Cerveja de gengibre

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Estávamos no laboratório de ciências e o nosso professor orientava uma experiência. Subitamente, uma das minhas colegas sussurrou-me:

 — Ouvi dizer que ontem estiveste na corrida de corta-mato.

Eu assenti com a cabeça e sorri.

Não tinha chegado em primeiro lugar, mas estava orgulhosa dos meus esforços.

A boca da minha colega contorceu-se num sorriso de escárnio:

− Então que tal te saíste? Conseguiste pelo menos acabar a corrida?

O sarcasmo da sua voz fez-me corar e fitei-a em estado de choque. Sabia que estava a referir-se ao meu peso. A minha figura era rechonchuda, não atlética. Embora eu gostasse de correr, era óbvio que ela não pensava que eu pudesse correr cinco meros quilómetros.

− É claro que acabei a corrida – respondi em voz baixa.

Naquele momento, senti-me envergonhada do meu corpo e envergonhada por ter tentado sequer fazer aquela corrida. Não era a primeira vez que alguém fazia comentários grosseiros sobre o meu peso. Tinha apenas seis quilos a mais, mas isso não impedia algumas pessoas de olharem para mim e de ocasionalmente me dizerem palavras desagradáveis.

Era por natureza tímida e bem-educada. Nunca tinha provocado ninguém e não merecia aqueles comentários cruéis. Além disso, a nossa família estava a passar por um mau momento: o meu pai estava com uma depressão, o meu irmão mais velho tinha um sério problema de drogas, e a minha mãe estava exausta por causa do emprego a tempo inteiro que tinha para sustentar a família. Não queria sobrecarregá-la com mais problemas.

Alguns anos antes, quando eu era pequena, a minha mãe tentara inventar uma cerveja de gengibre caseira. A levedura era o ingrediente vital que ela usava com uma certa profusão. As garrafas eram sempre colocadas na cave da casa para fermentar, até que uma noite explodiram todas por causa da dose extra de levedura.

Eu sentia-me como aquelas garrafas: cheia até às bordas com emoções, e quase a explodir. E no rótulo da minha garrafa estavam escritas duas palavras: Sem valor.

Quando tinha dezanove anos, ofereceram-me um CD com frases acerca do perdão. “O perdão não justifica as ações da pessoa que te ofendeu,” dizia a voz na gravação. “O perdão liberta-te da amargura e ajuda-te a seguir adiante com a tua vida. Isso traz liberdade.”

A cara da minha colega apareceu na minha mente. O corpo dela era rechonchudo e tinha o dobro do meu peso. De repente, senti que também ela era uma garrafa de cerveja de gengibre, cheia de dor emocional. A sua troça estava errada, mas em vez de raiva, senti compaixão.

− Escolho perdoá-la − sussurrei no silêncio do meu quarto.

Depois, comecei a compilar palavras positivas dos meus amigos, quer escritas em cartas, pedacinhos de papel, e-mails, ou garatujadas por mim mesma. Guardei estes encorajamentos dentro de uma caixa de sapatos e, às vezes, em álbuns de recortes. Nos dias em que o desencorajamento batesse à minha porta, poderia pegar naquelas palavras e recordar a mim mesma que tinha valor.

Louise Johnstone

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