O concurso real

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Nota das Autoras

“O Concurso Real” inspirou-se na história verdadeira do nosso avô, Hong Seung Han, que viveu na Coreia no final do século dezanove. Iletrado e demasiado pobre para aceder ao ensino, Hong costumava escutar à porta da escola destinada apenas a meninos ricos, para tentar aprender algo. Um dia, porém, permitiram-lhe integrar a turma. Depois de ganhar uma competição académica nacional, o governador da província convidou-o a residir no palácio, onde Hong ensinava o jovem filho do governador enquanto prosseguia a sua própria educação.
Anos mais tarde, o nosso avô frequentou um seminário em Pyongyang, no qual estudou sob a orientação de um missionário americano, e tornou-se um pastor célebre. Em 1905, casou com a nossa avó, Pang Seung Hwa, e trabalharam juntos como missionários na China.

***

No tempo em que os reis governavam a Coreia, apenas as crianças privilegiadas iam à escola. Vestiam roupas delicadas, possuíam livros e podiam candidatar-se ao Concurso Real, que se realizava no palácio do governador. Um dia, todas elas seriam pessoas eruditas e nobres. Song-ho não se contava entre esses privilegiados e vestia-se de forma andrajosa. Contudo, o som distante do sino da escola fazia-o sonhar com o dia em que poderia ler livros e escrever poesia.

Song-ho observava a mãe a lavar o rosto cansado numa bacia de água, mal a luz fraca do dia iluminava a pequena cabana onde moravam. A mãe pedia-lhe que fosse um bom rapaz e Song-ho prometia que realizaria todas as tarefas de que ela o incumbira. Depois, a mãe saía para os campos de milho para trabalhar. O pai de Song-ho fora pescador, mas tinha morrido no mar há alguns anos. A mãe trabalhava na colheita dos cereais em cada estação para poder pôr comida na mesa. Se o dia lhe corresse bem, traria para casa uma braçada de frutos e legumes murchos. Quanto ao filho, varria a cabana, demolhava os grãos de soja para o jantar e lavava os trapos no ribeiro da montanha.

Um dia, enquanto Song-ho torcia o último farrapo no ribeiro, ouviu-se o som de um sino no fundo do vale onde viviam as pessoas ricas. Era o som do sino da escola de Sodang. Song-ho seguiu o som até ao fundo do vale, como se o sino estivesse a chamá-lo, e deparou-se com a escola de Sodang, que estava rodeada de árvores tropicais.
A escola era mais bonita do que alguma vez imaginara! Quando o sino parou de tocar, porque as aulas tinham começado, Song-ho aproximou-se, em bicos de pés, da porta de papel de arroz que deixava transparecer a presença de um professor e de uma sala cheia de alunos.
De repente a porta abriu-se e Song-ho viu o mestre a cofiar a longa barba cinzenta.
— Sou o Mestre Min. O que fazes aqui, rapaz?
— Chamo-me Song-ho. Posso ser seu aluno? — inquiriu o rapaz, ansiosamente.
Mestre Min baixou o olhar para Song-ho, que estava andrajosamente vestido, e franziu o sobrolho.
— Não, é impossível.
— Como vou ajudar a minha mãe quando for maior, se não souber ler ou escrever? — perguntou Song-ho.
Mestre Min sentiu um nó na garganta perante a coragem do rapaz. Mas regras eram regras e as crianças pobres não estavam autorizadas a frequentar a escola de Sodang.
— É melhor ires embora, Song-ho — disse Mestre Min, fechando a porta.

Mas Song-ho não foi embora. Com o ouvido encostado à porta, continuou a ouvir a aula de Mestre Min, ignorando que o mestre conseguia ver a sua sombra, pequena e encolhida, através da porta.
Dotado de um coração bondoso, Min deixava-o desde então ficar à porta durante as aulas. E Song-ho aprendia sobre reinos antigos e líderes famosos.
Um dia, ouviu dizer que o Concurso Real iria realizar-se na primavera, no grande salão do palácio do governador, e que apenas um aluno de cada escola do país seria selecionado para competir. Nesse dia ao jantar, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que a comeu enquanto o vapor lhe aquecia o rosto cansado.
— Meu pobre Song-ho! Quem me dera poder dar-te mais do que algumas espigas sarapintadas.
Song-ho não contava à mãe as suas aventuras na escola de Sodang e desejava surpreendê-la um dia com tudo o que aprendera. Enquanto desfolhava as espigas de milho sarapintadas, pensava: “Se aprender a ler e a escrever, poderei oferecer à minha mãe espigas de milho douradas.”

E todos os dias Song-ho regressava à escola de Sodang, seguindo o som do sino que ecoava no fundo do vale. Escondia-se atrás de uma árvore e esperava que todos os alunos ricamente vestidos entrassem. E todos os dias os olhos de Mestre Min se humedeciam ao ver a sombra de Song-ho atrás da porta… e ensinava os alunos num tom de voz mais alto e de forma mais inteligível.

Quando o inverno chegou, e já havia gelo pendente dos ramos despidos das árvores douradas junto à escola, Song-ho continuava encolhido junto à porta a tentar ouvir as explicações do mestre. Um dia, a porta abriu-se.
— Entra, Song-ho — convidou Mestre Min.
Song-ho entrou para a sala cheia de alunos ricamente ataviados, que se sobressaltaram ao ver um rapaz vestido de forma andrajosa.
— Song-ho tem andado a ouvir as nossas aulas às escondidas — sorriu Mestre Min. — Que tal testarmos os seus conhecimentos?
Todos os alunos concordaram.
— Quem inventou o nosso alfabeto? — perguntou um aluno.
— O Rei Sejong — respondeu Song-ho.
— Qual é a maior ilha do nosso país? — perguntou outro aluno.
— A ilha Cheju.
Depois de todos os alunos terem interrogado Song-ho, Mestre Min declarou:
— Bem-vindo à escola Sodang, Song-ho.
Os alunos fizerem uma vénia respeitosa e disseram em coro:
— Bem-vindo à escola Sodang.
Nesse dia ao jantar, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que passara o dia a apanhar castanhas. Cansada e abatida, lamentou-se por não poder dar mais do que castanhas rachadas ao filho. Mais tarde, enquanto Song-ho assava um tabuleiro de castanhas rachadas, pensava: “Se eu aprender a ler e a escrever, poderei dar castanhas perfeitas à minha mãe.”

***

Chegou a primavera. Quando as árvores floresceram junto à escola Sodang, já Song-ho lia um livro do princípio ao fim. Também tinha aprendido a utilizar o pincel e a escrever bonitos poemas. Era, sem dúvida, um aluno excelente.
Certa manhã, Mestre Min pediu a Song-ho que se levantasse e, diante da turma, disse-lhe:
— Os teus colegas escolheram-te para representares a escola de Sodang no Concurso Real.
Song-ho não queria acreditar no que ouvia.
Cheio de orgulho, Mestre Min ofereceu a Song-ho um embrulho envolvido em seda.
— Este é um presente dos teus colegas.
— Um presente para usares no Concurso Real! — clamaram em uníssono. — Um presente para te dar sorte!
Song-ho abriu com cuidado o embrulho, que continha um fato de cerimónia colorido e brilhante. Depois, fez uma vénia em sinal de agradecimento.

Ao jantar nesse dia, Song-ho encheu uma tigela de sopa de grão de soja para a mãe, que regressara de um longo dia nos campos a apanhar melões. Enquanto a mãe lamentava não ter mais do que melões pisados para dar ao filho, este pensava: “Se eu vencer o Concurso Real, poderei dar melões bons à minha mãe.”

Finalmente chegou o dia do concurso.
Envergando o fato de cerimónia, Song-ho passou os portões de ferro do palácio com Mestre Min e ambos entraram no Grande Salão. O mestre acompanhou-o até junto dos outros alunos, que estavam sentados diante do painel do júri, e tomou depois assento na plateia.
Fez-se silêncio quando o governador entrou, apoiado numa bengala ornada com uma pérola. Depois de se sentar no trono, proclamou:
— Bem-vindos ao Concurso Real. Sereis testados segundo o Livro da Sabedoria. Se derdes uma resposta errada, sereis eliminados do concurso. O aluno que terminar o concurso será proclamado o melhor aluno do país.
Um a um, os alunos foram interrogados pelo júri. E um a um, os alunos foram sendo eliminados. Algumas horas mais tarde, restavam apenas dois alunos. Um deles era Song-ho.
— Qual é a montanha que tem doze mil picos? — perguntou um juiz a Song-ho.
— A Montanha Diamante — respondeu Song-ho.
— Qual é o país que faz fronteira com a Coreia no extremo oriente? — perguntou um juiz ao outro aluno.
— A China — respondeu o aluno.
O Concurso Real prolongou-se até ao anoitecer.
A plateia começava a dar sinais de impaciência e os juízes já não tinham mais questões a colocar. Então, o governador levantou-se e declarou:
— Só há uma forma de decidir quem é o vencedor do Concurso Real. Cada um de vós deverá responder a esta questão: “O que significa para mim ganhar este concurso?” Quando a lua iluminar o grande salão, devereis dar a vossa resposta.

Quando a lua iluminou o grande salão, o outro aluno avançou.
— Grande Governador, estudei durante todo o ano para me apresentar ao Concurso Real. Se ganhar, seguirei os passos dos meus antepassados. Frequentarei as melhores escolas e serei um académico famoso.
A plateia aplaudiu. Chegou a vez de Song-ho que, com passo nervoso, avançou e disse:
— A minha mãe trabalha nos campos de sol a sol, e sabe que não há esperança para pessoas como nós. Rompendo com a tradição, Mestre Min aceitou-me na sua turma e permitiu que um pobre rapaz como eu frequentasse a escola Sodang. Ensinou-me a ler e a escrever e agora estou a participar no Concurso Real. A minha mãe e eu ganhámos a dádiva da esperança.
Quando a lua cheia brilhou, o Grande Salão encheu-se de silêncio. Então, a plateia pôs-se de pé e aplaudiu tão estrondosamente que a sala parecia abalar. Lágrimas de alegria rolaram pela face de Mestre Min quando o governador declarou que Song-ho era o vencedor do Concurso Real.
— Ao seres tão sincero, deste prova de grande coragem, Song-ho — afirmou o governador.
Como prémio, o governador ofereceu a Song-ho uma vaca revestida de seda, que tinha um laçarote feito com moedas de ouro cintilantes.

Já era tarde quando Song-ho regressou a casa com o seu prémio. Ao atravessar a montanha, conseguia ouvir a mãe que o chamava:
— Song-ho! Song-ho! Onde estás?
Naquela noite, Song-ho haveria de a surpreender com tudo o que aprendera na escola Sodang e com o relato de como ganhara o Concurso Real. E mostraria a vaca como prémio. E a seda. E as moedas de ouro.
Naquele preciso momento, o toque de um sino ecoou no fundo do vale. Era o sino da escola de Sodang, que tocava em homenagem a Song-ho.
Song-ho estugou o passo em direção à sua cabana, levando o som no seu coração.

Frances Park, Ginger Park and Christopher Zhong-Yuan Zhang
The royal bee
Pennsylvania, Boyds Mills Press, 2000
(Tradução e adaptação)

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