A violência humana sobre as outras espécies

A violência humana sobre as outras espécies

ESPECISMO

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial e de lacticínios.

Vivemos uma profunda crise do paradigma que dominou a humanidade europeia-ocidental e se mundializou: nele o homem vê-se como centro e dono do mundo, reduzindo natureza e seres vivos a objectos desprovidos de valor intrínseco, meros meios destinados a servir fins e interesses humano. Se a tecnociência contemporânea confiou no progresso geral da hu­manidade mediante a exploração ilimitada dos recursos naturais e dos seres vivos, frustra-se hoje essa expectativa de um Paraíso terreno científico-tecnológico-económico: o sonho dos projectos neoliberais e socialistas converteu-se no pesadelo da guerra, fome e pobreza, da crise económico-financeira, da destruição da biodiversidade, do sofrimento humano e animal e da iminência de colapso ecológico.

Os relatórios científicos mostram o tremendo impacte que o actual modelo de crescimento económico tem sobre a biosfera planetária, acelerando a sexta extinção em massa do Holoceno, com uma redução drástica da biodiversi­dade, sobretudo nos últimos 50 anos, a um ritmo que chega a 140 000 espécies de plantas e animais por ano, devido a causas humanas: destruição de florestas e outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-nativas, poluição e mudanças de clima.

Manifestação particularmente violenta do antropocentrismo é o especismo, preconceito pelo qual o homem discrimina os membros de outras espécies animais por serem diferentes, me­diante um critério baseado no tipo de inteligência que possuem que ignora a sua comum capacidade de sentirem dor e prazer fí­sicos e psicológicos (a senciência, ou seja, a sensibilidade e o sen­timento conscientes de si, distinto da sensitividade das plantas) ou o serem sujeitos-de-uma-vida. A exploração ilimitada de recursos naturais finitos e dos animais não-humanos para fins alimentares, (pseudo-)científicos, de trabalho, vestuário e divertimento, tem causado um grande desequilíbrio ecológico e um enorme sofri­mento. O especismo é afim a todas as formas de discriminação e opressão do homem pelo homem, como o sexismo, o racismo e o esclavagismo, embora sem lograr ainda o reconhecimento e combate de que estas têm sido alvo.

A desconsideração ética do mundo natural e da vida animal não só obsta à evolução moral da humanidade como também a lesa, lesando o planeta, como é particularmente evidente nos efeitos do consumo de carne industrial e de lacticínios. Além do sofrimento dos animais, criados em autênticos campos de con­centração, além da nocividade da sua carne, saturada de anti­bióticos e hormonas de crescimento[1], a pecuária intensiva é um mau negócio com um imenso impacte ecológico: entre outros ín­dices, destaque-se que toda a proteína vegetal hoje produzida no mundo para alimentar animais para consumo humano poderia nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, quase um terço da população mundial, enquanto 1 000 milhões padecem fome. Isto leva a ONU a considerar urgente uma dieta sem carne nem lacticínios para alimentar de forma sustentável uma população que deve atingir os 9.1 biliões em 2050.

Compreende-se assim a urgência de um novo paradigma mental, ético e civilizacional que veja que as agressões aos ani­mais e à natureza são agressões da humanidade a si mesma, que não separe as causas humanitária, animal e ecológica e que re­conheça valor intrínseco e não apenas instrumental aos seres sencientes e ao mundo natural, consagrando juridicamente o di­reito dos primeiros à vida e ao bem-estar e o do segundo à pre­servação e integridade (no que respeita aos animais, note-se que Portugal possui um dos Códigos Civis mais atrasados, conside­rando-os meras coisas móveis (!), o que urge alterar). Sem este novo paradigma, de uma nova humanidade, não antropocêntrica, em que o homem seja responsável pelo bem de tudo e de todos, não parece viável haver futuro.

Paulo Borges
REVISTA CAIS
Setembro 2013
(Adaptação)

 


[1] Segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne.

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