Escrava – Pascale Maret

A propósito do Dia Internacional da Recordação do Tráfico de Escravos e da sua Abolição,
dia 23 de Agosto, enviamos a seguinte história:

Escrava 
 
Tem dez anos, é negra, e há muito que deixou de ter nome.
Capturada em África e embarcada com destino à América,
é vendida num mercado da Venezuela.
Baptizada Ana, trabalha duramente e vai-se adaptando à sua nova vida,
na qual aprende depressa, demasiado depressa…
Muitos têm ciúmes dela e, um dia, acusam-na de algo que não fez.
Chicoteada e humilhada, Ana decide fugir.
Mas reencontrar a liberdade vai revelar-se uma luta bem difícil…

Nos finais do século XVIII, a Venezuela, então uma colónia de Espanha, contava com cerca de 60.000 escravos, trazidos de África em navios espanhóis, portugueses, ingleses e franceses.
Todos os anos, mais de mil Africanos desembarcavam em La Guaira, o principal porto do país, para aí serem vendidos. Os colonos venezuelanos usavam-nos para pescar pérolas no fundo do oceano, extrair minérios da terra, desbravar selva, plantar café e cacau, e assegurar todas as tarefas domésticas.
Tal como acontecia no resto da América, os escravos venezuelanos eram tratados com crueldade. Para escaparem à sua triste condição, alguns não hesitavam em revoltar-se e fugir, instalando-se em regiões afastadas do país, ainda muito despovoado.
  
Sobre o cais alinhavam-se filas de Africanos, seminus. Todos piscavam os olhos, aturdidos que se sentiam por verem luz após semanas de obscuridade num porão de navio. Para que tivessem um ar mais atraente como mercadoria, tinham sido lavados e oleados, e as suas feridas curadas à pressa. Apesar disso, os boçais[1], como eram denominados os escravos acabados de desembarcar dos navios negreiros, tinham um ar bastante miserável.
A travessia horrível, no decurso da qual muitos haviam morrido, tinha-os tornado mais fracos, doentes e desesperados. Alguns eram amparados pelos companheiros, e uma jovem grávida estava estendida no pavimento, completamente esgotada. Meia dúzia de crianças, um pouco afastadas, observavam, com olhos assustados e admirados, este Novo Mundo.
No seio do grupo apavorado, estava uma menina de cerca de dez anos, que parecia alheada de tudo o que a rodeava. A sua cara bonita, emagrecida por todas as provações que sofrera, tinha um ar totalmente ausente, e esta impassibilidade ainda a tornava mais patética do que os outros. Não manifestou qualquer tipo de emoção quando o traficante a puxou pelo braço para a apresentar a um homem muito moreno, cujos traços duros eram pontuados por um fino bigode.
― Leve esta miúda, senhor. Não posso baixar o preço do lote, mas dou-lha de graça.
― É muito magrita! ― protestou o homem. ― E nem sequer parece acordada.
― Ouça, señor Ricardo, é pegar ou largar. Os três homens são robustos e as duas mulheres são jovens e sadias. Cinco belas “peças” por mil e duzentos pesos, com a miúda a completar, eis o que eu chamo um belo negócio!
O homem chamado Ricardo fingia hesitar, enquanto observava a rapariguinha sem qualquer piedade. Don José Mijares de Solapado y Pacheco, de quem era intendente, tinha necessidade de novos criados e tinha-o incumbido de comprar alguns boçais. O intendente tinha viajado de propósito de Caracas, a capital, que ficava para lá das montanhas, a fim de assistir à chegada desta carga.
Claro que iria comprar o lote. Era preciso aproveitar a ocasião. À parte a miúda, tinha seleccionado os melhores exemplares e tinha negociado um bom preço. Don José ficaria satisfeito.
― Está bem ― disse lentamente. ― Põe a miúda junto dos outros.
Os seis boçais foram colocados na casa principal de Don José, a fim de se habituarem à língua. Também era preciso saber quais deles estariam aptos para o serviço doméstico. Após algumas semanas, foram mandados embora dois homens e uma mulher, que se mostravam rudes e teimosos. Enviaram-nos para uma plantação de café, onde o chicote do capataz os poria no lugar.
Eram precisos escravos dóceis e inteligentes para o serviço da casa. Só ficaram com um dos homens, que parecia ter jeito para a jardinagem, e com uma mulher, que confiaram à cozinheira, também ela negra. A miúda, que os medos e os sofrimentos passados pareciam ter estupidificado, ficou também na casa. Era demasiado débil para trabalhar no campo.
As criadas tentaram conquistá-la, mas ela parecia um animal acossado num canto. Quase não pegava na comida que lhe davam. Na casa, havia escravos de várias origens, e todos os que ainda se lembravam do seu dialecto africano tentavam falar com ela. A cozinheira, a ama, a criada de passar a ferro, um criado, todos tentavam fazê-la falar.
Mas a rapariga não reagia. Parecia nada compreender e olhava-os apenas com uns belos olhos cheios de medo. A sua existência passada parecia-lhe agora extremamente longínqua. Lembrava-se do pesadelo que fora a invasão da aldeia por guerreiros inimigos, e a morte do chefe, seu pai, durante a batalha.
Depois, tinham sido feitos prisioneiros e forçados a caminhar durante dias a fio: ela, a mãe, os dois irmãos, e muitos outros. Separaram os homens das mulheres e os irmãos desapareceram. A mãe e ela tinham ficado fechadas numa casa abafada, juntamente com outras mulheres, antes de embarcarem numa horrível prisão flutuante, onde eram guardadas por homens brancos.
Quase todos os prisioneiros, acorrentados e amontoados no porão abafado do navio, tinham enjoos horríveis. O cheiro de vómito e de excrementos era insuportável e a escuridão ressoava de lágrimas, gritos e gemidos. Contudo, após alguns dias de travessia, Ana tinha-se sentido um pouco melhor, e tinha engolido um pouco da ração que lhes davam duas vezes por dia.
A mãe não comia, porém. Tinha o corpo a arder, os olhos sempre fechados, e era violentamente sacudida por tremuras que a filha tentava em vão acalmar, apertando-a nos bracitos magros. Nem conseguia pensar no que sucedera depois. Com um olhar cansado e os lábios gretados, a mãe murmurara:
― Não te esqueças, minha filha, de que o teu pai era um grande chefe. Sê corajosa, como ele.
 ― Prometo! ― dissera a filha.
Quando ouviu a respiração fraca da mãe transformar-se num gemido assustador, e sentiu o seu corpo acolhedor e quente transformar-se em algo de rígido e frio, a coragem abandonou-a e a noite apoderou-se do seu espírito. O mundo em redor tornou-se confuso e obscuro, como se as máscaras sagradas da sua aldeia a tivessem conduzido às profundezas da floresta interdita, onde só reinava o caos e as trevas.
Não se lembrava do que acontecera em seguida. Mesmo o sol e o ar livre não conseguiram libertá-la da noite permanente em que estava mergulhada.

Pascale Maret
Esclave !
Toulouse, Milan Poche Junior, 2007
(Tradução e adaptação)

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