Uma Rapariga Corajosa – Clara Lemlich e a Greve das Costureiras de 1909

Sem TítuloUm navio aporta em Nova Iorque, com centenas de imigrantes a bordo e alguém que virá a revelar-se uma surpresa para a cidade.

Clara Lemlich é uma surpresa extremamente pobre, tem cerca de metro e meio e mal fala uma palavra de Inglês. Mas é uma rapariga de coragem e irá demonstrá-lo.

Clara sabe bem distinguir o certo do errado.

O errado é o que acontece algumas semanas depois de os Lemlich ocuparem o alojamento que lhes destinaram na América.

Ninguém contrata o pai de Clara, embora ela receba uma proposta de trabalho.

Uma proposta de trabalho a fazer blusas, casacos, vestidos de noite e outras roupas de mulher. Os milhares de raparigas imigrantes que foram contratados ganham apenas alguns dólares por mês, o que sempre ajuda para pagar a comida e a renda. Em vez de carregarem livros para ir à escola, muitas das raparigas carregam máquinas de costura para o trabalho.

Clara torna-se costureira.

Trabalha de manhã à noite, fechada numa fábrica. Filas e filas de jovens mulheres debruçam-se sobre as mesas a coser colarinhos, mangas e punhos, com toda a celeridade de que são capazes.

— Despachem-se, despachem-se! — gritam os patrões.

A divisão não tem luz direta e é insuportavelmente abafada, devido à quantidade de pessoas que nela se encontram.

Só há duas retretes sujas, um lavatório e três toalhas para trezentas raparigas.

Se alguém se picar num dedo e sujar o tecido, é multada. Se o fizer duas vezes, é despedida.

Se se atrasar alguns minutos, perde metade de um dia de salário.

As portas estão fechadas e todas as noites as trabalhadoras são inspecionadas para detetar eventuais roubos.

Clara aprende as regras depressa, mas continua a ser uma rapariga indómita.

Quer ler e aprender.

Quando o seu turno acaba, vai para a biblioteca, embora tenha dores de olhos, por causa da falta de luz com que trabalha, e de costas, por estar constantemente vergada sobre a máquina de costura.

Enche o estômago vazio com um copo de leite e dirige-se para as aulas noturnas.

Quando chega a casa, só dorme algumas horas antes de se levantar de novo.

À medida que as semanas se arrastam, Clara faz amizades com algumas das outras costureiras. Partilham histórias e segredos ao almoço, como se estivessem na escola onde deviam estar. Clara sente-se zangada não só por si, mas também pelas suas colegas de fábrica, que trabalham como escravas. Esta não é, de todo, a América que imaginara.

Os homens contam que têm tentado organizar um sindicato para poderem fazer greve até os patrões os tratarem melhor. Contudo, não acham que as raparigas sejam suficientemente determinadas.

Não são suficientemente determinadas? Por serem raparigas? Clara sabe que tem determinação que chegue e que as suas colegas também a têm. E está decidida a prová-lo. A partir de agora, quer seja em esquinas de ruas ou junto de máquinas de costura, Clara vai tentar convencer as outras trabalhadoras a lutarem pelos seus direitos.

Quando as costureiras estão exaustas, diz-lhes:

— Façam greve!

Quando não são pagas pelas horas que trabalham, diz-lhes:

— Façam greve!

Quando são punidas por dizerem o que pensam, diz-lhes:

— Façam grave!

E as raparigas assim fazem.

De cada vez que Clara lidera uma greve, os patrões despedem-na.

De cada vez que lidera um piquete, a sua vida corre perigo, porque os donos da fábrica contratam rufias para espancarem as grevistas.

A polícia chega a prendê-la dezassete vezes.

Quebram-lhe seis costelas, mas não conseguem quebrar a sua determinação.

Clara esconde os ferimentos dos pais e, alguns dias mais tarde, volta a manifestar-se.

As outras raparigas dizem entre si:

— Se ela consegue, também nós conseguimos.

As pequenas greves duram várias semanas. Entretanto, os patrões arranjaram outras jovens para fazer o trabalho das grevistas, a troco de salários igualmente baixos e de horas igualmente longas.

“Temos de preparar uma manifestação maior”, pensam Clara e outros líderes sindicais. “Uma greve maciça que envolva todas as fábricas de vestuário.”

O sindicato faz uma reunião. Os trabalhadores enchem os assentos, as coxias, as paredes. A sala fervilha de excitação. Clara escuta cada discurso, todos feitos por homens, que pedem aos trabalhadores para terem cuidado. Passam-se duas horas, mas ninguém defende uma greve geral. Mesmo o líder sindical mais poderoso do país não o faz, quando sobe ao pódio.

Então, Clara toma a palavra. A assistência carrega-a em ombros até ao palco e ela grita em iídiche:

— As palavras já esgotaram a minha paciência. Voto a favor de uma greve geral!

Clara dá início à maior greve de mulheres na história dos Estados Unidos.

Na manhã seguinte, Nova Iorque fica espantada com a visão de tantos milhares de raparigas a abandonarem as fábricas.

Um jornal chamou-lhes um exército. Outros chamaram-lhe revolta. É uma revolta de raparigas, algumas das quais com apenas doze anos de idade e a maioria com pouco mais.

Nas semanas seguintes, Clara é considerada uma heroína. Os seus discursos enérgicos aquecem salas frias de reuniões sindicais e as suas canções animam os grevistas. Sempre que se aproxima um grupo de rufias, Clara encoraja:

— Mantenham-se firmes, raparigas!

E elas assim fazem.

Durante o inverno todo, as raparigas caminham ao lado dos homens nos passeios gelados, vestidas apenas com casacos finos e de má qualidade. Estão exaustas, têm fome e têm medo. Mesmo assim, abarrotam as salas de reuniões, bloqueiam as ruas e enchem as esquinas e praças.

Os jornais escrevem sobre elas. As estudantes universitárias angariam fundos para as ajudar. Mulheres ricas, envoltas em casacos de peles, caminham ao lado delas. Quando a greve termina, centenas de patrões concordam em deixar os trabalhadores organizarem-se em sindicatos. Encurtam a semana de trabalho e aumentam os salários. A greve dá alento a milhares de trabalhadoras das fábricas de vestuário de Filadélfia e Chicago. E convence Clara a continuar a lutar pelos direitos dos trabalhadores. Tem a garganta rouca e os pés moídos, mas ajudou milhares de pessoas.

Provou que, na América, o que está errado pode ser corrigido, os guerreiros podem trajar saias e blusas e os corações mais corajosos podem pertencer a raparigas de apenas um metro e meio de altura.

§§

 

MAIS  INFORMAÇÕES  SOBRE  A  INDÚSTRIA  DO  VESTUÁRIO

 

Entre 1880 e 1920, dois milhões de judeus emigraram para a América, vindos da Rússia, Ucrânia, Polónia e outros países do Leste da Europa, fugindo de perseguições, pogrons (ataques sancionados pelos governos) e da pobreza. Muitos destes emigrantes encontraram trabalho na indústria do vestuário, na altura em expansão. Em 1909, o ano da greve geral, quase 400 fábricas empregando 40 000 trabalhadores faziam camisas para metade do país. Oitenta por cento destes trabalhadores eram mulheres, setenta por cento tinham entre 16 e 25 anos de idade, e sessenta e cinco por cento eram judeus do Leste da Europa. Os restantes trabalhadores eram italianos e americanos. Muitos dos donos das fábricas também eram judeus do Leste da Europa que tinham subido a pulso no negócio.

A indústria era pródiga em abusos. Muitos empregadores reduziam as horas de almoço, atrasavam os relógios ao fim do dia para enganar os trabalhadores e faziam-nos trabalhar muitas horas (incluindo horas noturnas ilegais), em troca de pouco dinheiro. Faziam-nos ainda pagar por tecidos sujos com sangue ou comida e despediam-nos quando queriam.

Algumas fábricas chegavam a empregar meninas de seis anos para cortarem os fios das peças.

 Quando a greve de 1909 começou, a polícia e os juízes colocaram-se ao lado dos abastados donos das fábricas. Seiscentas jovens foram presas e treze raparigas, algumas com 12 anos de idade, foram condenadas a cinco dias de detenção numa casa de correção. A brutalidade policial só cessou quando os membros da Liga do Sindicato das Mulheres, constituída por mulheres de classe média abastadas, se juntaram às grevistas e organizaram comícios para divulgar as miseráveis condições de trabalho destas.

Quando a greve terminou, 339 firmas de vestuário permitiram que os trabalhadores formassem sindicatos, encurtaram a semana de trabalho, e aumentaram a hora de salário. Algumas companhias, porém, recusaram negociar, nomeadamente a fábrica Triangle Waist, na qual as péssimas condições de segurança originaram um incêndio que reclamou 146 vidas, tragédia que aumentou a consciência pública acerca dos problemas da indústria do vestuário. Clara Lemlich, que na altura teria cerca de vinte e poucos anos, chegou a ser encarregada pelo sindicato de investigar as condições de saúde e segurança da indústria do vestuário.

Depois da greve, milhares de trabalhadores de outras cidades do país, tais como Filadélfia, Chicago, Cleveland e Kalamazoo, fizeram greve por melhores condições de trabalho ou campanha pelo direito de constituir sindicatos. Tal como Clara Lemlich, também Pauline Newman e Rose Schneiderman assumiram papéis de liderança no movimento laboral. Os progressos obtidos pelos ativistas da indústria do vestuário tiveram impacto em empregos por todo o país.

Embora ainda existam erros que precisam de ser corrigidos, os trabalhadores de hoje dispõem de semanas de cinco dias de trabalho, pagamento por horas extraordinárias e outros esquemas de proteção devido, em grande parte, a líderes laborais como Clara Lemlich e a milhares de raparigas corajosas que fizeram greve no inverno de 1909.

Michelle Markel; Melissa Sweet
Brave Girl
New York, Balzer+Bray, 2013
(Tradução e adaptação)

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