O canto do galo – Rubem Alves

O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.

 

Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

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