O murmúrio dos fantasmas B. Cyrulnik

O afeto é uma necessidade tão vital que, quando se é privado dele, agarramo-nos intensamente a qualquer acontecimento que desperte em nós um pouco de vida, seja qual for o preço a pagar. Aqueles que recusam  ficar prisioneiros de um trauma devem libertar-se dele para voltarem à vida. Há mesmo quem transforme esse trauma numa ferramenta imprescindível para regressar ao caminho da felicidade.

Nestas páginas, Boris Cyrulnik, apesar de uma infância marcada pela guerra e pela deportação dos pais, tornou-se um homem que superou os seus próprios traumas e se tornou respeitado por todos. O drama que viveu não o afastou dos homens, mas levou-o a tentar compreender «o que é o humano» e a acreditar que há algo em todos nós que «nos leva a não fazer o mal porque nos pomos no lugar do outro, e isto é, provavelmente, o fundamento da moral». Estudou medicina, tornando-se neuropsiquiatra, psicólogo e psicanalista, e conta como o fracasso do passado permanece na criança grande que tece novos laços afetivos e sociais. Enquanto atitude nova face ao sofrimento psíquico, a resiliência propõe a construção deste processo de libertação. O seu livro intitulado O Murmúrio dos Fantasmas é uma verdadeira mensagem de esperança.

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 Introdução

Ninguém podia adivinhar que se tratava de um fantasma. Era demasiado bonita para o ser, demasiado meiga, brilhante. Uma aparição não tem calor, é um lençol frio, um tecido, uma sombra inquietante. Mas ela deslumbrava-nos. Devíamos ter desconfiado. Que poderes teria Marilyn Monroe para nos encantar daquela forma? Não sabíamos que ela morrera há muito mais tempo do que pensávamos. O seu encanto impedia-nos de compreender que não é preciso estar-se morto para não se viver. Começara a não estar viva desde que nascera. A mãe, profundamente infeliz, banida da sociedade por ter dado ao mundo uma menina ilegítima, ficara transtornada por tanto sofrimento. Um bebé só pode desenvolver-se num ambiente conforme às leis inventadas pelos homens, e a pequena Norma Jean Baker, ainda antes de nascer, já estava fora da lei. A mãe não teve força suficiente para lhe oferecer um colo seguro, tanta era a tristeza que dominava o seu mundo. Foi preciso internar a futura Marilyn em orfanatos frios e confiá-la a inúmeras famílias de acolhimento onde era difícil aprender a amar.

Há quem pense assim: as crianças sem família valem menos do que as outras. O facto de alguém as explorar sexual ou socialmente não é um grande crime, porque estes seres abandonados não são verdadeiras crianças. Para sobreviver a tanta agressão, a pequena Marilyn teve de criar os seus fantasmas, de se alimentar da própria dor, antes de se afundar na melancolia e loucura da mãe. Foi então que afirmou que Clark Gable era o seu verdadeiro pai e que ela pertencia a uma família real. Teve de o fazer! Foi assim que pôde criar uma vaga identidade: quando a realidade está morta, o delírio procura um lampejo de felicidade.

Em Manhattan, onde tirou cursos de teatro, foi a aluna preferida de Lee Strasberg, que ficou fascinado pela sua graça invulgar. Mas ela já tinha morrido muitas vezes. Era preciso estimulá-la para que não se afundasse na não-vida. Ficava parada, não saía da cama, deixava de se lavar. Quando um beijo a despertava, como o de Arthur Miller, por quem se fez judia, o de John Kennedy ou o de Yves Montand, reanimava-se, deslumbrante e calorosa, e ninguém se dava conta de estar a ser atraído por um fantasma. No entanto, ela dizia-o abertamente quando cantava I’m through with love. Já para o fim, brilhante de glória, só lhe restaram três anos de vida antes de se dar a si própria um último presente: a morte.

A última biografia de Hans Christian Andersen começa por esta frase: A minha vida é um lindo conto de fadas, rico e feliz. É preciso acreditar sempre no que os autores escrevem. Em todo o caso, a primeira linha de um livro é muitas vezes carregada de significação. Quando o pequeno Hans Christian veio ao mundo em 1805, na Dinamarca, a mãe tinha sido obrigada a prostituir-se pela própria mãe dela, que lhe batia e lhe impunha clientes. A filha fugira, grávida de Hans Christian e desposara o Sr. Andersen. Mas esta mulher era capaz de tudo para que o filho não conhecesse a miséria. Tornou-se, então, lavadeira, e o padrasto, soldado de Napoleão. Alcoólica e iletrada, morreu numa crise de delirium tremens, enquanto o padrasto de Hans se suicidava na mais completa demência. O rapazinho teve de trabalhar numa lavandaria, e depois numa fábrica de tabaco onde muitas vezes as relações humanas eram violentas.

Porém, Hans Christian, nascido na prostituição, entre a loucura e a morte dos pais, na violência e na miséria, nunca teve falta de afeto. “Muito feio, meigo e gentil como uma menina”, foi primeiro acarinhado no desejo da mãe, que ansiava torná-lo feliz; depois, no colo da avó paterna, onde foi ternamente educado com a ajuda de uma vizinha que o ensinou a ler. A aldeia de Odense, na ilha verdejante de Fionie, era fortemente marcada pela presença dos contadores de histórias. O mundo do pequeno Andersen tinha de se organizar a partir destas duas forças; precisava de sair da lama das origens para viver na luz da afetividade e da estranha beleza dos contos da sua cultura.

Estes mundos opostos estavam ligados pela arte que transforma a lama em poesia, o sofrimento em êxtase, o patinho feio em cisne. Este oxímoro que formava o universo em que o menino crescia foi rapidamente integrado na sua memória íntima. A mãe, que o aquecia com a sua ternura, nadava no álcool e morrera numa das crises. Uma das suas avós incarnava a mulher-feiticeira, que não hesita em prostituir a filha, enquanto a outra personificava a mãe‑fada, aquela que dá a vida e convida à felicidade.

Foi assim que o pequeno Hans aprendeu muito cedo a representação de um mundo feminino clivado, que mais tarde fará dele um homem ao mesmo tempo atraído e aterrado pelas mulheres. A sua infância foi recheada de permanentes humilhações e de sofrimentos reais, misturados, num mesmo impulso, com as delícias diárias de encontros afetuosos e de maravilhas culturais. Conseguiu assim suportar o horror das suas origens. O oxímoro estruturante do seu mundo devia também tematizar a sua vida e reger as relações de adulto. Em desespero, o patinho feio foi tocado de admiração pelos grandes cisnes brancos e animado pela esperança de nadar junto deles para vir a proteger outros meninos feios.

Hans Christian Andersen nasceu na prostituição da mãe, na loucura dos pais, na morte, na orfandade precoce, na miséria doméstica, na violência social. Como não ficar morto quando se vive desta maneira? Duas centelhas de resiliência[1] reavivaram a sua alma: a ligação afetiva a algumas mulheres recompôs a estima arruinada daquela criança, para o que também contribuiu o contexto cultural de misteriosas narrativas em que a linguagem dos pântanos fez surgir da bruma gnomos, duendes, fadas, feiticeiras, elfos, guerreiros, deuses, armas,  sereias, vendedeiras de fósforos e patinhos feios.

A pertença e o sentido – os únicos capazes de permitir a resiliência – Marilyn Monroe nunca pôde encontrá-los. Sem ligações e sem história, como poderia alguém encontrar‑se a si próprio? Quando a pequena Norma foi metida num orfanato, ninguém imaginava que, um dia, ela se tornaria uma Marilyn capaz de nos deixar boquiabertos. A carência afetiva fizera dela uma avezinha depenada, a tremer, encolhida, incapaz de se virar para o mundo e para as pessoas. As trocas constantes de família de acolhimento não permitiram que se organizasse à sua volta uma permanência afetiva que lhe teria permitido adquirir o sentimento de amar e de ser amada. De modo que, quando chegou à idade do sexo, deixara-se ir com quem a desejava.

Quando os homens não se aproveitavam dela sexualmente, exploravam-na financeiramente. Darryl Zanuck, produtor de cinema, tinha interesse em considerá-la uma leviana, para poder fazer fortuna, alugando-a a outros estúdios. E mesmo aqueles que sinceramente a amaram não souberam entrar no seu mundo psíquico para a ajudar a fazer um trabalho de “historização”, que teria dado sentido à sua infância atormentada. Os seus apaixonados deixaram-se voluptuosamente cair na armadilha da imagem magnífica da doce Marilyn. Cegos por tanta beleza, não souberam ver o seu imenso desespero. Ficou sozinha na lama, para onde, de vez em quando, lhe lançavam um diamante… até ao dia em que se deixou morrer.

Hans, o patinho feio, encontrara, no decurso da sua infância aterradora, os dois principais fatores de resiliência: mulheres que o amaram e homens que criaram um ambiente cultural em que os contos permitiam metamorfosear os sapos em príncipes, a lama em ouro, o sofrimento em obra de arte. A doce e linda Norma não foi mais agredida do que o pequeno Hans. Mas a menina, demasiado marcada pela mágoa, não encontrou nem a estabilidade afetiva que poderia tê-la estruturado, nem as histórias de que precisava para compreender como devia viver para sair da lama. Evadido do inferno, o pequeno Hans voltou a ganhar gosto pela vida. Conviveu com os cisnes, escreveu contos, e fez leis para proteger outros patinhos feios.

A comovente Marilyn não encontrou a vida. Permaneceu morta. Não conseguiu a resiliência porque o seu meio nunca lhe ofereceu estabilidade afetiva, nunca a ajudando a dar um sentido à sua fragmentação. O pequeno Hans encontrou os dois pilares da resiliência que lhe permitiram construir, apesar de tudo, uma vida apaixonante. A sua fuga do inferno custou-lhe a sexualidade, mas ninguém pretende fazer da resiliência uma receita de felicidade. É uma estratégia de luta contra a infelicidade, que permite atingir o prazer de viver, apesar do murmúrio dos fantasmas no fundo da memória…

[1] Resiliência : processo que permite o retomar de um dado desenvolvimento apesar de um traumatismo e de circunstâncias adversas.

Boris Cyrulnik
Le Murmure des fantômes
Paris, Éditions Odile Jacob, 2003
Excertos adaptados

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