O lado sombrio do quotidiano – A Sombra Coletiva

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Cada um de nós contém um Dr. Jekyll e um Mr. Hyde: uma persona agradável para uso quotidiano e um “eu” oculto e noturno que permanece silenciado a maior parte do tempo. Emoções e comportamentos negativos – tais como raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, luxúria, cobiça, tendências suicidas e homicidas – permanecem ocultos imediatamente abaixo da superfície, mascarados pelo nosso “eu” mais adaptado às situações. No seu conjunto, são conhecidos em psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser, para a maioria das pessoas, um território indomado e inexplorado.

Confrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana todas as vezes que abrimos um jornal ou ouvimos um noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na espantosa mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida para toda a nossa moderna aldeia global eletrónica. O mundo tornou-se palco da sombra coletiva.

A sombra coletiva – a maldade humana – depara-se-nos praticamente em toda a parte: salta dos títulos dos jornais; esconde-se nas lojas pornográficas; desvia dinheiro das nossas poupanças locais e dos nossos empréstimos bancários; corrompe políticos ávidos de poder e perverte o sistema judiciário; conduz exércitos invasores através de densas florestas e áridos desertos; vende armas a líderes enlouquecidos e entrega os lucros obtidos a rebeldes; despeja, por canos ocultos, a poluição nos nossos rios e oceanos e envenena, com pesticidas invisíveis, os nossos alimentos.

Enquanto a maior parte dos indivíduos e dos grupos vive de acordo com os padrões sociais comuns, outros parecem querer viver uma forma de vida que difere desses moldes. Quando eles se tornam objeto de projeções negativas por parte da sociedade, a sombra coletiva exprime-se na busca de bodes expiatórios, no racismo ou na criação de inimigos. Para os americanos anticomunistas, o império do mal era a U.R.S.S. Para os muçulmanos, os E.U.A. são o grande Satã. Para os nazis, os judeus eram vermes. Para a igreja, as bruxas têm um pacto com o Diabo. Para os defensores sul-africanos do apartheid, ou para os membros americanos do Ku Klux Klan, os negros são sub-humanos, indignos dos direitos e dos privilégios dos brancos.

O poder hipnótico e a natureza contagiante destas emoções fortes são evidentes na disseminação da perseguição racial universal, dos conflitos religiosos e das táticas de busca de bodes expiatórios. Desta forma, seres humanos tendem a desumanizar outros, como forma de assegurar que são os únicos detentores da verdade – convencendo-se de que matar o inimigo não significa que estejam a matar seres humanos como eles próprios.

Ao longo da história, a sombra foi sendo representada pela imaginação humana sob a forma de monstros, dragões, de figuras como Frankenstein, de baleias brancas, extraterrestres ou homens tão vis que não poderíamos identificar-nos com eles. Mas revelar o lado oculto da natureza humana é um dos propósitos principais da arte e da literatura.

Ao utilizar a arte e os media, incluindo para a propaganda política, podemos tentar ganhar poder sobre algo que vemos como demoníaco, para assim quebrarmos o seu feitiço. Este facto pode ajudar-‑nos a explicar como nos deixamos fascinar pelas histórias violentas que nos são apresentadas nos media, ou por fanáticos religiosos ou agitadores que incitam à guerra.

Repelidos e atraídos pela violência e pelo caos do nosso mundo, transformamos, nas nossas mentes, determinadas pessoas ou grupos em detentores do mal e inimigos da civilização.

O lado sombrio da personalidade não é uma aparição evolutiva recente, nem um resultado da civilização e da educação. Ele encontra as suas raízes numa sombra biológica que se encontra nas nossas próprias células. Os nossos antepassados animais, apesar de tudo, sobreviveram lutando encarniçadamente. O monstro em cada um de nós está bem vivo – só que aprisionado a maior parte das vezes.

Conhece-te a ti mesmo

No templo de Apolo, em Delfos, que foi construído na encosta do monte Parnaso pelos Gregos e que hoje já se encontra destruído, os sacerdotes gravaram na pedra duas famosas inscrições, um preceito que possui ainda grande significado para nós. Conhece-te a ti mesmo, é uma máxima que tem ampla aplicação na nossa vida: conhece tudo sobre ti mesmo, aconselhava o sacerdote do deus da luz, ou seja, conhece especialmente o lado oculto de ti mesmo.

 

Excesso

Vivemos numa época de excessos críticos: crime a mais, exploração a mais, poluição a mais, armas nucleares a mais. Estes são excessos que podemos reconhecer e repudiar, apesar de nos sentirmos impotentes para fazer o que quer que seja contra eles.

Mas existirá, de facto, algo que possamos fazer? Para muitas pessoas, as qualidades inaceitáveis do excesso vão diretamente para a sombra inconsciente, ou são expressas através de comportamentos sombrios. Em muitos casos, estes extremos assumem a forma de sintomas: sentimentos e ações intensamente negativos, sofrimentos neuróticos, doenças psicossomáticas, depressão e abuso de narcóticos

Na nossa sociedade vemos o crescimento dos excessos da sombra em toda a parte:

  • numa incontrolável sede de conhecimento e de domínio da natureza (expressa na amoralidade das ciências e na parceria desajustada do mundo dos negócios e da tecnologia);
  • num local de trabalho tenso e desumano (expresso quer na apatia de uma força de trabalho alienada, quer no orgulho do sucesso);
  • na maximização do crescimento e progresso empresariais;
  • num hedonismo materialista (visível no consumismo desenfreado, na publicidade exploradora, no desperdício e na poluição);
  • num desejo de controlar (expresso na exploração e na manipulação dos outros, na violência doméstica e abuso infantil);
  • no nosso sempre presente medo da morte (presente no culto do corpo, nas dietas, nas drogas e na busca da longevidade a qualquer preço).

Estes aspetos da sombra são omnipresentes na nossa sociedade. Contudo, as soluções experimentadas para acabar com os nossos excessos coletivos poderão ser ainda mais perigosas do que o próprio problema. Consideremos, por exemplo, o fascismo e o autoritarismo, os horrores que surgiram das tentativas reacionárias para controlar a desordem social, a decadência e a permissividade generalizadas na Europa. Mais recentemente, o fervor do fundamentalismo religioso e político ressurgiu como resposta às ideias progressistas.

Jung foi brando quando afirmou:

Todos nós ingenuamente nos esquecemos de que, por debaixo do nosso mundo racional, outro permanece enterrado. Não sei que mais terá a humanidade de sofrer antes de se atrever a admitir esta verdade.

Se não agora, quando?

A história regista desde tempos imemoriais os tormentos causados pela maldade humana. Nações inteiras deixaram-se levar por histerias de vastas proporções destruidoras.

Hoje, o mundo move-se em duas direções aparentemente opostas: alguns afastam-se do fanatismo, outros mergulham nele. Podemos sentir-nos impotentes face a tais forças. Ou, se realmente nos importarmos com esta situação, devemos certamente experimentar um sentimento de culpa perante a nossa cumplicidade inconsciente face a esta difícil situação coletiva. A referida situação foi expressa com precisão por Jung em meados do século XX:

Para nos protegermos da maldade humana, que pode ser representada por esses movimentos de masssa inconscientes, temos apenas uma arma: uma maior consciência individual. Se deixarmos de estar atentos à nossa consciência, perderemos o poder de nos transformarmos e, assim, de salvarmos o mundo.

O único perigo real que existe é o próprio homem. Ele é o grande perigo e, infelizmente, não temos consciência disso. Nós somos a origem de toda a maldade vindoura.

Jeremiah Abrams (org)

Ao encontro da Sombra

S.Paulo, Cultrix, 1991

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