Que batom combina com as montanhas?

É no aconchego mútuo que as pessoas vivem.
Provérbio Irlandês

“Há apenas três coisas que me preocupam,” disse a minha mãe ao telefone.

Conseguia imaginá-la de pé, em frente à janela da cozinha, com o telefone preso entre a cara e o pescoço, enquanto cortava orégãos frescos para o jantar. “Ser atacada por ursos, precisar de ir à casa de banho… e ficar feia nas fotografias.”

Esforcei-me por fazer ouvir a minha voz mais confiante, suave e tranquilizadora…e disse-lhe: “Se tiver de ser, vou espantar os ursos para bem longe com um pau, mas provavelmente não veremos nenhum. Ter que fazer chichi de cócoras no meio do monte não é nada de especial; e prometo que não vamos publicar fotografias feias na revista. Se o fizermos, podemos sempre pôr uma daquelas tiras pretas por cima dos teus olhos….”

Estava combinado.

Iria levar a minha mãe de cinquenta e um anos, Priscilla, e a sua irmã gémea, Linda, numa viagem de três dias de mochila às costas — um trabalho para a revista Backpacker. Estava entusiasmada, mas também nervosa. A minha mãe e a tia Linda não são exatamente montanhistas… Para elas, passar um dia inteiro ao ar livre equivale a dezoito buracos de golfe e a um bife no churrasco. Mas cada uma delas tem três filhos que adoram o ar livre. E estavam ansiosas por ver o que aquilo era…

“Posso ao menos levar um batom?” suplicou a minha mãe já no trilho principal, enquanto eu verificava o conteúdo do seu saco. O tempo prometia, a rota que tínhamos escolhido era um desafio, mas não era difícil, e com a minha amiga Tracey para ajudar a transportar a carga, a minha mãe e a tia Linda só teriam que carregar as roupas, os sacos de dormir e algumas coisas essenciais. E era este o busílis da questão!

Eu já tinha confiscado o rímel, uma escova de cabelo de cerca de vinte centímetros e dois soutiens de seda que a minha mãe considerava serem vitais para a sua segurança e bem-estar. O meu saco cheio de comida e equipamento para o grupo pesava quase vinte e cinco quilos, e eu até tinha sacrificado as minhas roupas interiores e uma T-shirt de reserva para conseguir levar uma almofada fofa só para ela. Mas deixei que levasse o batom. Para ela era um bálsamo ter os lábios com um pouco de cor….

Amarrei bem o seu saco, tomei-lhe o peso e fiquei a observar a minha mãe, à espera por detrás da minha tia para dar um retoque final, observando-se no espelho lateral do carro. Estavam ambas nervosas, dando pequenas gargalhas, como duas miúdas da escola a prepararem-se para a festa de finalistas! E as duas partiram com uma passada razoável, em silêncio, com os bastões de escalar e o cabelo enrolado e seco com o secador.

Fomos subindo gradualmente. As vistas do Lago Tahoe eram inspiradoras e, quando parámos para almoçar num campo de seixos cheio de sol, a minha mãe deixou cair o saco e disse com orgulho “Isto não foi nada comparado com a minha musculação diária!”

Mesmo que ainda estivéssemos há poucas horas a andar, fiquei aliviada ao ver as duas a sorrir — e não apenas com os sorrisos habituais de “Olá, lindo dia, não está?” Eram sorrisos de orelha a orelha, com os olhos bem abertos: “Nós somos fortes e saudáveis, uau, vejam aquela paisagem!” E eu sentia-me como qualquer chefe de escutas: nervosa porque, a qualquer momento, poderia surgir algum problema, mas feliz por ver as “minhas miúdas” a divertirem-se.

“Faltam cerca de cinco quilómetros para o acampamento,” disse-lhes. “Porque é que não vestem os vossos casacos de lã cardada para não ficarem geladas enquanto descansamos?” Ocorreu-me então que os papéis parentais se tinham invertido e que eu parecia mesmo a minha mãe! Esta, sentada numa rocha ao lado da irmã, disse suavemente “Está bem.” Nunca eu na minha vida tinha sido tão obediente!

“O almoço está servido,” disse eu pouco depois, deixando cair aos pés delas o saco comum a todas com barritas energéticas e entregando a cada uma um pãozinho de trigo integral recheado com queijo, salame e mostarda. Comemos em silêncio até que a minha tia Linda deixou escapar “Isto tem um sabor incrível!”

“É completamente gourmet!” disse arrebatadamente a minha mãe, que é famosa pelas suas capacidades culinárias e em particular pelas sanduíches requintadas que faz.

“E esta barra energética,” disse a tia Linda, que é igualmente talentosa na cozinha, “foste tu que fizeste?”

Fiquei verdadeiramente comovida.

A quase 2.500 metros de altura, depois de uma tarde de tagarelice cordial, a minha tia parou e disse quase sem fôlego “Priscilla, olha para isto!” À nossa frente, espreguiçando-‑se, estava o Lago Upper Thelma, a brilhar – qual safira gigante – ao sol da tarde. E não se via ninguém em volta.

Encontrámos um sítio para acampar com uma vista espetacular. A minha mãe e a irmã mergulharam os pés saídos da pedicura nas águas frias do lago, enquanto Tracey e eu montávamos o acampamento. Quando a nossa tenda ficou pronta, a minha mãe rastejou para o interior e deixou-se cair. Enfiei a cabeça lá dentro e descobri que tinha arranjado muito bem as nossas camas. Tracey e eu ficaríamos com as das pontas — para protegê-la dos ursos, dizia. Estava feliz, deitada de costas, a sorrir para o teto de lona.

Em breve apreciávamos um bom vinho à volta do fogareiro. A minha mãe estava reclinada na sua cadeira de campismo, a ver-me picar alho e cebola para juntar às lentilhas que ferviam em lume brando. Apanhei um bocado de cebola que tinha caído no chão, soprei-lhe a terra, e depois deitei-o por cima das lentilhas. Os olhos dela esbugalharam-se. “Não te preocupes, mãe, um pouco de terra não te vai matar!” disse eu. Quando as lentilhas e o arroz foram finalmente servidos, só se ouviam ohs e ahs a saudarem os meus talentos culinários. E foi tudo devorado em segundos!

Já com o anoitecer a envolver-nos, a conversa girou em torno da perspetiva de sermos apanhadas por ursos. Durante o jantar, e mesmo depois, nas pequenas tarefas antes de deitar, a minha mãe e a minha tia sentiam-se algo inseguras dentro do círculo amarelo das luzes das lanternas… assustando-se com qualquer ruído na escuridão. Mas uma vez no interior da tenda, sentiram-se em segurança e rapidamente começaram a baralhar as cartas à luz da vela.

Na manhã seguinte estava um dia magnífico, quente e com sol, com nuvens de algodão doce a flutuarem num céu azul profundo. O nosso plano era passar algum tempo a escalar sem bagagem até um lago próximo, parar para almoçar, e depois regressar à base. Ainda não tinham passado vinte minutos e a minha mãe e a irmã tinham já referido os nomes de cinco tipos de flores silvestres. Nunca antes puseram o pé num prado no cimo de uma montanha, mas anos a cuidar de lindos jardins tinham-nas transformado em botânicas amadoras. No final do dia já me tinham ajudado a identificar dez novas flores silvestres!

Depois do almoço, retomámos devagar o caminho de volta ao acampamento, caminho esse que serpenteava entre prados cobertos de flores, e era acompanhado por um belo riacho gorgolejante. A minha mãe estava a demorar-se um pouco e, quando eu me voltei para ver o que se passava, estava ela completamente dobrada, puxando a língua da bota. “Acho que posso estar a fazer uma bolha,” disse a medo. Descalcei-lhe a bota, vi que não tinha qualquer bolha, e depois alarguei um pouco os cordões para aliviar a pressão. Ajoelhada na terra, enquanto lhe dava um nó duplo, pus-me a pensar nas centenas de laços que teria atado por mim ao longo de todos os anos… Levantou-se e deu alguns passos.

“Muito melhor,” disse ela. “Obrigada, querida.”

“De nada. Eu é que tenho muito que agradecer!”

Uma das minhas memórias mais antigas é a da minha mãe a cuidar de mim quando estava doente. Devo ter estado quatro ou cinco vezes de cama. Acordava a meio da noite a respirar com dificuldade e a tossir muito, como se os meus pulmões estivessem cheios de serrim. A minha mãe abria então o duche de onde saía uma água bem quente, sentava-me ao lado da banheira e friccionava-me as costas. Falava comigo com meiguice, até os meus pulmões ficarem descongestionados…

No nosso último dia nas montanhas, foi a minha vez de cuidar da minha mãe que tem um problema auditivo crónico que a pode fazer sentir-se “como se alguém estivesse a espetar-me um ferro na cabeça”, como ela própria descreveu um dia. A tal dor tinha começado a incomodá-la nessa mesma tarde e, enquanto jantávamos, eu via que estava a piorar. De vez em quando estremecia e inclinava a cabeça para o lado. Assim que o jantar acabou, tomou quatro analgésicos e foi para a tenda deitar-se.

Tentei manter-me calma. Sabia que não corria perigo, mas vê-la sofrer punha-me doente. A minha tia lembrou-se então do remédio caseiro da minha avó, que eu improvisei, embebendo um pouco de algodão em azeite. Com suavidade, tapei-lhe o ouvido com algodão e coloquei-lhe bem ao lado da cabeça uma botija de água quente. Uns minutos depois a minha mãe estava a dormir. Fiquei acordada a maior parte da noite, a ouvir o vento a uivar e os cristais de neve a roçarem na tenda. Às 3:00 da manhã fui dar com a minha mãe acordada, com dores. Apalpei a botija de água quente. Estava morna.

“Vou levantar-me e aquecer mais água,” sussurrei. “Não, não sejas tonta,” murmurou em resposta. “Lá fora há uma tempestade. Fica no teu saco de dormir. Eu estou bem.”

Quinze minutos depois, com uma botija de água quente de novo encostada à cabeça, ela dormia em paz. Deitada ali ao lado, ouvindo-a a respirar, pensei Isto deve ser como quando um filho fica doente ou se magoa…

No dia seguinte levantámo-nos com nuvens cinzentas-escuras, ventos fortes e dois centímetros e meio de neve. O tempo podia estar desolador, mas o ouvido da minha mãe estava bem melhor. Ao descermos a montanha, a neve atingia-nos vinda de todo o lado, o vento fustigava-nos as faces, e o trilho tornava-se cada vez mais escorregadio. As gémeas pareciam ter uma certa dificuldade. No entanto, a minha mãe tirou o nariz para fora do capuz e olhou para um pinheiro a baloiçar-se como se fosse uma simples agulha.

“Se calhar deveríamos sentir-nos infelicíssimas aqui fora, nesta tempestade,” disse ela, e a irmã terminou o seu pensamento, “mas, no entanto, estamos muito bem!”

Pareciam duas profissionais com os seus bastões de escalada.

Foi com imensa satisfação que as vi deslizar pela escorregadia vertente da montanha com a mesma graça das esquiadoras nórdicas veteranas! Mas o que mais me surpreendeu foi que não pareciam ter grande pressa em voltar à civilização. Há uma semana atrás, aquele tempo agreste tê-las-ia impedido de irem a pé até casa, mas agora lá andavam elas a passear por ali, todas felizes, parando de boca aberta a olhar para os toros da cabana fustigados pelo vento! Compreendi então que esta nossa aventura tinha sido uma das mais gratificantes de sempre: a minha mãe, que tinha dormido debaixo de um teto durante toda a sua vida, era, ainda que temporariamente, uma verdadeira mulher da natureza!

Naquela noite encontrámo-nos com os meus pai, tio, irmão e primo num restaurante elegante. A minha mãe e a tia Linda — depois de um duche retemperador, com o cabelo arranjado e as faces bem rosadas — pareciam mais saudáveis e jovens do que nunca! Tagarelavam, excitadas, repetindo os detalhes da viagem perante uma bem ansiosa audiência. Quando serviram o café, a minha mãe voltou-se para o meu pai e disse “Danny, havias de ter visto a Kristin. Tomou tão bem conta de nós! Fiquei tão orgulhosa!”

“Engraçado dizeres isso, mãe,” disse eu. “Estava a pensar exatamente o mesmo de ti.”

Kristin Hostetter
(Tradução e adaptação)

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