…vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam (Shahenaz Kureshi, 18 anos)

Chamo-me Shahenaz Kureshi.

Tenho 18 anos e vivo com a minha mãe nos bairros de lata de Nagpur. O meu pai, Hakim Kureshi, queria desesperadamente ter um herdeiro varão e, por isso, ficou furioso com a minha mãe quando eu nasci. De­pois de eu nascer, começou a mal­tratá-la, tanto física como men­talmente. Considerava o facto de eu ser a primeira criança do sexo feminino da sua família como uma ofensa pessoal e tentou matar-me.

Por fim, a minha mãe decidiu deixá-lo para me salvar.

Quando tinha apenas um mês, a minha mãe partiu da nossa terra natal em Orissa, em direção a Nagpur, onde viviam os meus avós maternos. Mas, quando lá chegámos, eles não quiseram receber-nos. A minha mãe sentiu-se completamente desamparada e, nos dias seguintes, vagueámos pelas ruas de Nagpur, comendo apenas o que nos davam.

Para piorar ainda mais a situação, a minha mãe adoeceu. Ainda es­tou para saber como conseguiu sobreviver e, sempre que penso nesse tempo, fico com os olhos cheios de lágrimas. Por fim, uma pessoa nossa conhecida arranjou-lhe trabalho nas obras. A minha mãe levava-me e deixava-me num sítio à sombra enquanto trabalhava sob o sol inclemente. Assim que conseguiu poupar dinheiro suficiente, comprou uns plásticos para fazer uma cabana.

Apesar de todas estas vicissitudes, a minha mãe sempre quis que eu fosse para a escola.

Os meus familiares nunca nos ajudaram e estavam sempre a meter-se na nossa vida, porque não queriam que eu estudasse. A minha mãe sofreu muito só para conseguir que eu andasse na escola. Quando eu estava no décimo ano, comprou-me uma má­quina de costura para eu poder começar a ganhar a vida. Tinha pedi­do dinheiro emprestado para comprar a máquina e, muitas vezes, eu acordava com os credores à porta, a exigirem o seu dinheiro e a ame­açarem a minha mãe.

Morávamos numa zona muito complicada, com os vizinhos sempre a provocarem-nos e a perseguirem-nos. Perguntei muitas vezes a Deus porque me tinha posto neste mundo. Não é um mundo fácil para uma rapariga, sobretudo para uma rapariga cuja mãe foi abandonada pelo marido.

No 11º ano, comecei a interessar-me pelo desporto, por ver as mi­nhas colegas. Mas a minha mãe foi bem clara ao dizer-me que a minha obrigação era estudar e não pensar em desportos. Mas também queria casar-me, e isso era o que mais me perturbava. Quan­do descobri que havia colegas minhas a jogarem perto da minha casa, não resisti e juntei-me a elas, começando depois a praticar desporto regularmente.

Pela primeira vez na vida, sentia-me completamente livre.

Quando estava em campo, era igual a todos os outros jovens e não me preocupava com empréstimos, dinheiro para comprar comida ou com os problemas que tinha em casa.

Quando a minha mãe descobriu, ficou furiosa e muito zangada comi­go. Para piorar ainda mais as coisas, os nossos vizinhos começaram a dizer-lhe que as raparigas que jogavam futebol tinham má reputação, o que a levou a opor-se ainda mais a que eu jogasse. Mas eu decidi provar que estavam todos errados e, mesmo tendo de enfrentar uma oposição generalizada, continuei a jogar. Fiquei muito feliz quando o nosso treinador me disse que ia ser criada uma equipa de futebol de mulheres sem-abrigo. Participei em alguns torneios e fiquei felicíssima quando ele me sugeriu que tentasse entrar para essa equipa, da qual só tinha ouvido falar, sem nunca poder imaginar que um dia viria a ter essa possibilidade.

Quando Mr. Barse me disse que tinha sido selecionada, nem conse­gui reagir. Continuei sentada durante vários minutos, a pensar, até que compreendi todo o alcance do que estava a acontecer-me.

Ia representar o meu bairro, a minha cidade, o meu estado e a minha nação.

Ia conseguir que a minha mãe se orgulhasse de mim e provar como todos os que tinham falado mal de mim estavam errados. Decidi que vou dar tudo por tudo pela equipa e pelo meu país. Adoro fazer parte da equipa: as minhas companheiras, todas elas de origens diferentes, são como minhas irmãs. O que verdadeiramente nos une é o desejo de fazer alguma coisa pela nossa vida e mudar o mundo em que vivemos.

Texto: Jai Hind (trad. Maria do Carmo Figueira)
Revista Cais, nº 177, Outubro de 2012

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