O limpador de placas

Conheci um homem que era limpador de placas de rua.
Todas as manhãs, às sete horas, ele ia para o trabalho.
Para chegar à Central de Limpeza de Placas de Rua, na Praça do Incenso, ele levava mais ou menos meia hora. Cumprimentava o porteiro, fazia algum comentário sobre o tempo e ia para o vestiário.
Lá vestia um macacão azul, botas azuis de borracha, e depois, sem muita pressa, ia para o almoxarifado, onde lhe entregavam uma escada azul, um balde azul, uma escova azul e uma flanela também azul.
Enquanto ia arrumando as coisas, ele conversava com os colegas, que também preparavam seus instrumentos de trabalho. Depois iam todos até ao depósito pegar as bicicletas azuis e saíam pelo portão.
A saída dos limpadores de placas de rua nas suas bicicletas era um espetáculo magnífico. Eles pareciam imensos pássaros azuis saindo do ninho ao mesmo tempo.

Havia anos que o limpador de placas desta história percorria o mesmo trajeto, pelo bairro das ruas com nomes de poetas, escritores e compositores: Praça Carlos Gomes, Rua Bach, Alameda Beethoven, Rua Villa-Lobos, Travessa Mozart, Rua Tom Jobim, Avenida Wagner, Beco do Pixinguinha, Estrada Handel, Praça Noel Rosa, Rua Goethe, Rua Guimarães Rosa, Travessa Vinícius de Morais, Avenida Thomas Mann, Rua Monteiro Lobato, Travessa Drummond, Rua Graciliano Ramos e Alameda Machado de Assis. Finalmente, na Praça José de Alencar, ele terminava seu serviço.
Limpar placas de rua é uma coisa complicada. Mal se acaba a limpeza e elas já ficam sujas de novo. Acontece que, quando os limpadores de placas são bons, eles não desanimam por causa disso e nunca desistem de combater a sujeira. O limpador de placas da nossa história era um excelente limpador. Nas ruas de que ele cuidava, as placas não ficavam somente limpas: elas pareciam novas.
Seus colegas reconheciam, sem ficar com inveja, que ele era o melhor limpador de placas da cidade. Por isso, o encarregado e o gerente da Central de Limpeza gostavam de dar tapinhas nas costas dele, dizendo: — Parabéns, continue assim!
O limpador de placas de rua era um homem feliz. Gostava do que fazia, gostava de suas ruas e gostava de suas placas. E quando alguém perguntava o que gostaria de mudar em sua vida, respondia sem vacilar: — Nada, absolutamente nada!
Decerto tudo teria continuado assim se um belo dia uma mãe e seu filho não tivessem parado ao pé da escada azul.
— Olhe, mamãe, Rua Guimarães Rosa! Já passamos pela Rua Villa-Lobos e pela Praça Noel Rosa. Você sempre diz que aqui é o bairro dos poetas, dos escritores e dos compositores. Mas está parecendo que é o bairro das flores e dos bichos!
— O quê? — a mãe olhou admirada para a placa. — Não! — disse rindo. — Guimarães Rosa foi um escritor que inventou muitas histórias e…
Nesse momento, um ônibus e dois caminhões barulhentos passaram por ali e não deu mais para ouvir o que a mãe estava dizendo. Quando o barulho diminuiu, a mãe e o filho já tinham ido embora.

O limpador de placas de rua ficou olhando espantado para a placa com o nome “Guimarães Rosa”. De repente, percebeu que, como aquele menininho, também não sabia coisa nenhuma sobre Guimarães Rosa ou sobre aqueles nomes que ele limpava todo santo dia.
“Isso não pode ficar assim!”, pensou.
Desceu da escada. Enfiou a mão no bolso do macacão, tirou uma moeda e jogou-a para cima. Se desse coroa, começaria a estudar os compositores; se desse cara, os poetas e os escritores. A moeda caiu na calçada e tilintou; depois rodopiou e finalmente parou.
Coroa!
O limpador de placas se abaixou para pegar a moeda e, enquanto brincava com ela, ficou pensando no que ia fazer. Era a primeira vez que ficava impaciente para terminar seu serviço.
Às cinco horas em ponto ele pegou sua bicicleta e pedalou depressa para a Central de Limpeza. Trocou de roupa voando e foi para casa bem ligeiro.

Assim que fechou a porta de casa, foi procurar papel e lápis para fazer uma lista. Carlos Gomes, Bach, Beethoven, Villa-Lobos, Mozart, Tom Jobim, Wagner, Pixinguinha, Handel, Noel Rosa.
Depois de ler e reler a sua lista, pregou-a na parede.
Em seguida, examinou o jornal com todo o cuidado para não perder nenhum anúncio de ópera, concerto ou show; anotou alguns programas num pedaço de papel e guardou-o na carteira. No dia seguinte foi comprar ingressos e tirou seu melhor terno do guarda-roupa.
“Agora eu sei o que estava faltando na minha vida!”, pensava, atento para o silêncio ansioso da sala de concerto.
Finalmente os primeiros sons ecoaram, foram crescendo um pouco tímidos, criaram força, explodiram em novos sons, juntaram-se outra vez, diluiram-se, tremeram, encolheram-se e, por fim, estrepitaram e morreram.
Com um arrepio de emoção, o limpador de placas acordou de uma espécie de sonho.
Ouviu um barulho de papéis e de pés que se arrastavam, e viu que as portas se abriram. O público, conversando, foi saindo do teatro.
O limpador de placas olhava em volta e sorria.

No dia de Natal, ele se deu uma vitrola de presente. Depois de desembrulhar o pacote, pôs a vitrola perto da árvore e solenemente ouviu seu primeiro disco.
A partir desse dia, o limpador de placas passou muitas noites na sala de sua casa ouvindo música. Pouco a pouco, foi tendo a sensação de que aqueles compositores, mortos havia tanto tempo, permaneciam vivos e de que, além disso, estavam se tornando seus melhores amigos: ouvindo as músicas que eles haviam composto e sentindo as emoções que eles um dia haviam sentido, era um pouco como se estivesse conversando com eles.
No trabalho, assobiava baixinho as melodias que havia decorado: a “Pequena Serenata Noturna”, de Mozart, a “Sonata ao Luar”, de Beethoven, e até mesmo algumas óperas, o que não era tarefa fácil, pois só era possível assobiar uma voz de cada vez, tratando, ao mesmo tempo, de imaginar as outras.
Quando os compositores se tornaram em velhos amigos, ele tirou a lista da parede, virou a folha e escreveu outra lista: Goethe, Guimarães Rosa, Vinícius de Morais, Thomas Mann, Monteiro Lobato, Drummond, Graciliano Ramos, Machado de Assis e José de Alencar.
Pregou a lista no mesmo lugar. Em seguida, foi à Biblioteca Municipal e retirou os livros de todos esses escritores e poetas.
Algumas semanas depois, os funcionários da biblioteca já o conheciam. Nem bem ele entrava, todos o cumprimentavam com grande familiaridade. É que o limpador de placas passara a ser um dos freqüentadores mais assíduos da biblioteca.
Nos livros, ele encontrou palavras que nunca ouvira antes. Algumas delas davam para entender, outras não. Mas quando aparecia um trecho difícil ele o lia muitas vezes, até compreender bem o seu significado.
Todas as noites ele mergulhava nos livros. E descobriu que os segredos guardados nas histórias eram muito parecidos com os segredos que encontrara nas músicas.
“Palavras são músicas escritas”, pensou. “Ou será que a música é o som das palavras não faladas?”
— Que pena! — costumava dizer aos colegas. — Que pena não ter começado minhas leituras mais cedo! Quanta coisa boa eu perdi!
Às vezes as palavras o acalmavam, às vezes o deixavam agitado. Em alguns momentos ficava pensativo; em outros, animado. Alegre e triste. Os poetas brincam com as palavras, assim como os compositores brincavam com os sons, os malabaristas com as bolas e com os aros, ou os mágicos com seus lenços e baralhos.
Por fim, aconteceu com os poetas e escritores exatamente o que havia acontecido com os compositores: eles se tornaram amigos íntimos do limpador de placas.
O limpador, depois que ficou conhecendo toda a obra daqueles poetas e escritores, começou a recitar os trechos de que mais gostava enquanto trabalhava. Às vezes era um trecho de Fausto, de Goethe, como este, por exemplo: “Pobre simplório, aqui estou, e sábio como dantes, sou!”. Ou então um pedacinho do Recado do Morro, de Guimarães Rosa: “Para baixo de mim, não olho; para cima, não posso ver…”. Outras vezes, ainda, ele ficava lembrando um pedaço de Vidas Secas de Graciliano Ramos, ou de O Fígado Indiscreto, de Monteiro Lobato.

E assim, lá ia ele: limpando placas e assobiando as mais variadas músicas, lustrando e declamando poesias, polindo e cantando, esfregando e recitando contos.
As pessoas que passavam ouviam o limpador e paravam, admiradas, de olhos fixos na escada azul. É que elas nunca haviam visto um limpador de placas como aquele. Quase todos os adultos acham que algumas pessoas servem só para limpar placas, outras só para escrever poemas, ou melodias. As primeiras, denominam trabalhadores; as outras, pessoas cultas e eruditas. O fato de alguém fazer as duas coisas ao mesmo tempo deixava essa gente tão atrapalhada que todo o seu modo de pensar desmoronava, desmanchava-se como um papelzinho no meio do fogo.
No alto de sua escada, o limpador de placas nem percebia que estava chamando tanta atenção. Ficava lá esfregando, lustrando, soprando, polindo, e só sossegava quando as placas de suas ruas começavam a resplandecer, cintilando ao sol.
Com o tempo, começou a retirar da Biblioteca Municipal os livros que estudavam os compositores, os escritores e os poetas. Aqueles eram livros muito difíceis. Às vezes, o limpador de placas achava que nunca ia conseguir entender o que eles diziam.
E o tempo foi passando. Depois de estudar quase todos os livros importantes, o limpador de placas, já mais velho, continuava cuidando das placas, limpando-as como sempre. Ele as tratava com o mesmo carinho de antes, e, com as pontas dos dedos, gostava de acariciar aqueles nomes que haviam passado a ser a sua melhor companhia, enquanto fazia palestras para si mesmo sobre Música e Literatura.
Um belo dia, uma família parou ao pé da escada azul e ficou ouvindo a palestra do limpador de placas com muita atenção. Duas meninas pararam de conversar e ficaram olhando para ele. Um rapaz pôs sua mochila no chão e ficou ali, ouvindo, que foi exatamente o que fez uma turma inteira de estudantes, juntamente com seu professor. Outras pessoas que estavam passando, ao ver aquele amontoado de gente, também pararam. O limpador de placas nem percebeu. Quando deu por encerrada a limpeza da pisca e desceu pela escada azul, encerrando também sua palestra, as pessoas bateram palmas. O limpador ficou vermelho de vergonha e, recolhendo rapidamente suas coisas, empurrou a bicicleta até à placa seguinte.
Todas as pessoas foram atrás. O limpador de placas achou aquilo muito embaraçoso. Mas o que fazer? Não podia proibir ninguém de andar pela calçada! Pensando assim, ele continuou seu serviço sem parar de fazer palestras, mas tentando não olhar para baixo.
As horas passavam devagar. Quando, afinal, o relógio da igreja da Praça José de Alencar deu cinco horas, o limpador de placas subiu na bicicleta e foi embora aliviado. As pessoas que o ouviam ficaram para trás, acenando para ele.
Na manhã seguinte, quando chegou à Praça Carlos Gomes, já havia muita gente esperando por ele. O limpador de placas era muito tímido e, ao ver aquelas pessoas, ficou com soluços. Perdeu a respiração, contou devagar até dez, encostou a escada azul na primeira placa e começou a limpeza com uma palestra diferente da do dia anterior. Quando ele ia para a placa seguinte, as pessoas iam atrás. Depois que ele limpou a última placa e pronunciou o encerramento da palestra, ouviu-se um murmúrio de aprovação.
Sentindo-se acanhado, o limpador de placas foi embora e a plateia se dispersou. Foi nesse momento que ele entendeu que daquele dia em diante ia ter sempre um público esperando por ele; por isso, começou a preparar-se melhor para seus discursos. Não queria passar vergonha.
O número de pessoas que assistiam às palestras do limpador de placas foi ficando cada vez maior, até que virou uma multidão que se reunia diariamente ao redor da escada azul. Aos poucos, o limpador de placas foi se acostumando: de placa em placa, subia e descia de sua escada sem se deixar perturbar pelo tumulto.
Um dia, a equipe do programa de televisão “Pessoas como eu e você” reuniu-se à multidão. O limpador de placas foi filmado fazendo o seu serviço, depois foi entrevistado, e da noite para o dia ele ficou muito famoso.

Depois que o programa foi para o ar, começou a maior confusão. Apareceram pessoas pedindo autógrafos. O carteiro trazia sacolas cheias de cartas. O encarregado dos limpadores e o gerente da Central de Limpeza de Placas de rua fizeram uma homenagem a ele, discursando com palavras de agradecimento; graças ao serviço daquele funcionário, a Central também havia ficado famosa. Quatro universidades convidaram-no para dar aulas. Se quisesse, ele poderia ter feito uma fabulosa carreira acadêmica.
Mas o limpador de placas de rua não queria nada daquilo. “Sou um homem simples”, escreveu, respondendo a uma carta, “e o que mais gosto de fazer é passar o dia inteiro limpando placas de rua! Só faço as palestras para me distrair. Não pretendo ser professor. Sentiria muita falta do meu serviço.”
E foi assim que ele continuou sendo o que era: um limpador de placas de rua.

Monika Feth
O limpador de placas
São Paulo, Brinque-Book, 1997

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