Asa da Palavra

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“Para entendermos um livro, temos que passar a mão na pele do papel,sentir os contornos das letras e, depois, imaginar o que está além da casca das palavras. Toda palavra espera, dentro dos livros, para ser tocada.”

Meu pai era pastor pregador de muita fé. Gritava alto, gesticulava demais. Fazia mão voar junto com as palavras lá dele. Palavras de meu pai pareciam bicho esquisito raro, que só se vê em revista ou televisão.

À noite, na igreja, pai suava pregações para os outros, e o mais das horas livres ocupava-se com a salvação de nossas almas caseiras. Júnior, seu filho preferido, seguia o mesmo caminho. Papagaiava. Só tinha doze anos de idade, mas falava palavras adultas e esticadas, maiores que eu e minha irmã Inha juntos, dessas que, ao se terminar de falar, a gente até já se esqueceu como começou.

Pai palavreava palavrudo palavroso palavrando.

Parava não.

Palavra. Palavra. Palavra. Palavra. Palavra.

Falava em procissão.

Palavras dele usavam terno. Não se via a pele delas, só o azul escuro do brim e o brilho de som de gravata. Era para ouvir, entendia nada não. Parecia mosquito fazendo percurso no ar ou então besouro batendo em lâmpada.

As palavras de meu pai se misturavam com as dos textos que às vezes ele abria e lia. Era tudo igual, voava zumbido e eu de olho comprido olhava os livros. Eram grandes, pesados, geralmente de capa preta e grossa. Pareciam caixões.

Olhei para o meu pai e vi nele um coveiro que, em vez de colocar o defunto na cova, desenterrava as palavras com a pá dos olhos. Elas levantavam vivas no ar ao serem pronunciadas por pai. E eu sentia o cheiro de morte que vinha delas e pousava no meu ouvido. Era estranho, mas também engraçado, escutar palavras que não andavam nas ruas  nem brotavam em boca de pessoas que não sabiam ler.

De tudo que pai pronunciou, só uma coisa viveu em mim. Foi um texto que ele leu um dia:

Notável é o artifício com que a natureza formou os nossos ouvidos. Cada ouvido é um caracol, e de matéria que tem a sua dureza. E como as palavras entram passando pelo oco deste parafuso, não é muito que, quando saem pela boca, saiam torcidas. Como os ouvidos são dois e a boca é só uma, sucede que, entrando pelos ouvidos duas verdades, sai pela boca uma mentira. (Padre Antônio Vieira — importante sermonista do século XVII)

Achei que essa era a resposta para o meu problema. Era isso sim. Eu tinha ouvidos mais tortos que todo mundo. As palavras bonitas de pronunciar, que eu escutava o Júnior e o pai falarem, eram entortadas pelo parafuso que eu tinha dentro das minhas orelhas. Por isso, quando eu falava, as palavras saíam enroladas umas nas outras, as letras tropeçavam na minha língua e caíam de forma engraçada fora da minha boca, fazendo todo mundo rir de mim.

Pai decidiu, então, me colocar na escola para ver se eu aprendia a falar correto direito normal, sem tropeço de letra, gagueira ou pronunciação de palavra sem eira nem beira. Fala minha não tinha beira beirada barranco limite, por isso não corria fluente como água em rio, era alagado de sons que se misturavam como em um brejo onde se tem ao mesmo tempo: coaxo de sapo, brilho de vaga-lume, vôo de borboleta, cheiro de lodo e barulho de barro andando.

Solução para mim seria desentortar o ouvido ou desenrolar a fala. Como não tinha jeito de me descaramujar, porque pai havia falado da dureza do caracol que a gente tem dentro dos ouvidos, só pensei mesmo em tentar afiar a fala. E para isso tinha mesmo que ir para a escola.

Na escola, quando comecei a ler e a escrever, percebi que as palavras também tinham um caracol dentro delas. Depois de um tempo, desisti de querer entender as letras e comecei a ficar só apreciando os contornos que elas faziam no caderno e no eterno voar.

Foi aí que eu cheguei à seguinte conclusão naquela época: “Letra pra mim é igual pena de passarim, só muda a cor, mas tudo serve é pra avoá mesmo”.

E eu confundia tudo; sabiá, ssabiá, çabia — sabia não. E nem entendia o porquê de ser tudo tão certinho assim.

Como, então, que eu ia botar as palavras do meu pai no papel ou mesmo ia conseguir que elas voassem pra dentro de mim?

Aí elaborei um plano. Pensei na história que dizia que se a gente engolisse semente de laranja amanheceria depois com um pé plantado na barriga. Sempre tive certo medo de um dia dormir e acordar arvorecido. Porque ainda que eu vigiasse, não tinha jeito, semente escorregava garganta abaixo.

Sendo assim, dentro de mim já devia existir um pomar… cheio de árvores para me ventar…

Se bem que, um dia, Inha me disse que dentro de todo mundo existe é uma caveira. Mas se todo mundo tem uma caveira dentro de si, quer dizer então que a gente já nasce morto?

Tem muita coisa que eu não entendo e meu pensamento acaba fugindo de mim…

Pois é, a minha idéia foi a seguinte: se engolir semente faz nascer e crescer árvore, se eu engolisse palavras aprenderia a falar e a escrever certo. Foi o que fiz. Peguei uma bíblia, recortei uns versículos e devorei tudínho, desde as vírgulas até os pontinhos dos is. Assim, ia comer não só as letrinhas, mas também a fé que eu tinha de aprender. Mas não funcionou não, até piorou! Porque eu esqueci e mastiguei os versículos. Tinha que ter feito como se faz com hóstia: deixar inteirinha na boca até ela virar nuvem e depois evaporar. Entretanto, eu ruminei, ruminei, ruminei e estraguei tudo. Mas havia outro problema. Mesmo se eu não tivesse mastigado, acho que as frases iam se confundir, pois minha baba borrava os limites das letras. Elas ficavam manchadas de mim. Além disso, quando descessem pela minha barriga, elas iam acabar se desligando, já que os trechos da bíblia estavam escritos em letra de forma e as palavras em letra de forma são muito ilhadas, sozinhas e tristes. Deve ser por isso que a professora ensina a gente a escrever com as letras dando as mãos umas para as outras.

Depois de dois anos na escola e de fracassadas tentativas de aprender a controlar as palavras, fui crescendo e sendo desgosto aumentativo para meu pai. Ele ralhava com meus oitos anos de ignorância. Dizia que eu não fazia esforço no aprendizado, que era vendido perdido por levianas lerdas brincadeiras bobas de moleque. Ameaças chocam acompanhadas de trovoadas sentenças.

Mãe, nessas horas, só varria o chão com os olhos úmidos. Mandava em nada não. Lavava a palma da mão com choro — consolo que me ajudava. Ela parecia comigo. Será que era muda de gestos e em gostos? Será que também não sabia usar palavras? Só o arroz com feijão é que pronunciava no nosso alimento diário.

Um dia, pai, nervoso em nós, me comparou a Veridiana — nossa vizinha cega, que lia tudo certinho, no pouso do ponto. E me humilhava dizendo que até uma aleijada era melhor que eu. Fiquei triste com isso e fui dormir esmagado pelo peso do que ele me falou.

Então, perguntei pra mãe:

— Mãe, cê acha Veridiana mais inteligente que eu?

— É não, meu filho! Cada um e todo mundo tem seu aleijão! Manqueou minha mãe essa resposta com medo de ser escutada por pai.

Dormi e sonhei com Veridiana me ensinando a ler. Ela pegou em minha mão e me mostrou um de seus livros. Era todo cheio de furinhos. Então falou:

— É preciso ler com os olhos que estão na ponta dos dedos. Para entendermos um livro, temos que passar a mão na pele do papel, sentir os contornos das letras e, depois, imaginar o que está além da casca das palavras. Toda palavra espera, dentro dos livros, para ser tocada. Ao tocarmos uma palavra com os olhos do sentimento, ela também nos toca. É por isso que sei ler. Porque não tenho deficiência em sentir. Ler olhando o texto sem sentimento é ser cego por dentro.

“Sonho é solução pra dia acordado, é conserto de mundo que anda errado”. Pensei, ao acordar com o meu pai pregando.

Pai pregava palavras para clarear o dia e as nossas almas. Com rezas e xingos eu passava as horas, os dias e os domingos. Pai palestrava para a vida, mas era incomunicável para mim. Não enxergava que eu não seria como ele e Júnior. Eu estava do outro lado da rua, com Inha e mãe, em diferente passeio. Longe da fé cega que pai chamava de luz e do convívio em penitência com as palavras. Minha religião não exigia sacrifícios, minha linguagem não precisava de salvação.

Passei a entender que era bom ser diferente. Eu, assim como as minhas palavras, não tinha que ficar preso em um só lugar, poderia correr, escorregar, tropeçar e voar sem vergonha de errar.

Adriano Bitarães Netto
Asa da palavra
Belo Horizonte, Mazza Edições, 2005

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