…e largou-o. A ele, à droga e à prostituição (Inês 43 anos)

Rebelde, com boa imagem e uma vontade imensa de experimentar coisas novas, deixou-se aliciar por um estado surreal que alguns traficantes lhe proporcionavam através da droga. Tinha 19 anos, na altura, e trabalhava num hipermercado.

Deixou-se levar, e em três tempos estava no Técnico a prostituir-se. Na primeira vez que se prostituiu, encontrou um homem que a tratou bem e a tentou desincentivar desse caminho, mas o vício e a necessidade de ter dinheiro eram superiores a qualquer tipo de consciência. “Adorava consumir. A droga é uma maravilha, o pior é conseguir sustentá-la.” E começou logo a ter muitos clientes, a prostituir-se de dia e de noite e a consumir cada vez mais, “ao ponto de adormecer assim que entrava num carro”. Ainda assim, sabia que tinha de parar. “Ou parava ou morria”. O acesso à droga era facílimo.

Fala-me sobre estes tempos de uma forma completamente livre de qualquer frustração.

Refere, que quando estava drogada, podia ser quem quisesse, vestir qualquer pele, e que essa liberdade, apesar de falsa, valia cada homem com quem se deitava. As paragens que fazia (como lhe chama) nunca duravam mais de dois meses. Eram tentativas de cura que iniciava já a saber que ia ter recaídas. Durante o tempo de cada paragem conseguia sempre encontrar emprego, ter uma vida dita normal. Ninguém dizia que era toxicodependente; ninguém acreditava nisso, na realidade.

Em 1995 aconteceram muitas coisas. Sofreu uma agressão; violações; quis pela primeira vez sair daquela vida; fez uma paragem prolongada. Estabilizou, encontrou novamente emprego, começou a fazer voluntariado e a manter-se ocupada. Trabalhou os tiques habituais de toxicodependente que tinha e deixou de ter.

Em 1997 conheceu um homem e apaixonou-se. O seu vício deixou de ser a droga e passou a ser aquele homem, que era casado. Aceitou depois a ajuda dele, que lhe pagou algumas consultas e medicamentos, e largou-o. A ele, à droga e à prostituição. Recuperou a vida, a dignidade e a vontade de viver. Descobriu cheiros novos, outrora ocultos. Apaixonou-se pelo tempo e redescobriu-se em coisas que não sabia que fazia bem.

Em 2004 começou a frequentar o centro das Irmãs Oblatas, que acompanha e apoia a mulher prostituída, respeitando-a, e promove o diálogo, a reflexão e a denúncia, bem como a inclusão das mulheres na sociedade. Fala-me das aventuras que viveu, dos sítios por onde já passou, das pessoas que conheceu e a ajudaram, daquelas que ajudou e das que entretanto faleceram, consciente da sorte que diz ter por ainda estar viva. “Muito poucas pessoas recuperam; a maioria acaba por falecer… Eu nem sei como estou aqui”.

Em 2005, nas Irmãs Oblatas, iniciou-se nas Equipas de Rua, onde ainda hoje faz acompanhamento às prostitutas, precisamente nas zonas onde se prostituía. “Já estive do lado de lá, sei precisamente o que elas sentem”. O elo de ligação é, por isso, mais fácil de estabelecer. Olha estas mulheres nos olhos e vê nelas um espelho do que já foi.

Texto: Maria Pombo; Ilustração: Rui Lobo
Revista Cais, nº 177, Outubro 2012

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