O piano vermelho

China, 1975, um final de tarde de abril.
Há sete anos que pessoas jovens e cultas frequentam campos de reeducação, por vezes com entusiasmo, mas mais frequentemente sob ameaça. Objetivo dos campos: erradicar o elitismo através do trabalho manual. Os jovens convivem lado a lado com pobres camponeses e são “reeducados” pelo estudo das obras políticas do Presidente Mao.

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Um luar sinistro abate-se sobre o campo Zhangjiake 46-19 na fronteira entre a China e a Mongólia Interior.
Na camarata, os quartos repletos tresandam a suor doce, ao cheiro nauseabundo das fogueiras de carvão extintas e da terra sobrelotada. Apertados uns contra os outros, os camaradas já dormem no chão despido. Com passos pequenos e cautelosos, a rapariguinha deixa a casa comunitária.
Lá fora, o vento fustiga.
Era suposto haver um recolher obrigatório rigoroso, mas já passou muito tempo desde a última vez que o comité colocou guardas a vigiar. Tudo o que ela tem a fazer é saltar o muro da latrina e seguir por um caminho ladeado de árvores. No fim do caminho, no limite da aldeia, ela já consegue ver a casa da sua cúmplice, a mãe Han.
Um piano vertical ocupa o armazém. À luz do candeeiro o teclado é amarelo.
Puxa um banco baixo e levanta as mãos congeladas. Faz, então, uma pausa. O seu pensamento retrocede, no tempo, até ouvir o seu primeiro professor de piano murmurar:
— Precisas de aquecer as tuas mãos, minha pequenina, de preferência com um prelúdio de Bach, em vez de martelares nas teclas como se fosses louca.
Ela inclina-se para a frente, o seu corpo frágil perdido no seu casaco azul, as tranças roçando as teclas e, sem mais esperas, entrega-se ao seu prelúdio. O calor regressa.
A música eleva-se, livre, todavia confinada pelas paredes grossas.
Esta noite marca o fim dos seus cinco anos de exílio.
Como milhares de outros, as suas quatro irmãs, a sua mãe e o seu pai foram enviados para outros campos. Os pianos são criminosos. Os pianistas são criminosos. Encerram-se as escolas. O partido está a reeducar toda a gente.

Do nascer ao pôr-do-sol, ela tem de aprender uma nova forma de vida: como plantar arroz, colher legumes, apanhar fruta e cortar lenha com o seu grupo de trabalho. A isto chama-se “aprender através do trabalho e da autocrítica.” A Grande Revolução Cultural Chinesa continua.
Os seus dedos deslizam pelo teclado. Ela esquece o sofrimento do dia-a-dia, a hora tardia, o cansaço e o perigo. Concentrada e determinada, ela sente as teclas. Mão direita, mão esquerda: praticando arpejos, ritmos e contrapontos. E esboça um meio sorriso, fugaz.
Ontem, um guarda ficou perplexo, quando a apanhou em flagrante. Ela fingiu que estava a ensaiar uma ópera revolucionária que a esposa do Presidente Mao compôs… e ele foi-se embora.
— Viva o Presidente Mao!
Transportar um piano, toda aquela distância até aqui — que loucura!
Há três anos enviaram a sua mãe, adoentada, para Pequim. A jovem pianista, desprovida do seu instrumento musical, traçou um plano, enviou mensagens secretas e, obstinadamente, tentou persuadi-la… A mãe acabou por ceder: mandar-lhe-ia um piano.
O piano viajou num vagão de carvão do comboio que transportava provisões para o campo de trabalho. Três semanas de viagem e algumas cordas partidas. Tudo o que se podia ouvir das notas agudas era o doing dos martelos, mas as notas graves ouviam-se melhor: sonoras e profundas…
Um piano no campo Zhangjiake 46-19… Que milagre!

Esta noite ela regressa à sua infância e ao som abafado da cidade. Ela era a grande esperança da sua mãe: dotada ao piano, cheia de sorte, e dez longas horas de treino diário. Música às refeições, música antes de se deitar. Seis anos numa escola de música para crianças dotadas. Concertos na rádio Pequim.
Quase chegou a odiar o piano. Mas, esta noite, junto do piano degradado, saboreia uma felicidade profunda, a maior que alguma vez sentira. Desde há alguns anos, páginas do prelúdio de Bach O Cravo Bem Temperado passam de mão em mão, no campo de trabalho. O pai de um amigo envia-as em embrulhos.
Algumas folhas vêm escondidas em pacotes. Se houver uma vistoria, elas são confiscadas e só lhe resta aguardar um novo embrulho.
Decide então fazer o seu próprio livro de música e começa a transcrever a partitura em cadernos finos, feitos à mão. Finas folhas de papel frágil e usado. Quanto mais ela escreve, tanto mais pequena se torna a sua caligrafia. E receia não ter espaço suficiente.
Durante as aulas de autocrítica, três horas diárias depois do trabalho, ela usa o Pequeno Livro Vermelho para esconder o seu projeto. Copia as pautas, as notas, escondidas debaixo da sua túnica. Durante semanas, ela aplica-se com persistência, página após página. Neste momento já tem alguns cadernos escondidos.
Mas que finalidade pode ter a música? Poderá apagar cinco anos de exílio, uma juventude perdida, frio, fome, miséria e prisão?
Todas as noites, durante três anos e duas horas, após o trabalho nos campos e as aulas de autocrítica, as suas mãos redescobrem o velho piano lamuriento.
Tocar apenas por amor à música. Tão simples como isso.
Um eco da música dentro de todos nós, que pouco a pouco traz alguma humanidade à nossa vida e a um sistema cruel. Que força! E que loucura também!
No mês passado, a orquestra de Filadélfia esteve em Pequim. Descer de novo o vale, esgueirar-se num comboio. Duzentos quilómetros de perigos, desde a fronteira da Mongólia até à capital. Música, felicidade… e um pouco de liberdade!

Esta noite, fascinada pelas suas músicas e memórias, a jovem pianista não ouve o choro abafado da Mãe Han. Nem sequer sente a presença de intrusos. Baixando o olhar, a partir da mão esquerda, quando se apressa em direção às notas escritas mais em baixo, vislumbra, de repente, dois pares de botas e uniformes verdes. O seu coração para. Os seus dedos congelam em pleno ar.
O chefe de campo e o seu adjunto estão à porta. As suas últimas notas ficam, por um breve instante, suspensas no ar. Faz-se um longo silêncio.
Subitamente, dá um salto. A sua cadeira cai ao chão. Com a cabeça inclinada, corre para o exterior.
O adjunto grita-lhe:
— A tua música não vale um chavo!
Correndo como louca em direção às camaratas, ela já não consegue ouvir.
De manhã, em frente à população reunida, ela e a sua cúmplice são denunciadas, repreendidas e insultadas. O adjunto, trocista, pendura-lhes uns letreiros ao pescoço onde se regista a ofensa.
Arrastam o piano para a praça e esmagam-no brutalmente para ser queimado. As cordas são enroladas em carrinhos e usadas para atar os molhos da lenha.
Cada família recebe uma parte. Exceto as famílias educadas, claro.
Acaba a cerimónia. Todos se dirigem para os campos, cantando canções patrióticas.
Mãe Han é levada para fora da aldeia.
Os guardas retêm a jovem pianista em Zhangjiake 46-19.
Intensifica-se a sua reeducação e prolonga-se a sua estadia.
Recolher e transportar para os campos as fezes das latrinas, para fertilizar o solo: é o que acontece a um artista rebelde.
E a música no seu coração abranda.

Passa um ano.
Setembro de 1976 — o Presidente Mao morre.
Começa a desocupação do campo Zhangjiake 46-19.
Uma tarde, chamam-na ao comité. Ela fica apreensiva.
Na sala fria e cinzenta, debaixo de um retrato resplandecente de Mao, o responsável do campo diz-lhe que vai regressar a Pequim. E ela parte de madrugada. É a última a abandonar o campo de reeducação Zhangjiake 46-19.
Sob a luz pálida da lua, ela parte, segurando apenas os seus pequenos cadernos que sobreviveram.

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Este livro foi inspirado na história verdadeira e extraordinária de uma rapariga que cresceu durante a revolução cultural chinesa.
Apesar das adversidades por que passou, esta é uma história de triunfo, pois a protagonista desta história tornou-se na pianista Zhu Xiao-Mei, internacionalmente conhecida.

André Leblanc; Barroux (ill)
The red piano
Victoria, Wilkins Farrago Pty ltd, 2009
(Tradução e adaptação)

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