As Crianças Lambem o Prato

Quer se trate de populações cujo fraco poder de compra não lhes permite o acesso aos víveres vendidos no mercado ou pessoas cujo estatuto social as torna desprezadas pelas sociedades em que estão inseridas, um elevado número de seres humanos está votado à eliminação ao longo dos próximos anos. Mas ninguém reconhecerá abertamente que “programou” a eliminação pela fome, pelo massacre ou pela deportação daqueles que os incomodam. 

A distribuição efetiva da alimentação é uma das primeiras causas da fome no mundo. Embora um país tenha com que alimentar corretamente a totalidade da sua população, pode ser afetado por uma fome endémica, porque os indivíduos que socialmente contam menos não têm acesso aos alimentos: os mais pobres, as minorias e todos aqueles cuja fome quotidiana não tem impacto no plano nacional. O Brasil e a Índia são arquétipos desses países que têm nutrição suficiente, sem nutrir suficientemente todos os seus habitantes.

O que é ainda mais grave é que a injustiça nacional começa a nível familiar. Em muitas sociedades tradicionais, o sustento é fornecido, em primeiro lugar, aos homens adultos, quer porque são vistos como as pessoas que proveem à sobrevivência do grupo quer porque os homens têm um estatuto social dominante. As mulheres e as crianças apenas partilham os restos. Como as crianças estão em fase de crescimento e as mulheres estarão grávidas ou a amamentar, são elas as primeiras vítimas da fome.

Isto não acontece por acaso. No domínio alimentar, como em muitos outros, os mais fracos são os primeiros a ser atingidos. As crianças muito pequenas são alvos privilegiados porque não deram ainda prova da sua capacidade de sobrevivência e porque consomem a sua parte sem prover à subsistência coletiva. Quando as crianças são colocadas pelas organizações humanitárias nos centros terapêuticos de nutrição é porque as mães já assumiram o seu “desaparecimento”, ocupadas que estão a nutrir as mais velhas, as que já ultrapassaram as vicissitudes dos primeiros anos. Embora isto nos choque profundamente, as pessoas que vivem em contextos de sobrevivência consideram a proteção dos mais fracos um “luxo” a que não se podem dar.

A “fome silenciosa” que é a malnutrição é menos espetacular do que as enormes escassezes que mobilizam as câmaras de televisão. “Diluída” no seio das populações pobres, exerce os seus efeitos de forma insidiosa sem que nada seja feito para a combater.

 

Sylvie Brunel
Os que vão morrer de fome
Porto, Campo das Letras, 1998
(Adaptação)

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