No nascimento do Mundo

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Acho que aos seis anos já não acreditava que era Jesus Menino, literalmente, a co­locar as prendas nos sapatos. Mas até aí ficava com o ouvido colado ao vidro fosco, a perceber se os ruídos explicavam o mistério do momento.

Depois ia-se à Missa de Galo aos Jerónimos, de onde se regressa­va com sono e excitação. No fundo, faltavam poucas ho­ras para descobrir o que Aquele Petiz que salvara o Mundo tivera tempo para nos dar. Anos mais tarde, a minha mãe explicava, casualmente, que talvez não fosse Cristo mesmo, acabado de nascer, que vinha às casas presentear-nos. Mas que era certamente a sua Ternura que dava saúde e cabeça aos crescidos, iniciando tudo o resto.

Na pequena sala da Damião de Góis, em Algés, não havia árvore de Natal. O meu pai dizia que era “sobretudo” um símbolo pagão. Não tinha nada contra ele, mas não era o seu. Por nós, extasiados com o presépio de montanha que tínhamos ajudado a construir, comandados por uma mãe de mão hábil, não fazia falta.

Havia vegetação suficiente, à força de musgo e caruma, a rodear a multidão de fi­guras. Primeiro, Baltazar, Gaspar e Melchior, fasci­nados com a cena do nascimento do mundo. Depois, os pastores, com ovelhas, flautas e ofertas. Ao centro, na gruta de papelão, palha e madeira, a imitar a ruí­na de um castelo, apareciam Maria, carinhosa, José, reverente, e o Menino, que resplandecia.

Púnhamos pequenos espelhos, rodeados de erva, a simular lagos, e flocos de algodão a fazer de neve. No cimo estava a estrela, ou um anjo anunciador.

Na Consoada não se comia carne. Enquanto a televisão a preto e branco mostrava as caras rudes dos soldados de África, a desejar Boas-Festas (e às vezes um “ano cheio de propriedades”), o que nos emocionava sempre, e colocava tristeza e mui­tas perguntas na festa, consumia-se o bacalhau cozido com (quase) to­dos. Havia ainda tem­po para as filhós das tias, e um leite-creme com segredo. O Pai Natal da Coca-Cola, inventado umas décadas antes pelo Norman Rockwell, não estava ali. E o meu pai recusava-se a com­prar presentes que fos­sem armas. Na manhã da revelação, os embrulhos tinham dádivas de paz e reconciliação.

Entretanto, os pais partiram. Resta­mos nós, os filhos, e os netos. E o mun­do que há-de vir. Mas às vezes ainda vejo toda a velha família junta, sorriden­te, com uma esperança muito maior do que o frio da noite.

Nuno Rogeiro

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