Sex machine? – Gilles Lipovetsky

Sex machine?

O sexo é muitas vezes apresentado como um outro continente emblemático da supremacia do Super-Homem. Trata-se, de resto, de uma leitura pouco original. Já nos anos 50, os observadores mais conceituados chamavam a atenção para o facto de a dinâmica do consumo estar a anexar a ordem sexual. Vistas como um divertimento fácil de alcançar, como um prazer frívolo válido em si mesmo, as relações sexuais têm tendência a transformar-se em «bens de consumo» que podem ser obtidos à vontade de cada um, sem verdadeiro compromisso, de certa forma nos moldes do livre-serviço.
Mas este encontro entre o Homo sexualis e o Homo consomator, liberto das antigas tradições repressivas, foi determinado por novas imposições colectivas geradoras de conformismo e receios, de «competições ansiosas» e «ocupações angustiantes». Embora beneficie do afrouxamento das restrições tradicionais, o sujeito libidinal moderno é, ao mesmo tempo, movido por novos modelos estandardizados, tais como a obrigação de se mostrar livre, de atingir o máximo de prazer possível, de se mostrar à altura dos padrões do desempenho erótico. No passado, predominava a norma do pudor; agora, estamos a braços com uma «liberdade imposta», uma «perseguição» inédita: a sexualidade «obrigatória».
Julgava ter conquistado a liberdade? Erro completo, já que a nossa cultura nos força metodicamente a experimentar de tudo, a libertar-nos dos nossos bloqueios e inibições, a usufruir ao máximo, a tornarmo-nos numa espécie de atletas da libido. Sob a capa da permissividade esconde-se, afinal, a ferocidade das normas da excelência mensurável, um hedonismo quantitativo e obrigatório, mais capaz de gerar complexos nos indivíduos do que de desinibi-los.
Assim, o direito ao prazer reclamado pela geração rebelde ter-se-á tornado numa intimação, numa «obrigação», numa espécie de produtivismo do prazer, análogo, em termos de princípio, àquele que rege o mundo industrial. E tal como a economia liberal gera a ansiedade relativamente à obtenção de resultados e à angústia do desemprego, também a nova economia libidinal origina o pânico do insucesso e da impotência, o pavor de se ser subdotado para os prazeres carnais, de não se corresponder à imagem do Super-Homem (ou da Super-Mulher) no dito amor.
Depois do tempo da transgressão, o tempo da mercantilização de Eros; depois da era do pecado, a era do sexo eficaz, hipertécnico e operacional. As livrarias estão repletas de manuais aptos a transformar-nos em amantes peritos. A pornografia anula as palavras e os sentimentos, enfatizando as proezas. Na época das «façanhas sexuais», todo o indivíduo é incitado a tornar-se numa espécie de actor, num Super-Homem da libido, adepto do êxito a 100%. O imperativo do desempenho já não se confina ao mundo empresarial e ao desporto, tendo conquistado também o planeta do sexo.
Neste cenário, que resta da delicadeza e da autenticidade do amor? Segundo declaram os críticos da permissividade, nesta era da pornografia e da sexologia, não existe nada para além de um erotismo hiper-realista e obsessivo, desumanizado, em que a dimensão relacional face ao outro está ausente. A logorreia emancipadora e o hedonismo cultural conjugaram-se para minar o conteúdo afectivo da sexualidade, reduzindo esta última a um procedimento técnico, a relações contratuais, pobres e despoetizadas, desprovidas de imaginação e de afecto. À medida que se difundem a «deserotização do mundo» e a impessoalidade da relação com o outro, os indivíduos, «carenciados de amor», tornam-se sujeitos calculistas, incapazes de construir ligações afectivas autênticas entre si.

O amor, sempre

Se a ideia de uma cultura anti-sentimental dificilmente resiste à análise dos factos, não podemos ignorar que estão em curso transformações profundas ligadas à sociedade de hiperconsumo. Um número crescente de homens e de mulheres reconhece a sua dificuldade em amar a mesma pessoa «para toda a vida». Relativamente a este aspecto, a situação mais frequente não é o sexo pelo sexo e o aumento relativo dos parceiros sexuais, mas a multiplicação das próprias histórias amorosas. Por um lado, o ideal amoroso constitui um obstáculo ao consumo-mundo; por outro, a vida sentimental tende a acompanhar a temporalidade efémera e acelerada do hiperconsumo.
Assistimos à anulação da dimensão afectiva, a uma vida amorosa que começa a desenvolver em si mesma a estrutura do turboconsumismo, com a desregulação do mito do amor eterno, a desqualificação dos ideais de sacrifício, a progressão das relações temporárias, a instabilidade e a inconstância dos sentimentos. Uma prática de consumo sentimental que nada tem de eufórica, sendo acompanhada por sensações de vazio, decepção, rancor, sofrimento. Se há um consumo hedonista, existe igualmente uma dimensão sismográfica do hiperconsumo dominada pela alternância repetida entre felicidade e tristeza, exaltação e abatimento.

Miséria sexual e prazer sensual

O balanço que fazem certos observadores do Eros contemporâneo não é de modo algum positivo. Uns assinalam o «declínio de Eros»; outros denunciam uma sexualidade narcísica, indiferente ao outro; outros ainda pintam o quadro apocalíptico de uma época em que os seres vivem desesperados, deprimidos, frustrados, isolados, com os seus desejos sempre insatisfeitos. Miséria sexual e afectiva que se deve a convergência entre ordem erótica e ordem económica. Assim como o liberalismo económico produz uma nova pobreza, também o liberalismo sexual está na origem de um maior, muito maior pauperismo afectivo.
Neste universo hiperconcorrencial, a grande maioria dos seres está condenada ao isolamento, à frustração, à vergonha de si mesma, ao adiamento do ideal afectivo. Como se o «horror económico» não bastasse, estamos agora também perante um «horror dos afectos». O individualismo e o liberalismo cultural não teriam, afinal, feito mais do que contribuir para o isolamento das pessoas, tornando-as egocêntricas e incapazes de proporcionar felicidade umas às outras. Longe de ter favorecido a felicidade dos sentidos, a dita revolução sexual provocou um formidável desenvolvimento das frustrações e do mal-estar. Libertação dos corpos, abandono do espírito. Negação dos indivíduos.

Gilles Lipovetsky
A felicidade paradoxal
Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo.

Lisboa, Edições 70, 2007
(excertos adaptados)

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