O clarão de Hiroshima

Hiroshima no Pika
(O clarão de Hiroshima)

Naquela manhã, o céu de Hiroshima estava azul e sem nuvens. O sol brilhava. Os eléctricos tinham começado o seu giro, apanhando as pessoas a caminho do trabalho. Os sete rios de Hiroshima deslizavam serenamente pela cidade. Os raios do sol estival cintilavam na superfície dos rios.
Tinha havido ataques aéreos em Tóquio, Osaka, Nagoya e em muitas outras cidades japonesas. A população de Hiroshima perguntava-se por que motivo a sua cidade fora poupada. Haviam feito o que podiam para se prepararem para um eventual ataque. A fim de evitar que o fogo se propagasse, tinham demolido os edifícios antigos e alargado as ruas. Tinham armazenado água e decidido onde deviam refugiar-se para escapar às bombas. Todos traziam consigo estojos de primeiros-socorros e, sempre que saíam de casa, usavam chapéus e capuzes para protegerem a cabeça dos ataques aéreos.

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Mii tinha sete anos e vivia em Hiroshima com a mãe e o pai. Ela e os pais estavam a tomar o pequeno-almoço: batatas-doces, trazidas no dia anterior por uns primos que moravam no campo. Nessa manhã, Mii estava com muita fome e comentava como lhe sabiam bem as batatas-doces. O pai concordava que era um delicioso pequeno-almoço, embora não se tratasse de arroz, o seu alimento preferido.
Foi então que aconteceu. Um clarão terrível e repentino iluminou tudo à volta. A luz era de um cor-de-laranja claro, depois ficou branca, como se milhares de raios estivessem a cair todos ao mesmo tempo. Seguiram-se violentas ondas de choque, os edifícios estremeceram e começaram a desabar.
Momentos antes do Clarão, o bombardeiro Enola Gay, da força aérea norte-americana, sobrevoara a cidade e lançara um explosivo ultra-secreto. O explosivo era uma bomba atómica, que a tripulação do B-29 baptizara de “Little Boy” [Rapazinho]. .
O “Little Boy” caiu em Hiroshima às 8:15 da manhã do dia 6 de Agosto de 1945.

Mii caiu por terra, inconsciente, devido ao impacto do Clarão. Quando acordou, tudo à sua volta permanecia silencioso e escuro. A princípio não conseguia mexer-se e ouvia barulhos de crepitação que a assustaram. Ao longe, na escuridão, via um reluzir vermelho. A voz da mãe penetrou na escuridão, chamando-a. Mii lutou para sair de debaixo das pesadas tábuas que lhe tinham caído por cima. A mãe precipitou-se para ela, puxou-a e abraçou-a.
― Temos de nos despachar ― disse. ― O fogo… o teu pai ficou preso nas chamas!
Mii e a mãe olharam para as chamas e começaram a rezar. Em seguida, a mãe saltou para as chamas e arrastou o marido até este ficar a salvo. Mii viu a mãe a examinar o pai.
― Está gravemente ferido ― disse.
Desapertou a faixa do quimono e enrolou-a em volta do corpo do marido como uma ligadura. Em seguida, fez algo de espantoso. Pô-lo às costas e desatou a correr, levando Mii pela mão.
― O rio. Temos de chegar ao rio ― disse de forma determinada.
Desceram os três aos tombos pela margem do rio até à água. Mii largou a mão da mãe.
― Mii-chan! Agarra-te a mim! ― gritou a mãe.
Havia uma multidão de pessoas a fugir do fogo. Mii viu crianças com a roupa queimada, os lábios e as pálpebras inchados. Pareciam fantasmas, vagueando por ali, a chorar com voz fraca. Algumas pessoas, já sem forças, caíam de bruços e outras caíam-lhes por cima. Havia corpos empilhados por todo o lado. Mii, a mãe e o pai continuaram a fuga e atravessaram outro rio. Quando alcançaram a margem, a mãe pousou o marido e caiu por terra, ao lado dele. Mii sentiu uma coisa a passar-lhe aos pés. Hop… hop… Era uma andorinha. Tinha as asas queimadas e não podia voar. Viu um homem a boiar rio abaixo. Atrás dele, flutuava o corpo de um gato.
Mii virou-se e viu uma mulher jovem a chorar, segurando um bebé.
― Conseguimos fugir até aqui e então parei para lhe dar de comer ― disse ela. ― Mas ele não bebeu o leite. Está morto.
Continuando a segurar o bebé, a mulher entrou pelo rio dentro. Avançou cada vez mais até que Mii deixou de a ver. O céu foi ficando escuro e ouviu-se o ribombar de um trovão. Começou a chover. Embora se estivesse em pleno Verão, o ar tornara-se muito frio e a chuva era negra e viscosa. Em seguida, apareceu no céu um arco-íris, afastando a escuridão. Resplandecia, brilhante, por sobre os mortos e os feridos.
A mãe de Mii voltou a pôr o pai às costas. Tomou Mii pela mão e recomeçaram a correr. O fogo vinha na direcção deles, a grande velocidade. Correram por entre montes de telhas partidas, por sobre postes e fios de telefone caídos. Havia casas a arder de ambos os lados. Chegaram a outro rio e, já dentro de água, Mii sentiu-se de repente cheia de sono. Antes mesmo de se dar conta, tinha engolido imensas goladas de água. A mãe puxou-lhe a cabeça e manteve-a fora de água. Chegaram à margem e continuaram a correr.

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Por fim, alcançaram a praia nos arredores de Hiroshima. Podiam ver a ilha de Miyajima envolta em neblina púrpura, do outro lado da água. A mãe de Mii tivera a esperança de poderem ir de barco até à ilha. Miyajima estava coberta por bonitos pinheiros e aceres e rodeada de água transparente. Pensando que a segurança não estava longe, Mii, a mãe e o pai caíram no sono.
O sol desapareceu. A noite veio e foi-se. O sol nasceu, voltou a pôr-se. Nasceu e pôs-se novamente. Nasceu pela terceira vez.
― Por favor, diga-me que dia é hoje ― pediu a mãe a um senhor que passava e que tinha estado a examinar as pessoas deitadas na praia.
― É dia nove ― respondeu.
A mãe contou pelos dedos.
― Quatro dias! ― gritou, espantada. ― Estamos aqui há quatro dias?
Mii começou a chorar baixinho. Uma mulher idosa, deitada junto dela, levantou-se, tirou uma tigela de arroz do saco e deu-a a Mii. Quando Mii lhe pegou, a mulher tornou a cair. Desta vez não se mexeu.
― Mii-chan! Ainda estás a segurar nos pauzinhos! ― exclamou a mãe. ― Dá-mos cá.
Mas a mão de Mii não se abria. A mãe abriu-lhe os dedos à força, um a um. Quatro dias após a bomba, Mii largou finalmente os pauzinhos.
Os bombeiros de uma aldeia vizinha vieram ajudar. Os soldados levaram os mortos. Uma escola, ainda de pé, fora transformada em hospital e foi para lá que levaram o pai. Não havia nem médicos, nem medicamentos, nem ligaduras. Era apenas um local de abrigo. Com o pai tão a salvo quanto possível no hospital, Mii e a mãe decidiram voltar à cidade para ver se tinha restado alguma coisa da sua casa.

Não ficara nada em Hiroshima: nem erva, nem árvores, nem casas. Perante os seus olhos, uma terra devastada e queimada estendia-se a perder de vista. A única coisa que ficara para lhes lembrar que lá tinham vivido foi a tigela de arroz de Mii. Torcida e quebrada, continha ainda algumas batatas-doces.

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Nesse dia, 9 de Agosto de 1945, enquanto Mii e a mãe olhavam para os destroços do que fora Hiroshima, uma bomba atómica era lançada em Nagasáqui. Aí, tal como em Hiroshima, milhares de pessoas morreram e as que sobreviveram ficaram sem casa. Além das vítimas japonesas, havia pessoas de outros países como a Coreia, a China, a Rússia, a Indonésia e os Estados Unidos.
A bomba atómica foi diferente de qualquer explosivo usado até então. A destruição causada pelo impacto era maior do que a de centenas de bombas convencionais explodindo ao mesmo tempo. A bomba também contaminou a área com radiações que durante muitos anos a seguir à explosão continuaram a causar mortes e doenças.
Mii nunca mais cresceu a partir desse dia. Muitos anos se passaram mas ela conserva ainda o mesmo tamanho que tinha aos sete anos.
― É por causa do Clarão da bomba ― diz a mãe.
Às vezes, Mii queixa-se de que tem comichão na cabeça. A mãe afasta o cabelo, vê qualquer coisa a brilhar e tira-lha da cabeça com uma pinça. É uma fibra de vidro, que penetrara no couro cabeludo quando a bomba explodiu, há anos, e que veio à superfície. O pai de Mii tinha sete feridas no corpo, mas estas sararam. Durante algum tempo, pensou que estava a ficar bom. Certo dia, no Outono a seguir ao Clarão, o cabelo caiu-lhe e começou a tossir sangue. Apareceram-lhe manchas púrpura por todo o corpo e acabou por morrer.
Muitas das pessoas que disseram: “Graças a Deus que as nossas vidas foram poupadas”, ficaram mais tarde doentes devido à radiação. Embora isto tenha acontecido em 1945, algumas destas pessoas encontram-se ainda no hospital. Não há cura para as suas doenças.

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Todos os anos, a 6 de Agosto, os habitantes de Hiroshima escrevem em lanternas os nomes dos entes queridos que morreram devido à bomba. As lanternas são acesas e postas a flutuar nos sete rios que passam em Hiroshima. Os rios deslizam lentamente em direcção ao mar, levando as lanternas em memória dos que morreram.
Mii, que após todos estes anos ainda é como uma criança pequena, escreve “Pai” numa lanterna e “Andorinha” noutra. A mãe tem já o cabelo branco e olha com tristeza, enquanto a filha põe as lanternas a flutuar.
― Que isto não volte a acontecer ― diz. ― Se ninguém deitar mais nenhuma bomba…

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SOBRE O LIVRO

Em 1953, encontrava-me a fazer uma exposição com fotografias sobre a bomba atómica, “Genbaku no Zu”, numa pequena cidade em Hokkaido. Entre as pessoas que estavam na exposição, reparei numa mulher com uma expressão muito zangada, que fixava longamente as minhas fotografias. Algum tempo depois, dirigiu-se a mim.
― Primeiro ― disse ― passei ao lado da sua exposição porque pensei que estava a fazer um espectáculo do sofrimento. Estava decidida a não entrar. Mas agora estou aqui e vi as suas fotografias. Quero contar-lhe a minha história.
― Depois do Clarão, mudei-me para Hokkaido. As pessoas de Hokkaido não foram nem simpáticas nem compreensivas em relação àquilo por que passei. Quando queria falar do Clarão, diziam que me estava a vitimizar ou que estava a exagerar a minha história. Passado algum tempo, deixei de querer contar a minha experiência fosse a quem fosse, e por isso nunca falei do Clarão.
Quando acabou de falar, a mulher cerrou os olhos. Em seguida, aproximou-se do microfone e começou a gritar:
― Vocês, que vieram até aqui, vão acreditar em mim. Por favor, acreditem em mim!
A chorar e a sufocar nas próprias palavras, voltou a contar a história de como tentara escapar ao Clarão, carregando às costas o marido ferido e levando a filha pela mão. As pessoas escutaram-na. Algumas choraram. Quando terminou, disse simplesmente:
― Obrigada por me terem escutado.
A lembrança desta cena não me deixou durante muito tempo, tendo acabado por penetrar no meu coração e na minha memória. Este livro é baseado na história dessa mulher e nele está entretecido tudo o que vi e ouvi da experiência de outras pessoas com a bomba atómica.
Já fiz 70 anos. Não tenho nem filhos nem netos, mas escrevi este livro para os netos de toda a gente. Levei muito tempo a acabá-lo. É muito difícil contar aos jovens uma coisa terrível que aconteceu, na esperança de que, ao terem conhecimento dela, tudo façam para que não se repita.

TOSHI MARUKI, em 1985

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« Que isto nunca mais volte a acontecer, nunca mais ! »
Nos anos 80 era este o desejo veemente, a mensagem urgente que Toshi Maruki, a pintora japonesa autora deste livro, morta em 1995, e o seu marido, dirigiam às futuras gerações. Comprometidos com a luta a favor do desarmamento nuclear, toda a sua vida lutaram pela paz no mundo e contra a bomba atómica. A obra de ambos é riquíssima e os célebres frescos intitulados Visões da bomba atómica encontram-se hoje no Museu Maruki, em Tokyo. Em 1952, a Toshi Maruki foi atribuído o Prémio internacional da paz e da cultura. Em 1986, ela e o marido foram nomeados para o Nobel da Paz.

Toshi Maruki
Hiroshima no Pika
New York, Lothrop, Lee & Shepard Books, 1980
(Tradução e adaptação)

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