A propósito do Dia Mundial da Consciencialização do Autismo – O passeio de Ian

Está um dia perfeito para ir ao parque dar de comer aos patos com a minha irmã mais velha, a Tara. Só que o meu irmão também quer ir connosco.

— Oh, Ian, porque é que não ficas aqui? — pergunto.

O Ian, porém, nem me responde, porque tem autismo. Mas bate com os dedos com força contra a rede da porta e começa a choramingar.

— Tudo bem, Ian. Ele pode vir connosco? — pergunto à minha mãe.

— Vais ter de o vigiar bem. Tens a certeza de que queres fazê-lo? — pergunta ela.

— Claro que sim — respondo.

A Tara também acena.

— Mas és tu que lhe vais dar a mão, Julie — diz-me.

O cérebro do meu irmão não funciona como o das outras pessoas.

O Ian vê as coisas de forma diferente…

Quando passamos pelo restaurante, ele entra para ver a ventoinha do teto a mover-‑se em círculos lentos, mas não olha para as empregadas, que passam, apressadas, transportando toda a espécie de sanduíches e gelados.

— Vamos tomar uma gasosa! — sugiro.

Mas o Ian mantém os olhos fixos na ventoinha até irmos embora.

O Ian ouve as coisas de uma outra forma…

Quando um camião dos bombeiros passa por nós, com a sirene aos gritos e a buzina a tocar, o meu irmão mal se dá conta. Mas abana a cabeça de um lado para o outro e parece estar a ouvir alguma coisa que não eu consigo ouvir.

— Despacha-te! — peço, puxando-lhe o braço.

O Ian cheira as coisas de um modo diferente…

Na loja de flores da Srª. Potter, pego num ramo de lilases de cheiro adocicado e aproximo-o do rosto dele. O Ian franze o nariz e afasta-se.

Mas quando nos aproximamos dos correios, põe o nariz contra os tijolos quentes e areados e cheira a parede.

— Para com isso! — digo. — Pareces um pateta!

E tiro-o dali, antes que alguém se aperceba. O Ian sente as coisas de maneira diferente…

No lago, apanho uma pena macia e faço-lhe cócegas debaixo de queixo. Ele guincha e afasta a pena. Mas, enquanto a Tara e eu atirámos cereais aos patos, o Ian deita-se no chão com as bochechas espalmadas contra as pedras duras.

— Levanta-te, Ian — digo, pegando-lhe na mão. — Alguém pode tropeçar em ti!

O Ian saboreia as coisas de modo diferente…

Quando passamos pelas barracas de comida, nem sequer olha para as pizas, os cachorros quentes ou os pretzels fofos. Mas procura no meu bolso o saco com os restos dos cereais.

— A Tara e eu não queremos comer cereais ao almoço — digo. — Vem connosco comprar uma piza.

Mas o Ian nem se mexe e mastiga ruidosamente os cereais, um a um. Às vezes, o meu irmão faz-me sentir zangada.

— Eu vou buscar apiza — diz a Tara. — Fica tu aqui com o Ian, Julie.

Sento-me no banco, à espera.

— Senta-te aqui ao meu lado, Ian — peço.

Mas ele bate palmas e não me presta qualquer atenção. Finalmente, a Tara regressa com duas fatias de piza.

— Onde está o Ian? — pergunta.

Olho para o lugar onde o Ian estava, mas ele desapareceu! O meu estômago dá uma reviravolta e, por um momento, não consigo sequer mexer-me.

A Tara corre até junto de uma senhora.

— Não viu um rapazinho de camisola azul? — pergunta.

A senhora abana a cabeça.

— Talvez ele esteja a ver o jogo de beisebol do outro lado do parque — sugere.

Mas o Ian não gosta de beisebol.

Passa um homem com uma menina às cavalitas.

— Não viram um rapaz com ar de perdido? — pergunto, com um nó na garganta.

— Não — diz o homem. — Vamos ouvir o contador de histórias e talvez ele lá esteja também.

Mas o Ian parece não apreciar muito as histórias… A Tara corre de um lado para o outro à procura do nosso irmão. Eu fecho os olhos e tento pensar como ele. O Ian gosta da barraca dos balões, onde uma máquina enorme assobia e faz esticar os balões até ficarem com formas coloridas e esvoaçantes. Gosta da fonte onde pode pôr a cara bem próximo da bica, e ver o fio de água a esguichar diante dos olhos. De repente, o velho sino no centro do parque começa a soar, e lembro-me de que o Ian gosta mais do sino do que qualquer outra coisa.

Corro a toda a velocidade em direção ao sino. E lá está o Ian! Deitado debaixo do sino, a mover o enorme badalo para trás e para a frente. Abraço-o com força, embora ele não queria saber de abraços. Vejo a Tara junto aos baloiços e chamo-a. Vem a correr e abraça-se a nós.

— Vamos para casa pelo caminho que escolheres! — digo ao Ian.

Parámos junto ao lago e deixámo-lo brincar com as pedras. Ele alinha-as numa fila certinha ao longo das margens do caminho. Eu fico de pé, diante dele, para evitar que lhe pisem os dedos. Passámos pela loja de flores da Srª Potter e parámos nos correios. O Ian cheira todos os tijolos que quer e não me importo que alguém o veja.

Quando o Ian para na esquina, e parece estar a ouvir algo que não consigo ouvir, parámos pacientemente e tentámos também ouvir.

No restaurante, observamos juntos a ventoinha até eu ficar tonta.

Quando finalmente chegámos a casa, digo:

— Demos um bom passeio, Ian.

E, por um breve instante, ele olha para mim e sorri.

Laurie Lears
Ian’s walk
Illinois, Albert Whitmann, 1998
(Tradução e adaptação)

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