A Importância da Espiritualidade

 

Sejamos cautelosos em relação àqueles caminhos espirituais que apenas pressupõem a mudança das nossas ideias ou crenças. A espiritualidade autêntica não consiste em traduzir o mundo de forma diferente, mas em transformar a nossa consciência. No entanto, muitas das abordagens contidas no “novo paradigma” apenas requerem que mudemos a maneira como pensamos o mundo: espera-se que pensemos holisticamente, em vez de analiticamente; que acreditemos, não no mundo newtoniano-cartesiano, mas no mundo da teoria de sistemas e na grande Teia da Vida[1]; espera-se que pensemos, não em termos de divisão patriarcal, mas em termos da Deusa e Gaia holísticas.

Todas estas ideias são importantes, mas não passam de formas de pensar o mundo em vez de formas de transformar o mundo. A maior parte das abordagens do novo paradigma recomenda que usemos o pensamento holístico de forma a ultrapassar o nosso mundo fragmentado. Porém, o desenvolvimento cognitivo é necessário, mas não suficiente, quer no domínio do desenvolvimento moral, quer nos domínios do desenvolvimento pessoal, espiritual e outros. Podemos ter um acesso ilimitado ao pensamento holístico, e encontrarmo-nos num estádio moral primário, com necessidades de segurança, impulsos egocêntricos e inclinações narcísicas. Podemos dominar por completo a teoria de sistemas e aprender cabalmente tudo sobre a nova física, e continuar emocional, moral e espiritualmente muito pouco desenvolvidos.

Assim, se apenas aprendermos a teoria de sistemas ou a nova física, se apenas nos informarmos sobre Gaia, ou pensarmos holisticamente, todas estas aprendizagens não terão necessariamente qualquer impacto na transformação da nossa consciência interior, porque nenhum dos aspetos acima referidos se relaciona com os estádios do crescimento e do desenvolvimento interior. Abramos qualquer livro sobre teoria de sistemas, o novo paradigma, a nova física, e por aí adiante, e aprenderemos como tudo faz parte integrante de uma grande e interdependente Teia da Vida e como, se aceitar este postulado, o mundo pode ser curado. Mas raramente encontraremos qualquer debate sobre estádios interiores de crescimento da consciência, os quais, e apenas eles, nos podem conduzir ao abarcar real da consciência global.

Nada encontraremos sobre o que uma vastíssima pesquisa nos ensinou sobre o crescimento da consciência do egocentrismo para o sociocentrismo, ou deste para o mundocentrismo. Não teremos indícios sobre como ocorrem essas transformações interiores, ou sobre o que podemos fazer, pessoalmente, para as fomentar – o que nos levaria a contribuir verdadeiramente para uma consciência espiritual, global e mundocêntrica, em nós mesmos e nos outros. Tudo com que nos deparamos resume-se ao seguinte: tanto a ciência moderna como as religiões matriarcais concordam que fazemos parte da grande Teia da Vida.

A crise ecológica, ou o principal problema de Gaia, não se resume à poluição, aos resíduos tóxicos, à destruição da camada do ozono, ou questões afins. O principal problema que Gaia enfrenta é a falta de seres humanos que tenham evoluído para níveis de consciência pós‑convencionais, mundocêntricos e globais. Se se encontrassem nesses estádios, as pessoas seriam automaticamente impelidas a tomar conta dos bens comuns. Os seres humanos atingem esse desenvolvimento, não através do conhecimento da teoria de sistemas, mas através de transformações interiores básicas, que vão do nível egocêntrico, em que o ser humano se centra em si mesmo, e apenas nos seus interesses pessoais e do seu grupo restrito, ao mundocêntrico, em que já existe sentido de responsabilidade social, e consciência empática em relação às necessidades dos outros e do planeta. Só nesta altura poderão acordar para uma profunda e autêntica preocupação em relação a Gaia. A cura primordial para a crise ecológica não é aprender que Gaia é uma Teia de Vida, por muito verdadeiro que isso seja, mas aprender formas de fomentar o crescimento interior em termos éticos e espirituais, e contribuir para tornar o mundo em que se vive um mundo melhor.

Resumindo, a teoria de sistemas e as teorias da Teia da Vida não transformam a consciência porque, coartadas pelo seu reducionismo subtil, não tratam adequadamente os estádios interiores do desenvolvimento da consciência, local onde se opera a verdadeira mudança. Podem ser ótimas formas de iniciar a caminhada espiritual, ajudam-nos quando sugerem que a vida devia ser mais unificada – mas elas próprias não constituem um percurso que conduza efetivamente a essa vida. Não oferecem nenhuma forma sustentada de prática interior que possa realizar os estádios mais globais e elevados da consciência. E, infelizmente, ao assegurar que oferecem uma visão do mundo completamente holística, muitas vezes impedem ou desencorajam as pessoas de encontrar um caminho genuíno que as conduza ao crescimento e desenvolvimento interiores. Impedem, assim, a evolução dessa mesma consciência global que, por outros meios, tão nobremente advogam.

 
Ken Wilber
Integral Psychology
Boston, Shambala, 2000
(Tradução e adaptação)

[1] The Web of Life é um livro de ecologia escrito por Fritjof Capra em 1996, que propõe a visão de uma interligação ecológica de todos os eventos que ocorrem na Terra. (N.T.)

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