O rapaz que não desistiu do sonho

O rapaz que não desistiu do sonho

William Kamkwamba suspirou de alívio. Os três dias dos exames nacionais tinham chegado ao fim. Pensou, com orgulho e alegria que, se passasse, no próximo ano iria finalmente para a escola secundária. Deixaria de usar calções para passar a usar calças; e estudaria quanto fosse preciso para ser dos melhores alunos, e motivo de contentamento para os pais. A irmã mais velha não só a frequentava como já ia a meio do curso, e agora chegara a vez dele. Mas, até saírem os resultados e ser afixada a escola para onde iria em meados de Janeiro, ainda faltavam muitos meses.
— Então, Gilbert? — perguntou William ao amigo. — Agora que temos as manhãs por nossa conta, o que vamos fazer?
— Que tal começarmos por ir à caça? Há tanto tempo que não vamos…
Gilbert era filho do chefe da aldeia. Tal como William, tinha treze anos, e também queria continuar a estudar. Ambos viviam na aldeia de Wimbe, no Malawi, um país da África Oriental junto a Moçambique e ao grande lago Niassa.
No Malawi, a base da alimentação é o milho, por isso os dois rapazes tinham de ajudar os pais nas plantações. E para se frequentar a escola secundária também era preciso pagar, outra razão para desejarem que as colheitas daquele ano fossem abundantes.
No entanto, uma tragédia vinha aos poucos a abater-se sobre todo o Malawi. Naquele ano, as chuvas de Dezembro chegaram mais tarde e provocaram inundações no país inteiro, arruinando as plantações dos agricultores. Às inundações seguira-se a seca. Devido a uma má gestão do governo, a maior parte das reservas de milho tinha sido vendida para o estrangeiro e o que restava alcançou preços exorbitantes. A corrupção e a especulação fizeram com que nem toda a população, empobrecida, pudesse adquirir novas sementes. Nesse ano, na colheita de Maio, o pai de William conseguira apenas cinco sacos de milho. O rapazinho começou a preocupar-se. Como é que cinco sacos iam alimentar oito pessoas durante um ano inteiro? E será que o pai conseguiria o dinheiro para pagar a escola?
A partir de Outubro, a fome abateu-se sobre todo o Malawi e durou cinco meses. Foi o maior período de fome que o país alguma vez atravessara. Sem dinheiro para comprar milho nem farinha, que foram ficando cada vez mais caros até desaparecerem do mercado, as pessoas começaram por vender os seus bens e passaram a comer tudo o que encontravam: folhelho de milho, mangas verdes, peles de animais, ervas, até, não havendo absolutamente mais nada, começarem a definhar e a morrer de fome. Como se não bastasse, os mosquitos trouxeram depois uma epidemia de malária que vitimou muita gente. No dia em que a mãe de William moeu o último balde de milho, o pai reuniu os filhos na sala.
— Dada a situação, a única maneira de sobrevivermos é passarmos a fazer somente uma refeição por dia — disse. — Durante o dia é mais fácil não pensarmos na fome, mas de noite, não. Por isso, vamos comer à noite.
Nessa mesma noite, a família reuniu-se em volta de uma única tigela, de onde todos comeram.
Apesar da fome que piorava de dia para dia, William e o pai tinham, a todo o custo, de continuar a trabalhar nas plantações, para poderem ter uma colheita de milho e tabaco que fosse vendida no ano seguinte. Não era tarefa fácil. O corpo quase não sentia o pouco que comiam, e por vezes desmaiavam durante o trabalho.
As aulas começavam em meados de Janeiro e William ia finalmente entrar para a escola secundária. Não para a que desejara, porque as notas não o permitiram, mas para uma outra, a cinco quilómetros. No entanto, tal como a maioria dos alunos, teve de desistir por não poder pagar as propinas. De qualquer forma, em Fevereiro, todas as escolas acabaram por fechar devido à fome generalizada. Os professores e os alunos sentiam-se demasiado fracos e alguns acabaram por morrer. Em Março, assim que o milho e as abóboras amadureceram, o distrito começou lentamente a recuperar. Embora a colheita tivesse sido boa graças aos esforços sobre-humanos de pai e filho, depois de saldadas as dívidas, William continuou sem dinheiro para poder pagar a escola. Teria de passar o semestre em casa.
Certo dia, olhando para os pobres campos em volta da aldeia e pensando na vida que o pai levava, William decidiu que não desejava para si um futuro semelhante. E tomou uma resolução: iria estudar sozinho afincadamente para recuperar o atraso, antes de as aulas recomeçarem. Para ocupar o tempo, delineou um rigoroso plano de estudos e começou a frequentar a biblioteca da escola da aldeia, passando a tarde a ler os livros que requisitava pela manhã. Gilbert, cuja família conseguira dinheiro para que prosseguisse os estudos, punha-o todos os dias ao corrente das matérias estudadas e ajudava-o no que ele não percebia. Infelizmente, os livros eram em inglês, língua que não dominava, mas os gráficos e os desenhos ajudavam-no a compreender e, aos poucos, foi também percebendo melhor a língua.
William sempre fora curioso. Gostava de conhecer o funcionamento dos aparelhos e das máquinas e, alguns meses atrás, conseguira ligar um dínamo a um rádio e fazê-lo tocar enquanto pedalava na bicicleta. Com o seu primo Geoffrey, montara depois um pequeno negócio para compor aparelhos de rádio, mas, como eram precisas pilhas e estas eram caras, depressa tiveram de o abandonar. Por isso, ficou radiante ao encontrar na biblioteca livros, sobretudo de Física, que respondiam a muitas questões que lhe suscitavam interesse, tais como, por exemplo, de que forma um motor queimava gasolina, ou como funcionavam os travões de um carro ou uma televisão a cores. Até que um dia, ao procurar um dicionário de inglês-nianja, tropeçou num livro que lhe chamou a atenção. Na capa tinha a imagem de um moinho de vento e dentro vinha explicado o seu modo de funcionamento.
Ao lê-lo e ao ver os gráficos e as legendas, fez-se luz na mente de William. Da mesma forma que conseguira fazer o rádio tocar, descobria agora que, com a mesma técnica, também podia construir um moinho de vento de grandes dimensões, capaz de gerar energia eléctrica. “Podia instalar luz em casa e usar ainda o moinho para bombear água para regar os campos. E assim, em vez de uma, podíamos ter duas colheitas por ano. A mãe não precisava de se cansar a ir buscar água ao poço e acabava-se a fome na aldeia!”, pensou, esperançado. William imaginava já a horta onde a mãe poderia cultivar para casa e para vender no mercado.
Partindo do modo de funcionamento do dínamo como gerador de energia, bem como das ventoinhas que fazia em pequeno com o primo, e usando os conhecimentos aprendidos nos livros, William construiu uma ventoinha ligada a um dínamo, que gerou energia suficiente para pôr o velho rádio a tocar. Entusiasmou-se com aquele primeiro sucesso e pensou determinadamente em construir um moinho de vento de grandes dimensões.
— Se consegui um moinho pequeno, tenho de conseguir fabricar um grande! Mas sem dinheiro, como é que vou arranjar as peças de que preciso? E onde é que vou arranjá-las?
À primeira vista, o local mais indicado para procurar todo o tipo de materiais que pudessem ser usados na sua construção parecia ser a sucata de Kachokolo, ao lado da escola secundária. “Encontrei uma mina de ouro!”, pensou William quando olhou em volta. Vasculhou durante semanas e semanas, recolhendo todas as peças que pensava poderem vir a ser úteis para a sua nova máquina. A busca foi morosa, mas graças à sua persistência e determinação, foi aos poucos juntando todo o tipo de peças, que guardava no quarto, para desespero da mãe. Virou literalmente a sucata do avesso.
Chegou a levar três dias até encontrar as peças que pretendia. Passava horas a desmontá-las cuidadosamente para não as estragar e por vezes martelava horas a fio até conseguir a que pretendia. Acabava muitas vezes com as mãos cheias de bolhas, mas com uma agradável sensação de vitória.
No início do segundo período, William pensava voltar à escola. No entanto, após a venda das folhas de tabaco, o dinheiro continuou a não ser suficiente para pagar os dois semestres e permitir ao mesmo tempo que a família comprasse os bens essenciais. Para o pai de William, o momento em que teve de dizer ao filho que não podia pagar a escola foi-lhe dos mais custosos. No Malawi, uma mulher é sustentada pelo marido, e o pai não queria que William, como único filho homem na família, tivesse uma vida difícil como a sua. A educação escolar era a única saída para aquela lamentável vida de pobreza.
Decepcionado, William teve de se conformar com a ideia de não voltar à escola e de o seu destino estar previamente traçado da forma que mais temia: tornar-se um agricultor malawiano, como o pai, e passar o resto da vida a labutar para conseguir cultivar milho e, com sorte, algumas folhas de tabaco, para um dinheiro extra. Finda a colheita desse ano, abençoadamente abundante, William pôde regressar ao ferro-velho, e prosseguir com a busca de peças para o moinho de vento gigante. No entanto, não tinha a vida facilitada. Admirava o pai acima de tudo e, antes de lhe pedir a bicicleta velha encostada a um canto da sala, explicou-lhe detalhadamente a sua ideia, acabando a suplicar:
— Por favor, pai, deixe-me tentar! Podemos ter luz em casa durante a noite e bombear água do poço!
Depois de pensar um momento, o pai suspirou:
— Está bem, podes ficar com ela. Mas, William, não a partas, por favor. Já me queimaste tantos rádios… — e deu-lhe uma das maiores peças de que ele precisava: a única bicicleta que tinha, velha, sem guiador, só com uma roda, o quadro, e tudo cheio de imensa ferrugem.
Compreendeu que a ideia do filho de gerar electricidade era importante para ele, por isso dera-lhe também autorização para se dedicar inteiramente ao seu projecto. À medida que o monte de ferro-velho acumulado no quarto de William ia aumentando, o pai defendia-o perante as irmãs e a mãe, que não percebiam a razão de o irmão ter deixado de ajudar no campo e começado a ficar em casa. Esse apoio permitiu-lhe entregar-se com mais afinco ao seu novo projecto.
Mas não era apenas em casa que era criticado. Os rapazes da escola secundária que o viam remexer na sucata começaram a fazer troça dele, a chamar-lhe maluco e a dizer que fumava marijuana. De cada vez que a mãe ia ao mercado, tinha de ouvir todo o tipo de comentários sobre o filho mandrião e maluco, que passava o tempo a remexer no lixo e a fumar erva.
Todavia, William tinha também um grupo de apoiantes, embora muitíssimo reduzido. O primo Geoffrey tivera de ir trabalhar para um moinho do tio, de forma que só restava Gilbert. Foi com a ajuda deste que conseguiram arranjar o material que faltava. Por vezes, Gilbert oferecia o seu dinheiro para comprar peças em falta, como porcas e parafusos. Nessas alturas, William ficava sem palavras para agradecer. Quando tudo estava preparado para montar o moinho, continuava a faltar a peça mais importante: um dínamo. Todas as bicicletas dispunham de um, mas, infelizmente também, todas as bicicletas tinham dono… Ao fim de um mês de busca, William e Gilbert viram passar um rapaz desconhecido montado numa bicicleta.
— Olha, Gilbert, outro dínamo.
— Quanto queres pelo dínamo? — perguntou Gilbert, dirigindo-se ao rapaz.
— Não, Gilbert, não tenho…. — tentou dizer William.
O rapaz da bicicleta começou por recusar mas, naquela altura, o dinheiro fazia falta e só quem fosse tolo é que não o aceitava.
— O meu pai deu-me uns trocos — explicou Gilbert a William, enquanto entregava as duas notas pedidas. — Nós vamos construir o teu moinho de vento.
Emocionado, William conseguiu apenas balbuciar um agradecimento. Durante os meses de fome, o pai de Gilbert, chefe da aldeia, distribuíra toda a comida que havia guardado para a sua família pelas pessoas que iam bater-lhe à porta, e a falta de saúde não lhe permitia agora cultivar as terras. De certeza que havia muito pouco dinheiro em casa. Mesmo assim, Gilbert não hesitara em comprar as porcas e os parafusos, e agora comprava-lhe o dínamo.
Na cabeça de William, o moinho já estava a funcionar!
Quando, ao fim de horas, soldou manualmente o ventilador de um tractor, um amortecedor, tubos de plástico, fios, o quadro da bicicleta do pai, uma lâmpada de automóvel, e o dínamo comprado por Gilbert – tudo à mistura com muito talento, engenho, persistência e determinação – e, com a ajuda de Gilbert e Geoffrey, içou a engrenagem para o alto da armação de cinco metros de altura, uma multidão de curiosos começou a reunir-se em volta deles, cochichando e rindo. Vinham da aldeia e das aldeias vizinhas, onde a notícia da máquina tinha chegado. Quem passava de automóvel, parava na berma da estrada, admirado.
— Quem é aquele?
— É o doido do ferro-velho.
— O que é que o rapaz vai inventar agora? Queres ver que foi desta que ficou maluco de vez?
— Coitada da família! Já o deviam ter levado mais cedo ao feiticeiro.
No alto da torre, e no momento de soltar as pás, William sentiu-se nervoso. Mas, quando o vento, que acreditava no sonho daquele corajoso rapaz de catorze anos, fez girar as pás da hélice, a lâmpada que William segurava na mão começou a iluminar-se. William sentiu que o peito ia explodir de alegria. Conseguira! Em baixo, a multidão não queria acreditar no que via e, uma a uma, as pessoas começaram a aplaudir e a gritar entusiasticamente.
Ao fim de mais algumas experiências, em que quase pegava fogo à casa, conseguiu instalar luz eléctrica no interior, e uma tomada. A sua família já não era obrigada a deitar-se às sete horas, para além de passar a ter luz de forma gratuita. Os vizinhos que durante meses zombaram das suas idas à sucata e o tinham apelidado de maluco, faziam agora fila à sua porta, para carregarem as baterias dos telemóveis. E não era sem orgulho que explicavam aos forasteiros, cada vez mais numerosos, que aquela torre de cinco metros parecida com o pescoço de uma girafa fazia vento eléctrico.
A notícia espalhou-se rapidamente. O engenho de William foi objecto de notícia nos jornais e na rádio. O director de uma organização nacional de professores foi pessoalmente à aldeia, e não queria acreditar que um rapazinho, impedido de ir à escola por falta de recursos, montara uma torre eólica partindo simplesmente de uma fotografia encontrada num livro de Física na biblioteca local. Lamentando a situação do seu país e a burocracia que atrasava ainda mais o desenvolvimento deste, o Dr. Mchazime fez todos os possíveis para que William conseguisse regressar à escola e, desta vez, a uma melhor.
Entretanto, a notícia do seu moinho de vento chamou a atenção de um famoso bloguista e empresário nigeriano encarregado de organizar o programa de uma grande conferência anual, em que cientistas, inventores e inovadores se reuniam para troca de experiências. Pediu a William que se inscrevesse e, a partir do momento em que foi seleccionado para participar no evento, a sua vida mudou. Pela primeira vez, dormiu num hotel, numa cama de colchão, e viajou de avião até à Tanzânia. Aí viu também pela primeira vez um computador e tomou contacto com a internet. Nunca na vida estivera entre tantos brancos. Perante uma vasta assistência, o inglês básico de William desapareceu por completo e, se não fosse a ajuda do director da organização, nada teria conseguido dizer.
A apresentação de William terminou com um grande aplauso e muitos ouvintes comoveram-se até às lágrimas. Apesar de todos aqueles anos de dificuldades, da fome que passara, das mortes a que assistira, do medo de perder a família com as doenças que surgiam constantemente, tais como a malária, da desistência da escola, das críticas da aldeia e do meio supersticioso em que vivia, aquele rapaz lutara convictamente até ao fim pela concretização do seu sonho. Sensibilizados, vários presentes ajudaram William a aceder a um ensino mais qualificado, o que lhe permitiu realizar o seu grande sonho: construir um moinho para bombear água e irrigar toda a aldeia. O seu contributo para a luta contra a fome.
É fácil esquecer-se os sonhos quando se tem de lutar diariamente pela subsistência, enfrentar a doença e a morte. Porém, como conclui William, “se quiseres construir alguma coisa, só tens de tentar. Acredita em ti e acredita que vais conseguir.”

A. Vicente

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