Mary Anning, investigadora de fósseis

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Mary Anning, investigadora de fósseis

O maior investigador de fósseis conhecido foi uma mulher inglesa chamada Mary Anning, cujas descobertas constituem alguns dos achados geológicos mais importantes de sempre, essenciais para conhecermos a história da Terra.

Aos 12 anos de idade, Mary descobriu o primeiro fóssil de ictiossauro. O fóssil media cinco metros de comprimento e estava incrustado num penhasco íngreme, na costa de Dorset. As suas descobertas incluem outros répteis marinhos antigos, hoje em exposição no Museu de História Natural de Londres, como o plesiossauro e um dos primeiros fósseis de pterodáctilo.

Os rochedos e a praia de Lyme eram ricos em belemnites e amonites, assim como em répteis e peixes, ali deixados 200 milhões de anos antes, durante a Era Jurássica. Anning procurava fósseis na área dos penhascos de Blue Lies, sobretudo durante os meses de inverno, altura em que os deslizamentos de terra expunham novos espécimes, que tinham de ser extraídos rapidamente, antes que fossem levados pelo mar. Era um trabalho perigoso, no qual ela quase morreu em 1833, e que lhe custou a perda do seu cão Tray.

Nascida em 1799, Mary Anning teve de lutar com dificuldades financeiras durante grande parte da sua vida. A família era pobre e, enquanto dissidentes religiosos, os pais — eram protestantes não anglicanos — estavam sujeitos a discriminação legal. O pai, que era carpinteiro, morreu quando ela tinha 11 anos, deixando a família sem meios de subsistência. Foi então que Mary Anning começou a recolher fósseis a tempo inteiro, vendendo-os depois aos visitantes da região como forma de ganhar a vida.

Quando o geólogo Henry De La Beche pintou Duria Antiquior, a primeira representação pictórica de uma cena da vida pré-histórica, feita a partir de reconstruções fósseis, baseou-se em grande parte nos espécimes que Anning tinha encontrado, tendo esta posteriormente recebido os proventos da venda das ilustrações, que De la Beche fomentou.

 Naquele tempo, as mulheres não tinham direito a voto, em Inglaterra, nem podiam ocupar cargos públicos ou frequentar a universidade. Neste contexto social, os membros da Sociedade Geológica de Londres, todos eles homens e cidadãos influentes, não autorizavam a entrada de mulheres no seu seio, nem sequer para assistir às reuniões.

Assim, a condição feminina de Anning e o facto de não possuir habilitações académicas, apesar de ser uma autodidata em matéria de geologia e anatomia, não lhe permitiram participar plenamente na comunidade científica britânica, toda ela masculina e anglicana. Aliás, embora internacionalmente conhecida e respeitada, nem sequer foi aceite como membro da referida Sociedade, tendo as suas contribuições científicas sofrido o mesmo destino, o que as impediu de serem publicadas no estrangeiro.

Não obstante esta segregação, Mary tornou-se bem conhecida nos círculos geológicos da Grã-Bretanha, Europa e América, e era frequentemente consultada sobre assuntos de anatomia e apanha de fósseis. Muitos foram os que com ela contactaram, com propósitos científicos, com destaque para uma panóplia de grandes nomes da paleontologia e da geologia, como De La Beche, William Buckland, Richard Owen, Roderick Murchison, Charles Lyell, Adam Sedgwick, Charles Darwin e Gideon Mantell.

Surpreendentemente, recebia também muitas visitas de membros do círculo social em voga. Fascinava-os a sua inteligência, o seu humor e a investigação invulgar a que tinha dedicado a vida. Entretanto, como mulher, nem sempre as suas contribuições científicas mereciam crédito. Na verdade, viria a escrever numa carta: “O mundo usou-me tão maliciosamente, que eu temo ter-me tornado suspeita aos olhos de todos.”

 O único escrito científico da sua autoria publicado em vida apareceu na Magazine of Natural History em 1839, um trecho de uma carta que Anning tinha escrito ao editor da revista questionando uma das suas afirmações. Depois da sua morte, a sua vida invulgar atraiu um interesse crescente. Charles Dickens escreveu mesmo em 1865 que “a filha do carpinteiro conquistou um nome por ela mesma, e mereceu conquistá-lo.” E, em 2010, a Royal Society incluiu Anning na lista das dez mulheres britânicas que mais influenciaram a história da ciência.

O contributo de Mary Anning teve um impacto profundo numa altura em que a interpretação bíblica da história da criação do mundo e do dilúvio não eram objeto de disputa. Os espetaculares répteis marinhos que Anning descobriu conduziram a comunidade científica no sentido da procura de explicações diferentes para as alterações que a Terra fora registando.

Quando Anning faleceu, a geologia como domínio científico encontrava-se já firmemente estabelecida. E, embora só tenha admitido membros mulheres em 1904, a Geological Society registou a sua morte, no ano de 1847.

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