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 IMAN AHMAD JAMAS, lutando pela paz no Iraque

“Serão precisos muitos anos para reconstruir o Iraque.

Será muito difícil.”

Jornalista, tradutora e escritora, Iman Ahmad Jamas criou e dirigiu, em junho de 2003, o Observatório da Ocupação no Iraque, uma iniciativa de organizações internacionais e iraquianas para informar sobre a ocupação dos Estados Unidos e seus efeitos políticos, económicos e sociais, dando conta dos abusos e violações contra a população civil levada a cabo pelas tropas estrangeiras.

Apesar do importante trabalho de documentação e denúncia, o Observatório viu-se obrigado a encerrar em junho de 2004 devido à falta de segurança reinante no país. Refugiada en Espanha, recolheu centenas de testemunhos de torturas e crimes durante a ocupação dos Estados Unidos no seu  livro Crónicas do Iraque, publicado en 2006. Em abril de 2007 recebeu em Córdova o Prémio Internacional de Jornalismo, “Julio Anguita Parrado” em reconhecimento pelo seu trabalho.

Povoação a povoação, família a família, Iman Ahmad Jamas percorreu um Iraque em guerra para recolher os testemunhos das vítimas dos desmandos das tropas dos Estados Unidos, durante os primeiros anos da ocupação do país árabe. Mulheres violadas, famílias despedaçadas, refugiados cujos lares foram destruídos, anciãos à procura dos filhos desaparecidos…

A guerra do Iraque de 2003 e a posterior ocupação do país por parte das tropas dos Estados Unidos fez com que a vida desta jornalista de profissão e de vocação desse uma grande volta, já que partiu no dia em que Bagdad caiu nas mãos dos Estados Unidos. Queria “seguir o exército ocupante e documentar os seus crimes.” 

Para isso, como foi dito, criou e dirigiu o Observatório da Ocupação no Iraque, uma organização nascida para registar e documentar as ações e decisões levadas a cabo pelos Estados Unidos em matéria de política, economia e direitos sociais, e identificar os múltiplos abusos. Denunciou assim veementemente a estratégia da Administração Bush para desmantelar todo o tecido social iraquiano. A conclusão a que chegou é que a invasão dos Estados Unidos não tinha como único objetivo derrotar o regime de Sadam Hussein, mas sim desmantelar todo o Estado, incluindo as suas instituições e cultura.

De imediato, os casos de violação dos direitos humanos converteram-se no tema principal das investigações de Iman Ahmad: bombardeamentos indiscriminados, assassinatos a sangue frio, rusgas noturnas, destruição de hospitais e infraestruturas, detenções arbitrárias, execuções extrajudiciais, torturas, violações, pilhagens, destruição do património cultural e deslocações forçados da população…

Iman Jamas registou, com nomes e apelidos, cada uma das vítimas destas violações dos direitos mais fundamentais do ser humano, nas cidades e aldeias. Ela e os seus colaboradores colocaram em perigo as suas vidas para dar a conhecer o sofrimento dos mais fracos. “Surpreendentemente, não tinham medo de nada.”

Entretanto, o Iraque envolvia-se numa espiral de violência sem fim. Era uma guerra de todos contra todos: a revolta sunita, as células da Al Qaeda, os esquadrões da morte dos partidos xiitas e as tropas dos Estados Unidos. A população civil ficou encurralada entre todas estas frentes.

De 2003 a 2007, o Iraque transformou-se num inferno. Um inferno que foi tornando o trabalho do Observatório cada vez mais difícil. En junho de 2004, um ano depois de ser criado, o centro de documentação teve de fechar, devido às ameaças de morte que Jamas e os outros colaboradores receberam.

Mas, apesar das dificuldades, Jamas continuou a recolher testemunhos, a falar com as vítimas, a gravar os crimes cometidos pelas forças ocupantes. Muitos casos foram recolhidos no arrepiante livro Crónicas do Iraque, publicado em 2006. O livro torna especialmente visível o sofrimento por que passaram as mulheres durante o conflito. Mulheres sozinhas que perderam os familiares, mulheres deslocadas à força, mulheres feridas e violadas ou mulheres detidas nas prisões das forças dos Estados Unidos e Inglaterra.

Jamas fala dos desaparecidos de cujo paradeiro nada se sabe, e cujas famílias se afundam no desespero, qual labirinto sem saída. E descreve a sua perturbação em narrações como esta: “Uma mãe estava tão desesperada que, quando ouviu que um amigo do seu filho tinha sonhado que este estava enterrado num determinado local, dirigiu-se a esse local e esteve a cavar nas sepulturas, sem encontrar nada”. 

“Foi muito difícil e perigoso trabalhar. Por um lado, era-o porque nos deslocávamos a zonas bombardeadas, a bases militares, a áreas ameaçadas. Mas também o era porque os próprios iraquianos se mostravam tão encolerizados e dececionados que não acreditavam que alguém pudesse ajudá-los. Eu deslocava-me com o meu caderno e câmara a muitos lugares, para fazer perguntas às pessoas sobre a sua situação, e algumas faziam-me sofrer muito. Não viam razão para as suas histórias serem tornadas públicas, a não ser para obterem ajuda nas suas necessidades mais imediatas, como remédios, alimentos ou uma casa”, recorda, numa entrevista, Iman Jamas.

O trabalho de recolha de testemunhos sobre abusos dos direitos humanos incansavelmente realizado por esta escritora e tradutora, licenciada em Literatura pela Universidade de Bagdad, foi reconhecido em Espanha. Em abril de 2007, Iman Jamas recebeu em Córdova o Prémio Internacional de Jornalismo “Julio Anguita Parrado”, em honra do jornalista espanhol morto pouco antes da queda de Sadam Hussein, enquanto fazia a cobertura do conflito.

Desde 1977 que Jamas denuncia os riscos que correm os jornalistas do seu país. Segundo os seus cálculos, entre 2003 e 2007 morreram no Iraque mais de 200 jornalistas iraquianos. “Eles são os que trabalham nas zonas de perigo, e recolhem a informação que lhes compram as agências e os jornalistas enviados para os hotéis da ‘Zona Verde’ de Bagdad”, afirma.

Iman Ahmad Jamas vive refugiada em Espanha, juntamente com duas filhas, desde agosto de 2006. Está à espera de poder regressar a um Iraque finalmente livre e em democracia. Entretanto, tem uma visão pessimista do futuro: “O Iraque vai precisar de muitos anos para se reconstruir. Está tudo destruído. O próprio Estado, as leis, as instituições, os serviços públicos, as infraestruturas… depois de treze anos de sanções e ocupação [dos Estados Unidos], o país está muito danificado; a estrutura social foi desmantelada… Serão precisos muitos anos para reconstruir tudo. Será muito difícil.”

Rosa Meneses

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