O Sentido da Gratidão

O Homo technicus-economicus julga-se autossuficiente. Arrogante, demiurgo, autocomplacente, põe e dispõe de tudo o que o planeta lhe oferece. Outorga-se todos os direitos, ignora todos os deveres, e corta todos os laços que o unem aos outros seres humanos, à natureza, à história, ao cosmos. Leva tão longe a sua emancipação que corre o risco de soltar todas as amarras e de desligar, de se desligar, de se autoexpulsar da criação.

A sua ideologia é tão simplista que qualquer fundamentalismo religioso parece subtil e pluralista em comparação. Funciona segundo um só preceito, uma só lei, um só parâmetro, um só padrão: o rendimento! Será difícil não perceber que cada subsídio retirado à cultura e à educação terá de ser multiplicado por cem para poder custear os serviços médicos, a ajuda social e a segurança policial? Sem conhecimento, sem visão e sem imaginação, qualquer sociedade soçobra, mais cedo ou mais tarde, no absurdo e na agressão.

Existe, contudo, um antídoto para este veneno. É a gratidão.

Só a gratidão impede a nossa correria ávida, só ela dá acesso a uma abundância sem limites. A gratidão revela que tudo é um dom e que esse dom é imerecido. Não porque somos indignos dele, segundo uma ótica moralizante, mas porque o nosso mérito nunca será suficientemente grande para contrabalançar a generosidade da vida.

Um jovem colhe uma rosa do jardim, às escondidas. Mas o jardineiro viu-o. Aproxima-
-se dele com um sorriso e pergunta-lhe:

— Porque levas essa rosa como um ladrão, quando eu me preparava para te oferecer o jardim?

À superabundância generosa da Criação, respondemos com uma avidez ardilosa. A Vida dá-nos em abundância aquilo que o nosso sistema económico lhe tira através da astúcia e da agressão manipuladoras. Que temos nós, afinal, que não tenhamos recebido como dom? Se olhar à minha volta, vejo que a resposta é “muito pouco”. A terra onde pouso os pés, o ar que respiro, de quem são? De quem é a língua que falo? E estes conhecimentos que julguei meus? Esta mão que segura a caneta? E este corpo generosamente emprestado por um tempo?

“Nada tens que não tenhas recebido. Porquê glorificares-te, então?” pergunta um Padre da Igreja.

Não existe nenhuma invenção individual que não se inscreva na interminável lista de inovações pré-existentes, nenhuma nota que não faça parte de uma sinfonia sem princípio nem fim. E, contudo, nada é mais precioso e mais insubstituível neste imenso concerto que é o mundo do que a singularidade de cada voz e de cada ser.

O início de qualquer vida consciente é a gratidão. Quando aprendemos a discernir os traços de outros seres humanos, vivos ou mortos, a nossa forma de estar na vida dilata-se e engrandece-se.

Testemunhei o episódio seguinte, aquando da visita de um amigo budista e da sua filha de três anos a nossa casa. Estávamos a tomar o pequeno-almoço, e a menina, chamada Sofia, tinha começado a riscar a mesa com a faca. O pai deteve-lhe a mãozinha, com doçura:

— Para, Sofia. De quem é esta mesa?

A miúda respondeu, amuada:

— É da Christiane.

— E antes de ser da Christiane, de quem era? A mesa é antiga, outros já devem ter comido nela.

— Era dos pais dela, dos avós dela, dos…

— E antes deles? Pertenceu a um marceneiro que comprou a madeira para a fazer. E de onde vinha a madeira? De uma árvore que um lenhador abateu. Essa árvore pertencia à floresta que a tinha protegido, à terra que a tinha alimentado, ao ar, à luz, ao universo inteiro! E esta mesa também pertence àqueles que virão depois de nós e que nascerão quando nós já não existirmos.

Um círculo fechava-se após outro, como as ondas concêntricas que se geram num lago sempre que uma pedra é lançada. E os olhos de Sofia também cresciam e se expandiam.

Todo e qualquer processo de humanização começa por ser uma homenagem às origens. Prestar homenagem aciona um mecanismo secreto que abre toda e qualquer prisão.

Quando me inclino diante do outro, o meu gesto não quer dizer que tudo nele é perfeito. Significa apenas que consegui entrever a eternidade que lhe deu corpo, a parte indestrutível do seu ser. Isso faz com que as aparências, as tentativas fracassadas, os mal-
-entendidos, os falhanços e as feridas percam a sua virulência e se esboroem sob a ação tranquila do tempo.

É-me pedido um só gesto para transformar a minha existência numa vida digna, seja qual for o sofrimento por que passei. Quando depois de uma relação infeliz, viro as costas e me vou embora, sem olhar para trás, a relação acabou. Mas a dependência permanece. Mesmo que a relação tenha sido cortada, as marcas persistentes do inacabado, do mal-estar ou da maldição persistem.

Quantas biografias, aventuras humanas e empreendimentos começam por uma porta fechada ao passado e rapidamente se veem invadidos por um vírus impercetível? Mesmo que a porta esteja fechada, os problemas atravessam as paredes. Só existe uma forma de nos libertarmos desta dependência maléfica: prestar homenagem e ter consciência da ligação universal que nos une.

Cada pessoa tenta fazer, à sua maneira, a difícil travessia da vida. Não é o seu sucesso que faz com que nos inclinemos perante ela: é a pulsão de vida e a esperança mais secreta que a habitam que nos comove e que saudamos. Quando se recebe os dons da vida sem gratidão, quando ignoramos a lei do respeito devido a cada alma, o mundo afunda-se na agonia.

Christiane Singer
N’oublie pas les chevaux écumants du passé !
Paris, Albin Michel, 2005
Tradução e adaptação

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