A História como Destino

Há uma velha ideia dos povos que liga as catástrofes naturais aos fe­nómenos da cultura, que parece agora reactivar-se, com o que está a acontecer à nossa natureza. Os fogos des­te Verão, do Brasil à Rússia, as inundações, da Europa ao Paquistão e à China, fizeram surgir, com mais força do que nunca, a certeza da globalização das alterações cli­máticas. E, confusamente, associa-se essa ideia à da crise financeira global; enquanto as proporções dos desastres ecológicos de origem humana (como o derrame de crude no Golfo do México) atingem uma escala planetária, reforçando a crença numa relação negativa entre natureza e cultura. Não uma relação de causa e efeito (como, na Idade Média, entre o pecado e uma epidemia, por exemplo), mas um sintoma do catastrofismo inerente à marcha da História. Como se o pensamento do futuro próximo se traduzisse pela convicção de que «tudo irá cada vez pior».

«Tudo», isto é, o mundo ou a sociedade e o planeta. Aliás, as previsões já assinala­das, com datas marcadas para este século, dizem quase só respeito a macro-acontecimentos nefastos. Nenhuma imagem riso­nha da humanidade para o fim de século. Os progressos da ciência e da tecnologia, por mais extraordinários que se anunciem, não bastam para criar uma tal imagem que se sobreponha à do mal que aí vem.

A verdade é que a crença na ligação entre as catástrofes naturais e as crises sociais está em vias de se confirmar de modo evidente. Se as alterações climáticas são essencialmente de origem humana – através da vontade de poder que gera o desejo ilimitado de «dominar e possuir» a natureza, através do capitalismo e da técnica –, então a destruição ecológica da Terra estaria inscrita desde sempre nos conflitos entre os homens. A catástrofe transformaria a História em destino.

O que é terrível, neste cenário, é a probabilidade de se tornar real; e de saber que só a mudança total do comportamento dos povos e das vontades políticas poderia romper a fatalidade que se desenha. O que implicaria o impossível: a transformação rápida do capitalismo mundial e a convergência dos países numa política ecológica comum. Além de que a salvação do planeta exigiria a mobilização geral dos povos. Ou um Estado mundial. Entretanto, pratica-se localmente uma terapia de remendos e internacionalmente bloqueiam-se ou adiam-se medidas que deveriam ser aplicadas já e drasticamente.

Por outro lado, a ideia de uma mobiliza­ção geral dos povos é mais do que utópica. Uma ética ecológica planetária não se forma num dia. Os povos só se mobilizam para o conflito, não para a união. Há, no movimento da vida, como que uma inver­são perversa em direcção à inércia que a faz parecer um elemento da própria vida. Por isso preferimos o repouso ao movimento, a imobilidade à mudança. Vimos o esforço como sacrifício e dor, ultrapassando os limites da «vida boa».

Enraizada profundamente, esta ideia dá-se como universal. Mas não é. Na imensa desterritorialização que afecta as populações contemporâneas, a História acelerou tragicamente tornando o seu movimento maciçamente destruidor. Mas sabemos hoje, pelo menos, que a História não segue a lógica dialéctica, mas procede por rupturas, equívocos, acasos, construções efémeras preconcebidas, paradoxos. Por isso, não se pode afirmar que a catástrofe ambiental é um destino. Ou que a técnica ao serviço do capitalismo será cada vez mais o nosso futuro. Ou que a caotização progressiva das sociedades é inevitável. Como desacelerar o capitalismo, conter a demografia, subverter a pulsão do poder? Como transformar o esforço em prazer, e convencermo-nos que «o homem é o melhor bem para o homem» e não o seu pior inimigo? Não há fórmula mágica nem terapia à vista. Mas se ninguém possui as respostas, estas questões insistem, exigindo, para as tratar, todo o esforço da nossa inteligência afectiva.

José Gil
REVISTA VISÃO
Setembro de 2010

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