Emprego e desemprego no tempo do medo

O direito laboral está a reduzir-se ao direito de trabalhar pelo que quiserem pagar e nas condições que quiserem impor. Não existe no mundo mercadoria mais barata do que a mão de obra. Enquanto caem os salários e aumentam os horários, o mercado laboral vomita gente. É pegar ou largar, que a fila é comprida. 

 

A sombra do medo morde os calcanhares do mundo. Medo de perder: perder o trabalho, perder o dinheiro, perder a comida, perder a casa. Até o mais ganhador pode, de repente, transformar-se em perdedor. As ondas, furiosas, batem: a ruína ou a fuga das indústrias locais, a concorrência de mão de obra mais barata de outras latitudes, ou o implacável avanço das máquinas, que não exigem salários, nem férias, nem reforma, nem indemnização por despedimento.

O desenvolvimento da tecnologia não está a servir para multiplicar o tempo de descanso e os espaços de liberdade, mas sim a multiplicar a desocupação e a semear o medo. Qualquer um pode cair, em qualquer momento ou em qualquer lugar. À entrada de Auschwitz, o campo de extermínio nazi, estava escrito: O trabalho liberta. Mais de meio século depois, o funcionário ou o operário que tem trabalho deve agradecer o favor que alguma empresa lhe faz, permitindo-lhe perder a alma, dia após dia, carne de rotina, no escritório ou na fábrica. Encontrar trabalho, ou mantê-lo, embora sem férias, por vezes sem reforma, e a troco de um salário insignificante, festeja-se como se fosse um milagre.

Cada vez há mais desocupados no mundo. Sobra cada vez mais gente. Que vão fazer os donos do mundo com tanta humanidade inútil? Vão mandá-la para a lua? Na europa ainda existem subsídios que aliviam a sina dos desempregados, mas o facto é que muitos jovens não arranjam emprego fixo.

A globalização é uma cartola na qual as fábricas desaparecem por artes de mágica, fugidas para os países pobres. A tecnologia, que reduz vertiginosamente o tempo de trabalho necessário para a produção de cada coisa, empobrece e subjuga os trabalhadores em vez de os libertar da necessidade e da servidão; o trabalho deixou de ser imprescindível para a replicação do dinheiro. São muitos os capitais desviados para os investimentos especulativos. Sem transformar a matéria, sem mesmo tocar nela, o  dinheiro reproduz-se muito mais depressa a fecundar-se a si mesmo. A história está a andar um século para trás: a maioria dos trabalhadores não tem estabilidade laboral nem direito a indemnização por despedimento; e a insegurança laboral faz cair os salários.

O medo, pai de família numerosa, também gera desconfiança e hostilidade. Nos países do Norte do Mundo costuma traduzir-se em ódio aos estrangeiros que oferecem os braços a preços de desespero. É a invasão dos invadidos. Ele vêm das terras onde uma e mil vezes desembarcaram as tropas coloniais da conquista e as expedições militares de punição. Os que fazem, agora, esta viagem ao contrário, não são soldados obrigados a matar: são trabalhadores obrigados a vender os braços na Europa ou no norte da América, seja a que preço for. Vêm da África, da Ásia, da América Latina e até do Leste europeu. Nos anos de recessão, ou de crescimento doente e ameaçado pela crise, os hóspedes inevitáveis tornaram-se intrusos indesejáveis: cheiram mal, fazem barulho e tiram empregos.

Esses trabalhadores, bodes expiatórios do desemprego e de todas as desgraças, estão também condenados ao medo. Várias espadas lhes pendem sobre a cabeça: a sempre iminente expulsão do país a que vieram parar, fugindo da miséria, e a sempre possível explosão do racismo. Os imigrantes pobres executam as tarefas mais pesadas e mal pagas, nos campos e nas ruas. Depois das horas de serviço, vêm as horas de perigo. Nenhuma tinta mágica os cobre para os tornar invisíveis.

Paradoxalmente, muitos trabalhadores do Sul do Mundo emigram para Norte, ou tentam contra ventos e marés essa aventura proibida, enquanto muitas fábricas do Norte emigram para o Sul. O dinheiro e as pessoas cruzam-se no caminho. O dinheiro dos países ricos viaja para os países pobres, atraído pelas jornadas de trabalho a um dólar e sem horários, e os trabalhadores pobres viajam, ou quereriam viajar, para os países ricos, atraídos pelas imagens de felicidade que a publicidade oferece ou a esperança inventa.

Noutras épocas, enquanto Roma se apoderava de todo o Mediterrâneo e muito mais, os exércitos regressavam arrastando caravanas de prisioneiros de guerra. Esses prisioneiros transformavam-se em escravos e a caça ao escravo empobrecia os trabalhadores livres. Quanto mais escravos havia em Roma, mais caíam os salários e mais difícil se tornava arranjar trabalho. Dois mil anos mais tarde, um empresário fez  um revelador  elogio à globalização:

— Os asiáticos trabalham vinte horas por dia — declarou — por oitenta dólares por mês. Se quiser competir, tenho de recorrer a eles. É o mundo globalizado. As raparigas filipinas, nos nossos escritórios de Hong Kong, estão sempre disponíveis para trabalhar. Não há sábados nem domingos. Se tiverem de fazer diretas fazem-no e nunca cobram horas extraordinárias nem pedem nada. 

Meses antes, tinha-se incendiado uma fábrica de bonecas em Banguecoque. As operárias, que ganhavam menos de um dólar por dia e que comiam e dormiam na fábrica, morreram queimadas. A fábrica estava fechada por fora, como os barracões no tempo da escravatura.

São numerosas as indústrias que emigram para os países pobres à procura de braços, que os há baratíssimos e em abundância. Os governos desses países pobres dão as boas-vindas aos novos postos de trabalho, trazidos pelos messias do progresso em bandejas de prata. Mas, em muitos desses países pobres, o novo proletariado fabril labora em condições que evocam o nome que o trabalho tinha na época do Renascimento: tripalium, que era também o nome de um instrumento de tortura. O preço de uma t-shirt com a imagem da princesa Pocahontas equivalia ao salário de toda uma semana do operário que coseu essa t-shirt no Haiti, a um ritmo de 375 t‑shirts por hora. O Haiti foi o primeiro país do mundo a abolir a escravatura; e dois séculos depois desse feito, que muitos mortos custou, o país padeceria de escravatura assalariada.

A caçada aos braços já não carece de exércitos, como acontecia nos tempos coloniais. Disso se encarrega, sozinha, a miséria de que padece a maior parte do planeta. É a morte da Geografia: os capitais atravessam fronteiras à velocidade da luz, devido às novas tecnologias da comunicação, que eliminaram o tempo e as distâncias. E quando uma economia arrefece em algum lugar do planeta, outras economias espirram do outro lado do mundo.

Os países pobres estão metidos, de alma e coração, num concurso universal de bom comportamento, para ver quem oferece salários mais raquíticos e maior liberdade para eliminar o meio ambiente. Os países competem entre si para seduzirem as grandes empresas multinacionais. As melhores condições para as empresas são as piores condições para o nível dos salários, da segurança no trabalho e da saúde da Terra e das pessoas.

A globalização tem ganhadores e perdedores, adverte um relatório das Nações Unidas. Supõe-se que uma maré de riqueza em ascensão levantará todos os barcos. Mas alguns podem navegar melhor do que outros. Os iates e os transoceânicos estão de facto a levantar-se, em resposta às novas oportunidades, mas as balsas e os barcos a remos estão a meter água e alguns estão a afundar-se rapidamente.

Os países tremem perante a possibilidade de que o dinheiro não venha, ou de que o dinheiro fuja. Se não se portarem bem, dizem as empresas, vamos para as Filipinas, ou para a Tailândia, ou para a Indonésia, ou para a China, ou para Marte. Não se portar bem significa: defender a Natureza ou o que resta dela, reconhecer direitos laborais, exigir o respeito pelas normas internacionais e pelas leis locais.

Em 1995, uma cadeia de lojas vendia, nos Estados Unidos, camisas made in El Salvador. Por cada camisola vendida a vinte dólares, os operários salvadorenhos recebiam dezoito cêntimos. Os operários, ou, melhor dizendo, as operárias, porque eram maioritariamente mulheres e crianças que se matavam a trabalhar mais de catorze horas por dia no inferno das oficinas, organizaram um sindicato. A empresa contratista despediu trezentas e cinquenta. Veio a greve. Houve espancamentos e prisões. Em finais de 95, as lojas anunciaram que se iam embora para a Ásia.

Os vencedores não têm deveres e os vencidos não têm direitos.

Eduardo Galeano
De pernas para o ar
Lisboa, Caminho, 2002

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