O menino que cortou o fio da chuva

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Era pálido e loiro, e chamava-se Leopoldo…

As pessoas que o viam ao pé da mãe, que tinha a pele branca, os cabelos claros e os olhos castanhos, diziam que se parecia com ela; os que o encontravam com o pai, que era moreno, com a barba e os cabelos pretos, mas de olhos azuis, diziam que era o retrato dele. O menino herdara a cor da pele e dos cabelos da mãe e os olhos azuis do pai… Mas que importa isso agora? O menino cresceu há muito tempo já, e não sabemos para onde foi.

Era pálido e loiro, e chamava-se Leopoldo. Aceitem o nome, como ele o aceitou.

— Que lindo menino! Tem nome de rei — diziam as pessoas.

E o menino não percebia porque é que lhe diziam aquilo. Sabemos que o menino morava no primeiro andar de uma casa como outra qualquer, numa rua estreita, igual a tantas.

Os pais eram ambos professores, e ensinavam-lhe tudo quanto há de belo no  Mundo: a diferença de países e costumes, os mares, os continentes e as montanhas; explicavam todas as coisas sobre os animais, as plantas e as pedras; o que se passa no céu, à superfície da Terra e no fundo dos oceanos; mostravam livros com lindas gravuras e fotografias.

— O Mundo é desta forma — dizia o pai, apontando um globo forrado de papel. — Nós estamos aqui. A África é deste feitio; as aves fazem assim na primavera, e os mamíferos desta maneira no inverno…

Havia em casa coleções de plantas e insetos estampados em álbuns, caixas cheiinhas de penas e ovos de vários pássaros, de rochas e conchas e búzios de muitos feitios e cores.

Depois falava-se nas ondas, nas marés, nas correntes marítimas, no esqueleto, no sangue, nos cinco sentidos; a respeito do fogo e neve. O pai sabia tudo. Era por isso que toda a gente lhe chamava sábio.

O menino sempre tinha pensado que um sábio havia de ser um velho de túnica e longas barbas brancas, e que não devia falar como as outras pessoas: que só podia dizer coisas difíceis, que logo se tornariam claras, ou então que, ao falar de coisas simples, elas se haviam de complicar na boca dele, tornando-se incompreensíveis. Mas não! O pai falava da casa, da sopa e dos amigos, de maneira simples, quando explicava qualquer coisa difícil o menino não conseguia compreendê-lo.

— O espaço é infinito e incolor — afirmava.

«Como é que pode ser? — pensava o menino.

— E o tempo?»

— Eterno.

«Não é possível! — imaginava o menino. Tudo acaba um dia, como a avó que morreu.»

              Mas não se atrevia a perguntar mais nada, porque o pai continuaria a explicar,  e ainda complicava mais as coisas.  A mãe andava lá dentro na lida da casa, e o menino ia ter com ela. A mãe tinha sempre qualquer coisa bonita e boa para lhe dizer, como:

— Já acabou a lição o meu príncipe?

Ou:

— Voltaram as andorinhas. Estamos na primavera.

— De onde voltam, mamã?

— Ora, dos países quentes.

— Porquê?

— Porque emigram.

E ia tratar da casa, dar ordens à criada, coser à máquina horas a fio ou ler, e não lhe dava mais atenção.

Apesar disso, o menino era muito amado, e os pais não o deixavam ir brincar para a rua, com medo que lhe sucedesse algum mal.

E na rua havia tanta coisa!… Havia meninos de cabelos e olhos castanhos, meninos de pele branca e cabelos pretos, outros rosados, de olhos claros e cabelos loiros, e havia até dois meninos mulatos, o Danielzinho e o Tomás, que passavam a vida sentados no degrau da porta defronte da cama do menino, porque o pai também não os deixava ir brincar para a rua, a não ser em dias de muito calor, por serem doentes e terem pouca roupa.

Então o menino ia para a varanda ver revistas e observar os rapazes que brincavam na rua sossegada, ao eixo, aos polícias e ladrões e aos soldados, com capacetes de papel de jornal com grandes penachos, e espadas e pistolas de pau atadas à cintura por cordéis. Corriam, gritavam, envolvendo-se às vezes em lutas verdadeiras por motivos sem importância. Quando as coisas se complicavam, as mães vinham buscá-los e arrastavam-nos para casa, dando-lhes descomposturas e cachações.

A rua ficava então deserta. Só o Danielzinho e o Tomás lá continuavam sentados na soleira da porta, muito  calados e  quietos, sempre na mesma posição, as cabeças e os joelhos unidos, apenas olhando em frente, para a varanda da casa do menino.

O menino olhava as flores que desabrochavam nos vasos da varanda, tão depressa que, de um dia para o outro, apareciam abertas de par em par, pavoneando à luz do Sol as pétalas delicadas. A mãe sabia o nome de cada uma e regava-as todos os dias com amor. Talvez por isso fossem tão lindas!… Viravam-se para o céu lá no alto, azul e compacto, que não tinha para o menino nada de infinito.

Um cavalo passava na rua, castanholando as patas sobre a calçada, embalando o cavaleiro fardado, hirto, esbelto e belíssimo na sela, unido ao animal pelo mesmo movimento de balanço e pelo mesmo suor que escorria da testa corada de um e do dorso luzidio e fulvo do outro, numa aliança de força, ritmo e graça, que nada mais havia a pedir-lhes do que serem como eram.

Também as andorinhas, à tarde, quando o céu era mais rosa e ouro do que azul, desenhavam apenas um momento letras chinesas no espaço, ao voltarem aos ninhos que tinham feito, não se sabia ensinadas por quem, debaixo dos beirais da casa defronte, entre os musgos e as urtigas que cresciam entre o barro e a argamassa, estavam vivas, frementes, quase excessivas.

«Que tinham que ver o céu, o cavalo, o cavaleiro, as andorinhas e as urtigas e os musgos, naquele momento, com o Universo ou com as diferenças de raças humanas e escalas animais ou vegetais?» — pensava o menino.

Mas nunca ninguém lhe explicou.

Outras vezes o menino olhava para o Danielzinho e para o Tomás, sempre sentados na soleira da porta, brincando com carrinhos feitos de caixas de cartão, e conversava com eles. Perguntava se iam à escola, se tinham livros, e porque é que não brincavam na rua com os outros rapazes.

— Porque somos doentes — respondia o Danielzinho.

— Só quando o tempo estiver bom — acrescentava o Tomás.

— O pai prometeu que nos deixava ir para a rua quando viesse o verão — terminava o Danielzinho.

Mas o verão nunca mais chegava.

Tudo aconteceu naquele ano em que choveu tanto pelo São Martinho…

Quando estava mau tempo, a mãe do menino fechava as vidraças por causa do frio e do vento, e o menino ficava dentro de casa, só e triste. Espreitava pelo vidro, mas na rua não brincavam os rapazes, nem passava o cavalo, e as andorinhas tinham recolhido ao ninho. Também o Danielzinho e o Tomás não estavam sentados no degrau da porta.

E o menino entretinha-se a ver jornais e revistas antigas, com os joelhos fincados na esteira que a mãe lhe estendia no chão para ele brincar. Folheava durante horas as páginas de papel impresso. Interessava-se mais pelas fotografias de pessoas do que pelas outras. Eram retratos de outros países, de bailarinas, desportistas, atrizes e atores do cinema mudo, com os olhos e a boca pintados, olhando fixamente para a máquina, como a quererem dizer alguma coisa, e o menino procurava adivinhar o que era. Como não sabia, inventava, conforme a expressão: «Sou tola e ponho pó-de-arroz» — parecia dizer uma. «Comi um bolo que era uma delícia» — adivinhava-se na cara do outro. Chegou mesmo a inventar frases em línguas es­tranhas, que não existem, como: «Ó-fox inil, unfux raize.» Ou: «Tala-bula-nila-moi.»

Depois recortava as fotografias que mais lhe agradavam, colava--as sobre papel grosso e brincava com elas, pondo-as a dizer umas às outras coisas com ligação, como nas peças de teatro. Encostava as figuras à parede, deitava-as, fazia-as andar, segurando-as com os dedos…

Recortava tudo quanto lhe vinha à mão: árvores, barcos, automóveis, bicicletas, e tudo entrava na brincadeira. A própria tesoura passava a ser às vezes a criada ou a visita, abrindo e fechando as pontas viradas para cima, como um bico de ave, numa grande conversa, segura pelas argolas, que faziam de pés, aleijados e disformes.

Durante aqueles dias de chuva recortou centenas de bonecos e inventou outras tantas histórias e brincadeiras com eles. Ia de vez em quando espreitar à janela, mas a chuva não havia maneira de passar. Continuava a cair, de dia e de noite, do céu opaco e empoeirado, ora miudinha ora em bátegas, ao sabor do vento, que fazia dançar gotas suspensas nos fios elétricos, como pequeninas lanternas venezianas.

Pela rua abaixo, junto das valetas, corria água suja, cor de café com leite. Do cimo do algeroz que descia ao longo do prédio, rente ao parapeito da varanda, caía um fio grosso de chuva, sem interrupção, como uma corda de brilhantes, que vinha bater num dos vasos, abrindo-lhe uma cova na terra, com um barulho de lata velha e coisas esborrachadas, fazendo dobrar um pobre trevo que ali crescia, abandonado e raquítico. O trevo endireitava-se quando a água mudava de direção, para voltar a curvar-se com o peso brutal do fio da chuva.

O menino fixava, de olhos em alvo, ora o fio da chuva que caía do algeroz ora o trevo que se contorcia. Outras vezes olhava para a soleira da porta fechada, onde o Danielzinho e o Tomás não apareciam há muito. De tesoura na mão, pensava que a chuva talvez nunca mais acabasse, que o mundo inteiro ia ficar desolado e triste, sem sol, nem andorinhas, nem cavalos com cavaleiros, nem meninos na rua, nem flores desabrochando nos vasos. E o Danielzinho e o Tomás nunca mais poderiam sair para brincar. E então, cheio de pena do mundo inteiro, abriu a vidraça, e com um golpe de tesoura cortou o fio da chuva que caía do algeroz.

O céu desanuviou-se, a chuva foi-se tornando mais fraca, rompeu o Sol entre as nuvens, e mandou um raiozinho, que veio beijar as flores da varanda e as pedras da calçada. As andorinhas saíram do ninho, num chilrear interrogativo. Ao fundo da rua apareceu o cavaleiro picando esporas ao cavalo. Os rapazes surgiram a correr, em grande gritaria, e o Danielzinho e o Tomás entreabriram a porta e espreitaram para fora, todos satisfeitos.

Ricardo Alberty
O príncipe de ouro e outras histórias
Lisboa, Editorial Verbo, 1989

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