A televisão e o coração do homem

Aqui é de televisão que se fala.

É de televisão que venho falando há mais de trinta anos. Porquê? Digamos que por amor. Não encontro melhor explicação, dado que só ele justifica a entrega de corpo e alma. A televisão é um dos grandes milagres do nosso tempo. Só para conhecê-la já valeu a pena ter vivido. Infelizmente, nem sempre tem sido usada da melhor forma, e isso me motivou para o combate.

Quero uma televisão que aproveite a minha inteligência e não a minha ignorância. Que aperfeiçoe a minha sensibilidade. Que me motive para a intervenção e não para a indiferença. Que reforce entre as pessoas os laços da solidariedade. Que não faça do consumismo o bezerro de oiro com pés de barro.

Quero que a televisão seja, em nossa própria casa, o amigo que nos ajude e não o monstro que nos devore. Quero uma televisão que não seja unicamente uma máquina de ganhar dinheiro. Quero um televisor não reduzido à condição de slot-machine. Quero que o lugar do televisor seja o coração do homem.

Entretanto, olhemos o televisor de olhos bem abertos.

A indiferença perante um televisor torna-nos cúmplices das suas muitas ações, por vezes muito feias.

É preciso fazer tudo para evitar que a televisão se transforme, ela própria, em inimiga da televisão.

Mário Castrim

O Lugar do Televisor (II Volume)
Lisboa, Revista Além-Mar, 2000
(adaptação)

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