo da escada, a Avó esperava-nos:

— Limpem os pés que vêm cheios de terra. Vão lavar as mãos.

Ordens, sempre ordens. Não, não era aquela a liberdade sonhada.

De repente, ocorreu-me que, ali, só nós dois recebíamos ordens. Porque os outros não as recebiam de ninguém. Não era preciso. Todos se mantinham em permanente atividade, uma atividade serena e proveitosa. O Avô, a Avó, a tia Lúcia, a Emília, o Senhor Romão, todos eles sabiam o que tinham a fazer, e faziam-no automaticamente, como se cumprissem obrigações inevitáveis há muito estabelecidas.

Não posso garantir que o meu raciocínio de então fosse precisamente este. No entanto, fosse ele qual fosse, levou-me à conclusão de que só eu e a Inês não trabalhávamos, e de que se trabalhássemos já ninguém teria de mandar em nós. Expus à Inês as minhas ideias que mereceram a sua inteira aprovação:

— Tens razão. Vamos fazer uma casa para nós. Põem-se umas pedras em cima das outras… No teto, põem-se uns paus assim — e cruzou os dedos. — Sabes onde é que é bom?… Ao fundo do quintal.

— É bom, é. Já tem dois muros… fazemos outros dois… e pronto.

Delineado assim o plano na melhor das harmonias, entrámos logo em acção. A ocasião era ótima: o Avô e a Avó dormiam a sesta nas cadeiras de repouso da sala de jantar, e ouvíamos, na cozinha, as vozes da Tia Lúcia e da Emília. Campo livre.

Saímos de casa sem que dessem por nós e começámos à procura de pedras que levávamos para o local escolhido.

— Olha este pedregulho! — exclamava eu. — É mesmo bom para aqui, não é?

— E este?… Também é mesmo bom. E pesa que eu sei lá!

Na verdade, não passavam de pedritas vulgares, mas que importava se nós as víamos à medida exata da nossa fantasia?

— Não se diz nada a ninguém — recomendei à Inês.

— Pois não. Só quando estiver pronta e com tudo lá dentro.

— Tudo… o quê?

— Camas… cadeiras…

— E mesa e loiça para comermos…

— Colheres não é preciso — lembrou a Inês. — Aqui é que ninguém manda comer a sopa.

Ouvimos passos pesados que se aproximavam. Ficámos estarrecidos. Era o Senhor Romão.

— Que andam os meninos a fazer?

— A juntar pedra. Olhe tanta!

— E para quê?

— Para fazer uma casa para nós. O Senhor Romão não diga nada a ninguém.

— Deus me defenda!… Podem estar descansadinhos. Querem uma ajuda?

E sem esperar resposta, pegou numa porção das nossas pedras e com elas desenhou no chão um retângulo quase perfeito.

— Aqui têm.

Delirámos. Passeámos pelo terreno demarcado:

— É grande… Aqui fica a mesa.

— Aqui uma cadeira…

E aquele pedacito de terra de que, aos nossos olhos, as pedras representavam fronteiras incontestáveis, passou a chamar-se A NOSSA CASA.

A Avó ia-se adaptando às suas novas responsabilidades. A sua vigilância abrandara. E, assim, às fugidinhas, fomos juntando mais pedra. De quando em quando, aparecia-nos o Senhor Romão:

— Como vai o trabalhinho?

Hoje duvido muito da sua discrição. Suspeito que estavam todos informados dos nossos planos e que o tinham encarregado de nos ir vigiando. Que Deus me perdoe se estou a levantar um falso testemunho, tanto mais que, apesar do segredo a que me tinha comprometido com a Inês, não resistira e pusera logo a Tia Lúcia ao corrente do que se passava, com a condição prévia de que “não diria nada a ninguém”.

Mas há sempre que ter em conta o imprevisto. Acordámos, um dia, com o barulho insólito de bátegas de água a fustigar os vidros das janelas. O Avô preveniu:

— Vai ser uma semana de temporal. Veio com a Lua Nova, só com ela se vai embora.

Uma semana!… E a Nossa Casa? Era impossível sair. Lá fora o vento parecia uma coisa má encarniçada contra as árvores, agarrando-as pelas copas, sacudindo-as, torcendo-as, vergando-‑as… Luta de gigantes de que eu não despregava os olhos e de que não queria que o vento saísse vencedor. Porque, se assim fosse, se o vento derrubasse as árvores todas, onde iriam acolher-se as Fadas da Tia Lúcia?

— Tia Lúcia… onde estarão as Fadas?… Ainda se a Nossa Casa estivesse pronta…

— Não te preocupes. Elas têm a sua varinha de condão e, se quiserem, até a fazem de um momento para o outro.

— Era bom, era — disse a Inês. — Já estou cansada de juntar pedras e agora ainda é pior… Devem estar todas molhadas.

— Se nós também tivéssemos uma varinha de condão… — suspirei. — A Tia Lúcia não sabe onde é que se pode arranjar uma?

— Sei. — respondeu ela.

E, largando a costura, aproximou-se de mim. Pôs a sua mão na minha fronte e depois no meu peito.

— Aqui… e aqui…

Ao ler o pasmo nos meus olhos, acrescentou:

— É natural que hoje não compreendas. Mas espero que, pela vida fora, o venhas a compreender. Serve-te da tua cabeça… Serve-te do teu coração… Para o Bem… Para os Outros… e farás prodígios. Não esqueças.

Os dias foram passando, lentos, monótonos. Mesmo quando havia boas abertas, que as havia, não nos deixavam sair:

— Deixem-se estar… Deixem-se estar que está tudo encharcado.

Até que uma réstia de sol bem vermelha se esgueirou pela frincha da janela fronteira à minha cama e me deu a boa nova: o temporal passara. Chamei pela Inês:

— Acorda… Está sol.

Chamei pela Avó:

— Quero vestir-me.

Nem sequer nos interessava o pequeno-almoço. O objetivo que se impunha era ver como estava A NOSSA CASA. Corremos para lá. Quedámos boquiabertos. O que lá estava era mesmo uma casa, uma casa verdadeira, com paredes, telhado, porta, uma porta a valer com fechadura e tudo.

— Se calhar foram as Fadas — disse Inês.

— Se calhar foram.

Abri a porta, devagarinho, na expectativa fascinante e aterradora de um mundo novo e misterioso. Ouvia o bater martelado do meu coração.

— Abre depressa — pediu a Inês.

E empurrou a porta que se abriu toda para trás.

Entrámos. No teto, umas telhas de vidro por onde se escoava uma luz baça que a nós nos pareceu radiosa, permitiram que examinássemos tudo bem examinado: duas cadeiras, a lâmpada, uma cantareira com loiça, a mesa no meio da qual um ramo esplendoroso de Mimosas, Violetas e uma haste de Amarílis fazia as vezes de bilhete de visita.

— Vês, vês que foram as Fadas?! — bradei eu, excitadíssimo.— Vamos chamar a Tia Lúcia.

Mas a primeira pessoa que encontrámos foi o Senhor Romão. Atirámo-nos a ele:

— Senhor Romão, as Fadas fizeram a Nossa Casa!

— Não me digam!

— É verdade… Venha ver. Rebocámo-la.

— E esta, hem? — balbuciou ele, como se profundamente admirado.

Depois pôs-se a bater nas paredes, comentando:

— E olhem que está bem construída. Sólida que nem uma rocha!

— Vamos dizer à tia Lúcia.

O espanto da tia Lúcia foi mais moderado:

— Eu já calculava. Deve ter sido para se abrigarem da chuva.

— Mas é nossa — quis esclarecer a Inês.

— Claro.

— É nossa e das Fadas, não é, Tia Lúcia? — condescendi eu.

— Pois, Lourenço. É justo que assim seja.

A Avó, o Avô e a Emília não queriam acreditar e só se convenceram quando viram com os próprios olhos. A Inês corria de uns para os outros:

— Eu não dizia?… Eu não dizia?…

A Emília teve então a boa ideia de nos levar lá o pequeno-almoço. Ela e o Senhor Romão apareceram com tabuleiros em que nada faltava, e todos nos fizeram companhia. A Inês e eu estávamos verdadeiramente extasiados.

— Só é pena que as Fadas não estejam aqui também — lastimou ela.

— Talvez estejam a ver — disse a Tia Lúcia. — E devem estar muito felizes por verem a felicidade que souberam dar. Se fosse comigo, eu estaria de certeza.

Levámos para a Nossa Casa tudo quanto era nosso. Passávamos lá horas e horas. E, se alguma coisa nos apetecia, lá ficava um bilhetinho — já escrito por mim — a pedi-la. E assim foram surgindo a cadeira de baloiço, o triciclo, um pianinho… tudo quanto a nossa imaginação nos sugeria e o que não sugeria: todas as manhãs deparávamos com qualquer novidade, e sempre com um bolo diferente e apetitoso.

— Senhor Romão, venha ver… Prove, prove… É muito bom, não é?

— Se é! Nem a Emília os faz assim!

Que dias gloriosos, esses!

Via agora, com sobressalto, aproximar-se a hora em que teríamos de abandonar a Nossa Casa… Ao mesmo tempo, fazia-me sofrer o desejo intenso de a mostrar aos meus Pais. O que eles iriam dizer! Talvez até resolvessem ficar ali, para sempre, a viver com os Avós e a Tia Lúcia… Podia vir a Constança também… Seria tão bom!

— Não penses nisso, Lourenço. Os teus Pais não querem nem podem — desiludiu-me a Tia Lúcia.

Por fim chegaram. A Inês e eu rivalizávamos a contar tudo. E lembro-me de ouvir a minha Mãe dizer estas palavras de que não percebi o sentido:

— Ai, Lúcia, Lúcia, que não perdes a mania de viver nas nuvens e de levar para lá os outros!

Ao que a Tia Lúcia respondeu no mesmo tom:

— Ai, Joana, Joana, mal de mim se vivesse só na terra!

A despedida foi de lágrimas. É curioso: a figura do Avô quase se desvaneceu na minha memória. Em contrapartida, vejo ainda a Avó a passar pelos olhos um lenço aos quadrados cinzentos e pretos:

— Vão fazer-me falta. Ela é traquinas, mas já me tinha habituado.

Com a Emília, ia acontecendo um desastre: quando ia a descer a escada com um grande cesto enfiado no braço, desequilibrou-se e cairia de certeza se o meu Pai não lhe deitasse a mão.

— Lá se ia o farnel — gracejou ele.

E ela a conter os soluços:

— É que não vejo nada com uns ciscos que me entraram para os olhos.

Voltou-se para mim:

— Vão aqui uns bolinhos para a viagem. São iguais aos das Fadas da sua Tia Lucinha.

A lembrança do Senhor Romão era ainda mais volumosa:

— Um saquito de batatas para a senhora.

— Obrigada, Senhor Romão, fazem muito jeito — agradeceu a minha Mãe. — E obrigada também pelos meus pequenos… Por tudo quanto lhes fez.

Quanto à Tia Lúcia, fazia-se forte:

— Vão descansados. Eu olho pela vossa casa.

Nós e ela parávamos de degrau em degrau.

— Vamos lá… Vamos lá… — apressava o meu Pai. — Entrem para o carro.

Mas havia ainda que dizer:

— Tia Lúcia, se chover muito e as Fadas quiserem, podem ir para lá e servir-se de tudo o que está lá dentro. E a Tia Lúcia também.

— Pois é — concordou a Inês. — Mas só a Tia Lúcia e as Fadas, mais ninguém. E podem tocar no meu pianinho, sem o estragar…

A Tia Lúcia sentou-se na escada, puxou-nos a ambos para o seu colo, abraçou-nos e beijou-‑nos:

— Meus queridos… Obrigada, Lourenço. Obrigada, Inês. Gostei muito de os ter cá. E vou ter muitas saudades dos meus meninos. Até breve.

Foi assim a história da NOSSA CASA, da Casa das Fadas.

A minha vida levou-me por muitas casas em que vivi e pelas quais passei, mas todas fui esquecendo.

Todas, menos a Casa que ficou para sempre a NOSSA CASA.

Esta, a Casa que não esquece, que vive dentro de nós, a Casa encantada da nossa infância feliz. Encantada, pois! Se foram Fadas que a fizeram…

 

Patrícia Joyce

Gabriel dos cabelos de ouro e outras histórias

Lisboa, Editorial Verbo, 1983

(Texto adaptado)

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