O dia mais fantástico

Do lado de fora da minha janela há um cenário de beleza de cortar a respiração. Penhascos encimados por árvores erguem-se ao longo do rio, e, de cada vez que o sol se liberta das nuvens, polvilha as folhas de luz e ilumina o rio de reflexos de ouro.

Cá dentro, mais imagens alimentam os meus olhos. Um Buda sobre uma mesa de cerejeira, a sua eterna gargalhada magistralmente captada por um xilogravador filipino, e um cacho de cristais de quartzo a brilhar aos seus pés. Um conjunto de fotografias — família, amigos e locais longínquos — aumenta o encanto desta exposição.

A contribuir ainda mais para este dia tão fantástico está um sentimento de satisfação – que vem do facto de eu estar envolvida numa atividade que aprecio. Sento-me e escrevo num apartamento limpo e sossegado, uma chávena de chá de maçã por perto, o seu vapor a rodopiar, tornando mais doce o ambiente. Ao interiorizar tudo isto, sinto-me inundada de uma sensação que aquece a alma e que pode ser descrita como gratidão.

Também é importante sabermos expressar gratidão por todas aquelas coisas que nos desafiam, entristecem, enfurecem ou frustram. Como diz o poeta Theodore Roethke: Em momentos de escuridão, os olhos começam a ver. Como artista e contadora de histórias, deparei-me com mitos e contos que dão vida a esta ideia. Muitas dessas histórias ensinam-nos que as serpentes e os sapos – criaturas frequentemente associadas a uma sensação de  repugnância – são, na verdade,  guardiães de ouro e joias preciosas. De modo semelhante, não falta significado às experiências dolorosas. Quando abrimos a concha da dor, quase sempre descobrimos pérolas espirituais.

Uma vez, tive uma participante num workshop com uma história que ilustra com beleza o poder da gratidão. Esta mulher, Marisol, carregava as cicatrizes de uma difícil vida familiar. Apesar de um dos pais ser um trabalhador árduo e estável, o outro era alcoólico e quase sempre ausente. Os abusos que Marisol sofreu nas mãos deste pai, quando combinados com a sua educação de infância nas ruas de um bairro degradado, acabaram por levar à sua ruína. A sua alma entrou em colapso e ela caiu no submundo infernal das drogas.

Quando Marisol fez trinta anos, ficou grávida. Soube também que era portadora de HIV. Motivada pelo medo e pela maternidade iminente, começou a alimentar um sonho — mudar a sua vida. Com este objetivo, começou a procurar ajuda. Devido ao facto de ela ter expressado profunda gratidão em relação ao pessoal administrativo, assistentes sociais, padres e médicos envolvidos no seu caso, muitos envidaram esforços para lhe dar assistência. O apoio deles, combinado com a sua própria força de vontade, operou um milagre.

Na altura em que escrevo isto, Marisol está bem, a caminho da recuperação e, apesar do HIV, encontra-se de boa saúde. A energia que outrora queimava livremente no fornilho de um cachimbo de crack está agora a ser usada para criar um futuro – longo ou curto – para si e para a sua filha – uma criança de dois anos, de olhos brilhantes e pernas rechonchudas.

Sentir e expressar gratidão pelas coisas boas que temos nas nossas vidas não nos dá permissão para aceitar passivamente os aspetos das nossas vidas que não estão a funcionar. No entanto, enquanto nos esforçamos por transformar a escassez em ouro, temos de nos concentrar na nossa riqueza, não na nossa pobreza. E ao mesmo tempo que temos de fazer um esforço consciente para resolvermos os nossos problemas, é imperativo que encontremos coisas para louvar. Queixarmo-nos apenas concentra a atenção da nossa mente nas coisas  que estão em falta, e aquilo em que nos concentramos mentalmente vai tomando forma no mundo exterior.

Uma maneira de desenvolvermos o nosso sentido de gratidão é prestarmos mais atenção à beleza em nosso redor. Até situações aparentemente insignificantes, tal como matarmos a sede com um copo de água fresca, deliciarmo-nos debaixo de um edredão numa manhã ventosa, observarmos a brisa a desfazer uma bolinha de sementes de dente-de-leão, ou ouvirmos um coro de grilos a estridular e a cantar numa noite de lua cheia são coisas que, se forem consideradas com respeito, podem evocar a nossa gratidão.

Infelizmente, a nossa falta de gratidão manifesta-se de inúmeras formas, algumas das quais nem sempre óbvias. Por exemplo, muitos de nós passamos à pressa  pela vida, ignorando os seus esplendores, enquanto desenrolamos  listas de atividades desconcertantes. Passamos por paisagens a explodir de cor, mas mal reparamos. Devoramos a nossa comida sem sequer um obrigado silencioso ao ser que deu a sua vida pela nossa alimentação. Os outros fazem coisas simpáticas ou úteis e nós minimizamos os seus esforços ou expressamos um reconhecimento inadequado pelos serviços prestados. Atiramos livros bonitos para o chão, tomando como garantidas as suas páginas cheias de viço e de sabedoria. Enredados nas exigências das nossas vidas pessoais, ignoramos demasiadas vezes, ou tratamos com rigidez, a teia de amigos, membros da família e colegas que nos apoiam na nossa viagem através da vida. A própria fonte da existência, o Sol, é muitas vezes cumprimentado com uma lamúria e um queixume; é visto como um intruso exigente que nos manda afastar as mantas do sono e começar as atividades de um dia indesejado.

Muitas tradições dos nativos americanos enfatizam a importância de expressar gratidão, particularmente em relação à terra. Como acontece a muitas outras pessoas, atrai-me a beleza solene dos Cânticos Navajos de Bênção. Diz-se que o poder destas canções cerimoniais é tão grande que elas conseguem fazer com que o indivíduo angustiado volte a estar em harmonia com o mundo.

Não há muito tempo, vi um documentário com um cantor navajo a recitar uma versão do Cântico de Beleza a uma mulher idosa. O cântico, destinado a atenuar a ansiedade da mulher, descrevia a ligação do paciente com o espírito das montanhas, ervas, plantas perenes, brumas matinais, nuvens, rios, gotas de orvalho e pólen. Ao ajudar essa pessoa a sentir afinidade com a beleza rica e selvagem em seu redor, o cantor contribuiu para a sua cura.

De um modo semelhante, o ato de sentir e expressar gratidão é medicina boa e poderosa. Quando nos sentimos ligados à riqueza que nos rodeia, sentimo-nos abençoados. E embora a vida e o sofrimento estejam interligados – emparelhados como arco-íris e nuvens de temporal, luz e sombra, saúde e doença — a gratidão, tal como a fé, ajuda-nos a compreender que o sofrimento não é tudo.

Margaret Olivia Wolfson

Louise L. Hay
Gratidão, Uma forma de vida
Lisboa, Editora Pergaminho, 2011

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