LYDIA CACHO e a luta pela liberdade

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 “O jornalismo está em liberdade condicional.”

Jornalista, feminista, escritora e defensora dos direitos humanos, Lydia Cacho é especialista em temas de género e violência na UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher). Cofundadora da Rede de Jornalistas do México, Centro-América e Caraíbas, é ainda, atualmente, fundadora e diretora do Centro de Atendimento Externo para Mulheres Maltratadas em Cancun, CIAM. Foi galardoada com os prémios Human Rights Watch 2007, o Prémio Mundial UNESCO para a Liberdade de Imprensa, Guillermo Cano – 2008 e, no mesmo ano de 2008, também recebeu o Prémio Liberdade de Expressão, da União de Jornalistas de Valência.

Em 2006, conheci Lydia, na Cidade Juárez, enquanto preparava a viagem ao México com a Plataforma das Mulheres Artistas, para denunciar os crimes contra as mulheres. Já antes dessa viagem, tinha estado em contacto com ela, e juntas planificámos todas as ações a levar a cabo no México. Recordo o primeiro encontro, na Casa de Espanha, e nunca esquecerei aqueles seus olhos cheios de vida e de doçura, nem aquela energia que me uniu a ela para sempre. Senti como se de minha irmã gémea se tratasse, como sei que sentem muitíssimas mulheres às quais foi devolvida a valentia e a força para seguirem em frente, particularmente as da Casa de Acolhimento que dirige, com uma metodologia baseada no amor e no respeito.

Lydia foi educada em liberdade, por uma mãe feminista que desde muito cedo lhe mostrou a face da violência e da pobreza nas zonas mais esquecidas e castigadas do México. Enquanto a mãe, psicóloga, trabalhava com as mulheres abandonadas à sua sorte, Lydia e os irmãos brincavam com os filhos destas mulheres.

Sentiu muito cedo a dor e o compromisso, vendo aqueles meninos e meninas que não conseguiam nem segurar um lápis para desenhar. Meninos e meninas que não tinham energia para correr atrás das bolas que lhes eram oferecidas, que comiam quando podiam, uma vez por dia.

Quando Lydia questionou a mãe sobre os motivos de tal situação, a mãe respondeu: “É pura injustiça, Lydia. Por isso, como vocês são privilegiados, recebem instrução e comem três vezes ao dia, têm a obrigação de se preparar para que as coisas no México mudem, de ajudar a construir um país livre e digno”. E Lydia assim fez.

Todos os dias da sua vida lutou e luta ainda pela decência e dignidade, e fá-lo em nome de todas as mulheres do país, fazendo frente ao abuso e à violação de menores. E denunciando as redes de pederastia que operam em todo o mundo, através de Cancun. Fá-lo em nome de todas as meninas, mas especialmente em nome da menina de 15 anos que, refugiada depois de ter denunciado os abusos e a violação do pederasta Kamel Nacif, que sequestrou e tentou assassinar Lydia, disse a Lydia na Casa de Acolhimento: “É verdade, Lydia, que não vais deixar que nada nem ninguém volte a magoar-nos?”.

Tratava-se de meninas a quem homens sem escrúpulos roubaram a infância e a vida para sempre. Foram esses homens, juntamente com outros homens do seu país, que sequestraram, torturaram e tentaram matar Lydia.

E foram as redes de amor a Lydia, redes solidárias e irmanadas, que, a par do amor da família, sempre a acompanharam e que, como ela mesma disse, nos momentos mais terríveis lhe deram a paz de que precisava para ser uma sobrevivente e não uma eterna vítima. “Ao sistema”, como disse Lydia, “não lhe agrada as sobreviventes, o sistema quer que sejamos sempre vítimas e submissas, para que não nos esqueçamos de quem manda.”

A luta de Lydia nunca se alimentou nem de raiva, nem de rancor, mas de uma verdadeira e profunda convicção da necessidade de que, quem viola a lei e os direitos humanos tem, obrigatoriamente, de prestar contas perante a sociedade. Vivi o sequestro de Lydia como se do meu se tratasse. Chorei cada segundo em que ela era maltratada no carro da polícia, onde quatro energúmenos tentavam atirá-la ao mar, para que o seu corpo desaparecesse para sempre.

A partir de Espanha, as redes de mulheres choraram de raiva e indignação ao sentir que a vida de uma irmã não valia nada num país que apelidamos de democrático, e que assina acordos internacionais de respeito pelos direitos humanos e contra a violência sobre as mulheres.

Este país chama-se México. Pedimos, através da Plataforma, a intervenção do Governo Espanhol, que não escamoteou esforços junto do Governo Mexicano para conseguir que Lydia, depois de 30 horas de tortura, continuasse viva; escrevemos milhões de cartas ao Governo Mexicano, denunciando a impunidade e a violação dos direitos humanos.

Quero terminar com as palavras de Lydia: “Enquanto viver, continuarei a escrever, e com a escrita manter-me-ei viva.” E permitirá que todas continuemos a sentir-nos dignas e vivas: “Continuarei a escrever, porque a história das vencidas ninguém a escreve, enquanto a dos poderosos é escrita, e vai sendo contada e fabricada para se enquadrar nos seus interesses. Continuarei a lutar e a escrever, por me sentir responsável por todos os companheiros e companheiras jornalistas que são assassinados todos os dias no meu país”.

Cristina del Valle

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