Conversas maldosas

Conversas maldosas

Introdução

O relacionamento com os outros é uma necessidade universal, assim como o sentimento de pertença. No entanto, é importante compreender que se pode responder a estas exigências tanto de forma construtiva como destrutiva. Conversas maldosas é a história de uma rapariga chamada Bailey que o fez de um modo destrutivo. Infelizmente, Bailey não é uma exceção. Na nossa cultura aprendemos muitas vezes a relacionar-nos com os outros pela partilha de informação negativa (“Ouviste falar de _____?”) ou de informação que não nos compete a nós partilhar (“Imagina o que eu ouvi?”), ou dando opiniões ou conselhos não solicitados (“Não é para te desiludir, mas…”).
Alguns estudiosos descobriram que as mulheres são particularmente vulneráveis à armadilha das “conversas maldosas”. Isto faz todo o sentido, dado que as meninas aprendem a socializar desde muito cedo no seio de uma cultura que sugere relações mais íntimas com os outros pela partilha de segredos… Por vezes, os próprios segredos, muitas vezes, os dos outros.
Enquanto adultos, uma das nossas tarefas é a de ensinar rapazes e raparigas a desenvolver relações saudáveis e íntimas sem partilhar informação que não é deles e que não lhes compete divulgar. Partilhar os problemas dos outros permite estabelecer laços e torna-se entusiasmante. Mas pode também vir a ser um pau de dois bicos, que acaba por ferir…
A necessidade de adquirir poder e estatuto entre pares pode levar aos rumores, à criação de alianças, à exclusão, e a uma miríade de outros comportamentos destrutivos, sintomáticos de agressões relacionais. Infelizmente, o desfecho inclui quase sempre relacionamentos desfeitos e sentimentos de traição que podem bem prolongar-se até à idade adulta. Seria bem melhor que as crianças aprendessem cedo a criar e manter amizades, usando conversas construtivas e saudáveis, e partilhando esperanças, sonhos e objetivos, em vez de ferir-se umas às outras.

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Conheço uma rapariga que tem realmente uma língua enorme… O nome dela é Bailey. Bailey Boca Grande. Nunca soube que lhe chamo isto porque eu nunca o disse em voz alta. Mas é o que penso.
Quando Bailey veio para a Escola básica de Hoover, a minha professora, a Srª. Rodriguez, escolheu-me para ser a “Amiga das Boas Vindas”.
No início, eu mostrava-me um pouco envergonhada: tinha medo de dizer algum disparate e que ela não gostasse de mim. Mas Bailey começou logo a tagarelar, a fazer montes de perguntas sobre a escola e sobre os miúdos que a frequentam. E eu gostava de lhe dizer tudo o que ela queria saber.
Sentávamo-nos juntas todos os dias ao almoço e falávamos de tudo. E Bailey nunca esgotava o repertório, contando sempre piadas muito engraçadas.

Tudo estava a correr lindamente — até à noite em que dormimos em casa de Keisha.
“Vamos jogar ao Verdade ou Consequência,” disse Bailey. “Eu sou a primeira. Keisha — verdade ou consequência?”
“Verdade!” respondeu ela com uma risadinha.
“Não é para te ofender, mas essa camisa que trazes é demasiado pequena. Foram as tuas roupas que encolheram ou estás a engordar?”
Keisha abriu a boca de espanto.
“Isso não foi nada simpático!” disse eu.
“Oh, deixa-te disso, é só um jogo,” retorquiu Bailey. “Além disso, estou a fazer-lhe um favor ao dizer a verdade.”
“Grande favor…” comentou Keisha entre dentes.
“Meninas!” chamou a mãe de Keisha. “Venham buscar as vossas taças de gelado!”
À mesa, a única pessoa que falava e comia era Bailey.
Até a mãe de Keisha reparou. “Querida” perguntou ela, “sentes-te bem?”
“Não me sinto lá muito bem,” respondeu Keisha.
Também eu não me estava a sentir muito bem. Tinha um nó no estômago e tentava pensar em qualquer coisa que pudesse dizer para fazer Keisha sentir-se melhor — sem parecer que estava a tomar partido.
Quando dei por mim, já a mãe de Keisha propunha “Maya, acho que tu e a Bailey deviam ir para casa. Podemos continuar numa outra noite.”
Mas aquela noite nunca mais se repetiu. E Keisha deixou de me acompanhar quando Bailey estava por perto.

Então, algumas semanas mais tarde, durante o intervalo, Bailey e eu estávamos nos baloiços e, sem querer, ouvimos Lizzy dizer a Hua que achava Brian, o novo rapaz da nossa turma, “bastante giro.”
“Ooohh… com que então gostas do Brian?” interrompeu Bailey.
“Ela não disse isso!” disse Hua.
“Aposto que ele também gosta de ti!” disse Bailey. “Queres que eu tente descobrir?”
“NÃO!” gritaram Hua e Lizzy.
Antes que alguma de nós a pudesse impedir, Bailey correu até Brian. Eu fui a correr atrás dela, a gritar “Não faças isso!”
Mas Bailey nem ouviu.
“Oh Brii-an,” disse Bailey. “Adiviiii-inha? A Lizzy acha-te giro. Eu acho que ela gosta de ti. E tu, gostas da Lizzy?”
A cara de Brian ficou vermelho vivo e os rapazes à volta dele começaram a imitar sons de beijos.
“Tudo bem, podes dizer à vontade. A Lizzy e eu somos boas amigas.”
Antes mesmo que ele respondesse, arrastei Bailey para longe. “Para com isso — estás a envergonhá-lo!”
Por essa altura estávamos já de volta aos baloiços. A minha cabeça estava a latejar, Lizzy estava em lágrimas e Hua estava a ferver de raiva.
“Bailey McKenna,” berrou Hua, “tens uma BOCARRA ENORME e GORDA! Porque não te metes na tua vida?!”
“Não foi lá muito simpático o que acabaste de dizer!” contrapôs Bailey. “Vais arrepender-te”.

Alguns dias depois, começou a ouvir-se um boato na escola que dizia que Hua tinha escrito palavrões na parede da casa de banho das raparigas. Eu sabia que ela não o tinha feito. Também sabia quem tinha lançado o boato: Bailey.

Depois, as coisas foram de mal a pior.
Alguns sábados mais tarde, quando Bailey estava em minha casa, ouviu por acaso os meus pais a discutir acerca de dinheiro. Fiquei envergonhada, mas pensei que não seria o fim do mundo. Todos os pais discutem de vez em quando, certo?

Na segunda-feira seguinte, de manhã, vi Bailey a cochichar com alguns miúdos e a apontar para mim. Não consegui descobrir o que se estava a passar até que Keisha me obrigou a parar no corredor.
“Lamento saber o que está a passar-se com os teus pais,” disse ela.
“O que há com eles?”
“Bom, tu sabes que eles estão a pensar divorciar-se…”
“O QUÊ? Os meus pais não estão a divorciar-se! Quem te disse isso?”
“Ouvi a Lizzy. A Bailey contou-lhe.”
De repente, senti vontade de vomitar. “Mas isso não é verdade!”

Antes que eu pudesse acrescentar mais alguma coisa, a campainha para a aula tocou. A Srª Rodriguez começou a falar do ciclo de vida dos insetos, mas eu não estava a ouvir; havia ruído demais dentro da minha cabeça. Senti um leve toque no ombro.
“Maya, estás bem?” perguntou a Srª Rodriguez.
“Nem por isso.”
“Isto tem alguma coisa a ver com o que se está a passar lá em casa?”
Oh, não! Aposto que ela também tinha ouvido o boato!
“Porque não vais até ao gabinete de aconselhamento e falas com a Menina Bloom?” sugeriu.
Parecia uma boa ideia. A Menina Bloom sempre se tinha preocupado com o que eu tinha para dizer.
“Como tens passado?” perguntou a Menina Bloom.
“Não muito bem.”
Contei-lhe que Bailey dizia coisas más ou embaraçosas aos meus amigos. “Peço-lhe que pare, mas ela não quer ouvir. Agora, anda a dizer a toda a gente que os meus pais estão a divorciar-se e isso NÃO é verdade!”
“Humm,” disse a Menina Bloom. “Parece que a Bailey sofre de um caso grave de conversas maldosas!”
“Conversas quê?”
“Conversas maldosas,” repetiu a Menina Bloom. “Espalhar boatos, dizer coisas maliciosas, e partilhar informação que não lhe compete divulgar, eis alguns exemplos do tipo de conversas que só traz problemas.”
“Ninguém fica a ganhar com as conversas maldosas,” explicou ela. “Os miúdos que dizem coisas que magoam acabam por perder os amigos. E os miúdos que ouvem coisas maldosas acerca dos seus amigos ficam sem saber o que fazer, sentindo-se ao mesmo tempo empurrados e puxados, numa luta decisiva pela amizade.”
A Menina Bloom disse que iria ajudar Bailey a transformar as suas conversas maldosas em conversas saudáveis. Iria falar também com o resto dos miúdos acerca da importância de não espalhar boatos.
“Entretanto, Maya, continua a agir como tens feito,” acrescentou ela. “Não te associes a ela e não partilhes os boatos. Muda de assunto e anda só com colegas com quem te sintas segura.”

Acabei por me afastar de Bailey. Sabia que isso a deixava triste, mas é difícil ser-se amigo de alguém em quem não se confia. E eu não confiava mais em Bailey.

Ultimamente, tenho-me apercebido que Bailey está a esforçar-se por parar com as suas conversas maldosas. Até já escreveu à Keisha, à Lizzy, à Hua e a mim cartões a dizer “Desculpa”. Foi bom receber o cartão. Sabia que não tinha sido fácil para ela escrevê-lo.
A minha mãe diz que basta haver uma única pessoa com coragem para que se dê a mudança. E que é preciso um coração aberto para aceitar que as pessoas podem mudar. Isso fez-me pensar…
Há ainda montes de coisas de que gosto na Bailey. Talvez um dia eu seja capaz de voltar a confiar nela. Quando se tem um coração aberto, tudo pode acontecer!

Nota da Autora: algo mais sobre conversas maldosas

Nesta história defino “conversa maldosa” como sendo toda e qualquer conversa “… que só traz problemas.”
Fazer mexericos; espalhar boatos; mentir; dar opiniões ou conselhos maldosos e não solicitados; e partilhar informação que não nos compete espalhar, eis alguns bons exemplos de conversas maldosas.
Segundo as mais recentes pesquisas sobre agressões relacionais — uso das relações para manipular e magoar os outros —, a conversa maldosa é um problema em crescimento na escola, em casa, e principalmente online. Os computadores, os telemóveis, e outros aparelhos de comunicação estão a ser usados para espalhar rapidamente e em grande escala material nocivo e muito perigoso.
Os peritos referem que as crianças que são alvo de mexericos, boatos, humilhações e exclusão intencional, consideram tudo isto mais prejudicial do que o bullying físico. E, tal como a Maya de “Conversas maldosas”, os observadores que testemunham estes atos de agressão sofrem também, tanto física como psicologicamente. Dores de estômago, dores de cabeça, stress, ansiedade e depressão, eis alguns dos sintomas comuns que poderão experimentar.

Transformar Conversa Venenosa em Conversa Saudável

Como é que podemos encorajar as crianças a interessar-se por amizades mais saudáveis? Aqui ficam as minhas sugestões, juntamente com as recomendadas das Drªs. Charisse Nixon e Cheryl Dellasega no seu livro, Girl Wars: 12 Strategies That Will End Female Bullying. (Guerras entre raparigas: 12 estratégias que irão acabar com o bullying feminino)

• Surpreenda as crianças quando praticam atos de generosidade e valorize-os.
• Relacione-se com os amigos dos seus filhos…e com os pais deles.
• Ajude as crianças a estabelecer limites saudáveis nas suas amizades.
• Procure ou crie espaços seguros para as crianças em risco.
• Promova a expressão emocional positiva através da criação de um diário e da respetiva representação.
• Alargue a rede de apoio às crianças com pessoas que se interessam por elas.
• Seja um bom ouvinte e um bom exemplo do que é a amizade – não seja um adepto das conversas maldosas.
• Faça representações com as crianças para desenvolver as suas capacidades de pensamento crítico e as estratégias para a resolução de problemas.
• Alterne computador e telefone com encontros cara a cara.
• Se sentir que a ajuda está para além das suas possibilidades, fale com um profissional.

Dar poder a quem assiste a estes atos

Como dar poder aos que assistem a Conversas maldosas? Como permitir que intervenham positivamente, à semelhança da Maya desta história, sem que se sujeitem ao risco real de retaliação por parte do conflituoso/agressor?
Stan Davis, consultor anti-bullying e fundador da http://www.stopbullyingnow.com, descobriu que uma abordagem sem confronto (por ex. o silêncio, um encolher de ombros, ou uma subtil mudança de assunto), combinada com a determinação de não espalhar o boato, funciona muito melhor quando se trata de minimizar o risco de agressões. E, como os boatos não se espalham a não ser que mais de uma pessoa os divulgue, é fundamental educar e responsabilizar as crianças de todas as idades para tal.
Todas elas podem criar ou parar o boato, e todas devem aprender desde cedo a silenciar — dentro e fora de si — toda e qualquer conversa maldosa.

Trudy Ludwig
Trouble Talk
New York, Tricycle Press, 2007
(Tradução e adaptação)

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