Tolerância

O sentido literal de tolerância é “suportar em silêncio”. A palavra possui, no entanto, outros sentidos, que passo a enumerar:

a) Enfrentar o contraditório. Testar os limites daquilo em que acredito ou penso acreditar. Ter consciência da minha própria sombra, que  tantas vezes vejo refletida nas palavras e nos atos dos outros.

b) Entender que a verdade é maior do que um indivíduo, uma escola, uma classe ou uma ideologia. Ninguém a possui em plenitude. 

c) Quem pensa diferente não é meu inimigo, é apenas quem pensa diferente.

d) A diversidade possibilita que, na dialética da existência, existam respostas contraditórias para a mesma questão. Assim, eu posso estar certo e o outro TAMBÉM pode estar certo. A propósito: também podemos estar ambos errados.

e) A condição é escutar, respeitar e responder sem paixão, sem juízos condenatórios. Colocar-se no lugar do outro, para compreender o seu ponto de vista.

f) Quem concorda comigo não tem de ser, por isso, uma pessoa melhor ou mais inteligente; pode ser apenas alguém que agrada ao meu Narciso interior.

Quais os limites do que se acaba de expor? Os limites da lei vigente e do respeito pelo próximo. Preconceito, homicídio, pedofilia, violências em geral, NÃO podem ser alvo de debate, apenas de condenação plausível. A lei é um acordo social sobre as molduras da convivência. Não posso discutir racismo, apenas lamentar quem o defenda e, no limite, denunciá-lo aos agentes legais. Não posso relativizar a violência contra a mulher, apenas denunciá-la e combatê-la. Fora destas molduras, tudo pode ser avaliado e discutido. A condição para a não-barbárie é aceitar a diferença como uma riqueza possível e recomendável para que a sociedade não caia em extremismos.

Leandro Karnal, 2016
Adaptação

Advertisements