Amira Hass

Aamira

AMIRA HASS, PERITA EM OCUPAÇÃO

O meu trabalho é vigiar o poder.

Oficialmente, é a correspondente para os assuntos palestinianos do diário israelita Aaretz, mas prefere ser conhecida como perita em ocupação. Amira Hass, jornalista israelita nascida em Jerusalém, dá a conhecer aos seus compatriotas o que se passa a poucos quilómetros de suas casas, o que muitos não querem ver. Com residência habitual na cidade da Cisjordânia, em Ramala, mantém na realidade “um romance com Gaza”, segundo as suas próprias palavras. Há já alguns anos que passa temporadas na faixa de Gaza e conta como é viver em estado de sítio.

O meu desejo de viver em Gaza não se deveu à sede de aventuras ou à loucura, mas ao medo de ser uma observadora passiva, à minha necessidade de compreender até ao último pormenor um mundo que, de acordo com os meus conhecimentos políticos e históricos, é uma criação profundamente israelita. Gaza encarna para mim toda a saga do conflito israelo-palestiniano, representa a principal contradição do Estado de Israel: democracia para alguns, privação para outros”, explica Hass.

Foi pela primeira vez à Faixa de Gaza como voluntária da organização Workers Hotline (Linha Direta de Trabalhadores), que se ocupava em defender os direitos dos trabalhadores palestinianos face aos abusos dos seus empregadores israelitas. E lá regressou, como jornalista, em muitas ocasiões.

A última vez foi na ofensiva israelita, em janeiro de 2009. Queria ver e relatar os efeitos demolidores das bombas, os disparos e os tanques. De lá escreveu regularmente para o seu jornal, um dos mais influentes do país, e não hesitou, uma vez mais, em fazê-lo em contracorrente.

Mesmo tendo sido proibida pelo seu próprio país, foi a única repórter israelita que decidiu entrar nos 365 quilómetros quadrados da Faixa de Gaza e observar as casas destruídas, as culturas arrasadas, as montanhas de escombros. E assim pôde oferecer aos seus leitores a outra versão do ocorrido, a dos civis que morreram, a dos que perderam tudo, os que levaram dias para serem assistidos, os abusos dos soldados e a estratégia belicista do país.

Israel sabe que a paz não compensa”, eis o título de um dos seus mais recentes artigos, onde explicava que a indústria do armamento e da segurança se via seriamente ressentida, enquanto os recursos e a terra eram significativamente diminuídos, e que havia que reparti-los de maneira mais justa e equitativa.

Em maio, quando abandonou Gaza, Hass foi detida pela polícia de Israel, por violar a lei que proíbe residir em território inimigo, e foi posta em liberdade depois de prometer que não voltaria a Gaza num prazo de 30 dias. Não era a primeira vez que a repórter enfrentava as forças da ordem e da justiça. Também foi detida em dezembro de 2008, depois de ter chegado a Gaza numa das embarcações que protestavam contra o embargo, levando ajuda por mar aos palestinianos. Em 2001 foi condenada a pagar uma multa por caluniar os colonos de um dos colonatos mais radicais de Hebrón.

Já está acostumada às mensagens insultuosas de alguns leitores. “Alguém me disse uma vez que desejava que eu tivesse tido cancro”, conta a repórter, que também é saudada nalgumas cartas com um Heil Hitler. Há até quem já lhe tenha dito que, na vida anterior, devia ter sido guarda de um campo de concentração nazi. Algo que deve ser muito duro de aceitar para uma filha de sobreviventes do Holocausto (o pai passou quatro anos no gueto de Transnístria, na atual Moldávia.)

A mãe era uma judia de Sarajevo que lutou contra os nazis, antes de ser deportada para o campo de concentração de Bergen Belsen. Foi aí que começou a tomar notas num diário do que se passava à sua volta, e a dar aulas a crianças, apesar de os guardas do campo proibirem ambas as coisas.

Os pais, militantes comunistas, incutiram-lhe pois o sentido da luta pela igualdade e por um mundo melhor, para compensar o enorme vazio deixado pelo genocídio, pela perda de familiares, amigos e raízes. Amira Hass conta sempre as recordações dos pais como se se tratasse das suas próprias, e assegura que “a sensação de perda está sempre presente.” Tal como eles o fizeram, também ela luta contra a injustiça.

Os israelitas nunca se deslocaram aos Territórios Palestinianos, não veem o que se passa com os próprios olhos. Nunca viram um povo palestiniano cujas terras estão ocupadas por colonos, um povo sem água e que necessita de autorização do Governo, inclusive para plantar uma árvore, já para não falar de construir uma escola. Não se compreende até que ponto a dispersão de colonatos judaicos marca o controle israelita sobre os territórios palestinianos.

Para Hass, vencedora de prémios tão prestigiados como o da UNESCO/Guillermo Cano World Press Freedom Prize, o jornalismo deve concentrar-se “em vigiar os centros de poder”. Mais do que ser objetiva, Amira aspira a ser justa. E, por isso, não tem dúvidas em falar também das irregularidades da política palestiniana. Muito recentemente criticava os dois Governos da Palestina, o Hamas em Gaza, a Fatah na Cisjordânia, por estarem a violar o direito dos civis a uma assistência sanitária, devido à dificuldade de ambas as partes chegarem a um simples compromisso.

Afirma que o que realmente importa são as pessoas, que são “as que realmente escrevem a História”, e foge dos slogans e das frases grandiloquentes tão usadas no Médio Oriente. E procura explicar a realidade da ocupação com exemplos e imagens, para fazer chegar aos seus leitores a realidade do que se passa. “Podes ver as ruínas da casa, mas não podes ver as ruínas nas nossas almas”, escrevia recentemente a partir de Gaza, reproduzindo as palavras de um dos civis afetados pela ofensiva.

Anxela Iglesias
http://www.1325mujerestejiendolapaz.org/
(Tradução e adaptação)

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