O remedeio

aCatarina torceu o pé na aula de ginástica. Agora tem de usar uma ligadura e coxeia. O facto não é só desagradável para ela. É desagradável para toda a turma porque Cati devia dançar na festa da escola, no parque. O brilhante número da turma do quarto ano está em perigo.
— Que azar! — disse Jacob. — Isto tudo só porque a Cati não quis deixar de ir à aula de ginástica! Nenhuma estrela de dança vai fazer ginástica antes da festa da escola. Devíamos tê-la proibido!
— A Susi pode dançar por ela — propõe Max.
— Eu? — exclama Susi. — Agora assim, de repente? Vocês queriam a Cati! Ela é que não devia ter torcido o pé!
— Na, na, na — diz Cati. — Pede a uma das raparigas da turma B. Ela pode aprender. Eu ensino-lhe os passos todos.
— Cati, estás maluca! — diz Max. — Uma da turma B?! Eles são quase todos filhos de trabalhadores imigrantes. São burros. Não conseguem aprender uma coisa destas em quatro dias.
— Pede à Adaletta — diz Cati. — É a de cabelos pretos compridos. Talvez ela saiba dançar.
Susi está furiosa.
— A Adaletta! Ah, ah! É a mais burra de todas. Sei pelo Gerardo. Tem tantas dificuldades que se calhar até vai para uma escola especial.
— E também vai às aulas de recuperação de alemão e matemática — diz Rudi.
— Também eu vou — diz Ivo.
— Contigo é diferente — atalhou Rudi. — Tu és uma exceção. Mas os filhos dos imigrantes da turma B…
— Jacob! — grita Catarina. — Vai já buscar a Adaletta.

Adaletta não se faz rogada.
— Dançar? Ao som de uma canção? Ótimo!
E, pronta a ensaiar, segue Jacob para a sala de música.
A professora toca guitarra, os alunos põem-se em círculo, cantam e batem palmas.
A coxear, Catarina mostra-lhe que passos deve executar.
— Oh, coitada de ti — diz Adaletta. — Que pena!
— Agora, tenta tu! — diz Cati.
Adaletta ri-se.
Descalça os sapatos e salta para o meio da roda.
— Vamos lá! — exclama.
Bate os pés no chão, rodopia de tal maneira que a saia garrida roda.
O cabelo escuro esvoaça. Ri quando tropeça ou quando não sabe como continuar.
— Olha para ela! — diz a professora. — Nada mau. Se treinares afincadamente com a Cati…
— Remedeio é remedeio — diz Susi.
— Como?
— Tu és o nosso remedeio.
— Remedeio? — pergunta Adaletta. — O que é isso de remedeio?

Jacob tenta explicar-lhe, de uma forma simpática, o sentido da palavra.
Adaletta acena com a cabeça.
— Então, se precisam de mim, porque me olham todos de uma forma tão estranha?
Jacob já não consegue explicar este facto tão facilmente.
— É isso! Estão contrariados por precisarem de mim — diz Adaletta.
Jacob não sabe o que dizer.
Cati diz-lhe:
— Não estamos contrariados. Estamos contentes por me substituíres — e combina com Adaletta o próximo ensaio.
Adaletta olha para Jacob com ar pensativo e volta para a sua sala.
— Então, que tal vais com os ensaios? — pergunta Jacob no dia seguinte.
— Bem — responde Cati.
Dois dias antes da festa, Adaletta vai à sala de Jacob.
Coloca-se em frente da classe e olha os colegas, um a um.
— Agora precisamos nós de um remedeio na turma B — diz. — Estamos a fazer um teatro para a festa. A lenda do Caro Augustino. O Kenan está doente e ia fazer de estalajadeiro. — E aponta o dedo para Jacob. — Queres fazer o favor de ser o nosso remedeio?
— Claro! — responde Jacob. — Com todo o gosto!

Lene Mayer-Skumanz

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
(Tradução e adaptação)

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