A Bela Adormecida – conto com sugestão de actividades

A Bela Adormecida

Certo dia de Verão, uma rainha, sentada a bordar na margem de um rio, chorava. Um sapo, que estava sentado numa folha de lírio, viu-lhe as lágrimas e perguntou:
— Porque choras, rainha?
— Porque envelheci e ainda não tenho filhos — disse a rainha.
Então o sapo disse: — Limpa as tuas lágrimas. Antes que o ano acabe, vais ter uma filha.
Tal como o sapo havia prometido, assim aconteceu. Na Primavera, a rainha deu à luz uma menina.
O rei estava cheio de alegria. Ordenou que se fizesse uma festa de baptizado e enviou mensagens para toda a gente do reino. Cavaleiros, barões, condes, duques e duquesas foram convidados. Então a rainha lembrou-se: — Não podemos esquecer-nos de convidar as fadas.
Havia treze fadas no reino. Doze delas eram bondosas, mas a última usava a sua magia para fazer o mal. O rei decidiu não a convidar.
No dia do baptizado, todo o reino celebrava. Os sinos tocaram, foram içadas bandeiras e a festa e as danças duraram horas. Os convidados trouxeram presentes para o bebé: ouro, esmeraldas, veludo, rendas – tudo o que uma princesa podia desejar.
Quando todos os senhores e senhoras acabaram de dar os presentes, as fadas avançaram com os seus. Uma deu à menina beleza; outra deu-lhe graça; as outras, uma voz angelical, um passo leve para a dança, habilidade para tocar todos os instrumentos musicais.
Já onze fadas tinham dado os seus presentes, quando uma sombra cobriu o berço. A décima terceira fada encontrava-se ali e estava zangada.
— Não fui convidada para o baptizado — disse ela — mas eu tenho um presente para a criança.
Debruçando-se sobre o berço, disse: — Quando a princesa tiver quinze anos, vai picar-se no dedo com um fuso e morrer.
A sala encheu-se de terror. A rainha desmaiou. O rei implorou perdão e rogou à fada que anulasse o feitiço, mas ela enrolou-se no manto e desapareceu.
— Ninguém pode ajudar-nos? — perguntou o rei. A décima segunda fada avançou.
— Eu ainda não dei o meu presente — disse ela.
O rei virou-se para ela cheio de esperança. — Podes quebrar este feitiço?
— Não — disse a fada. — Isso não está nas minhas mãos.
Mas ela debruçou-se sobre o berço e disse: — Quando a princesa se picar no fuso, não vai morrer, mas dormir durante cem anos. Crescerá uma floresta de espinhos à volta do palácio, e tudo o que for vivo dentro dele vai estar adormecido, até ao dia em que um príncipe encontre o caminho pela floresta encantada e acorde a princesa com um beijo.
Cem anos! Para o rei, isso parecia-lhe a morte. Ordenou que toda a fiação fosse proibida e todos os fusos queimados. Se a sua filha nunca visse um fuso, pensou ele, o feitiço da fada não podia tornar-se realidade.
A princesa cresceu tão bonita e inteligente quanto as fadas tinham prometido e toda a gente no palácio gostava muito dela.
Quando fez quinze anos, foi preparada uma festa. Na cozinha, os cozinheiros fizeram molhos e assaram carne; os criados trouxeram flores e verduras para decorar o salão.
Havia uma sala cheia de presentes para a princesa e cartas de príncipes que esperavam obter a mão da princesa em casamento.
No entanto, em vez de excitada, a princesa encontrava-se calma. Ela sentia que alguma coisa estranha ia acontecer-lhe.
Quando já estava vestida, desceu em direcção à galeria e espreitou para o salão onde estavam os convidados e onde os músicos começaram a tocar.
— Deixem-me!— disse ela às criadas. — Eu desço sozinha.
Quando as criadas foram embora, a princesa afastou-se do salão e dirigiu-se à parte velha do palácio onde já não vivia ninguém.
Não conhecia o caminho; no entanto, caminhou com um passo firme, como se uma vontade exterior a ela a impelisse. Chegou ao fundo de uma escada íngreme e estreita.
As escadas estavam cobertas de pó acumulado durante muitos anos. Ela subiu, deixando as suas pegadas nas escadas.
No cimo, havia uma porta. A princesa abriu-a e entrou.
Encontrou-se num pequeno quarto onde estava uma velha a fiar numa roca.
— Entra, minha querida — disse a velha. — Estava à tua espera.
A princesa não sabia que a velha era a fada má, disfarçada.
— O que é que estás a fazer? — perguntou ela. — Estou a fiar — disse a velha.
— Gostavas de experimentar?
A princesa ansiosa, pegou no fuso. Mas, assim que o fez, picou-se no dedo e gritou.
A fada deu uma gargalhada de triunfo, mas a princesa já não a ouviu; tinha caído num sono profundo.
Imediatamente o palácio se transformou. As criadas bocejaram e recostaram-se à parede. O rei e a rainha adormeceram nos seus tronos. O rabequista largou o seu arco e o flautista tocou uma nota gemida, enquanto caía no chão. Um gato, que andava a perseguir um rato, mudou de ideias, espreguiçou-se e adormeceu. O rato adormeceu; os cavalos nos estábulos, adormeceram; os pombos no pombal adormeceram.
Não havia mais movimento; não soprava nenhuma brisa.
Então, uma floresta começou a crescer à volta do castelo. Os rebentos abriram e surgiram os espinhos; ramos espessos alongaram-se. Numa hora, as paredes estavam escondidas; num dia, a bandeira que estava na torre deixou de se ver. Mês a mês e ano a ano, a floresta cresceu e os espinhos uniram-se de tal maneira que ninguém podia entrar.
Mas as pessoas lembravam-se. Contavam histórias de um castelo escondido e de uma princesa adormecida que só podia ser acordada pelo filho de um rei. A história correu mundo e muitos príncipes foram lá e tentaram entrar na floresta; mas ficavam presos nos espinhos e morriam.
Tinham passado cem anos. No último dia do feitiço da fada, chegou um príncipe na companhia de alguns caçadores. Tinham vindo a perseguir um veado que os guiou para longe de casa por florestas e bosques, noites e dias, e que, por fim, os levou à floresta de espinhos onde acabou por desaparecer.
O príncipe já tinha ouvido a história da bela adormecida. Imediatamente percebeu que o veado tinha sido mandado para o encontrar e que era ele quem tinha de acordar a princesa.
— Deixa este sítio, volta para casa — imploraram as pessoas. Mostraram-lhe os ossos de outros príncipes que tinham ficado presos nos espinhos. Mas o príncipe não tinha medo. Levantando a sua espada, preparou-se para entrar.
Mal a espada tocou na primeira folha, toda a floresta se transformou em flores. Os espinhos quebraram-se, abrindo um caminho onde o aroma a rosas estava por todo o lado. O príncipe guardou a sua espada, entrou pela floresta e os espinhos foram-se fechando atrás dele.
Andou pelo meio da floresta florida, até que chegou às escadas do castelo. Os guardas estavam adormecidos e as suas espadas deixadas contra a parede. Atravessou o pátio e chegou a uma porta de carvalho com uma trave de ferro. Abriu-a e entrou no salão.
À sua frente, sentados em dois tronos de ouro, estavam o rei e a rainha, profundamente adormecidos. À sua volta, convidados, criados e músicos dormiam deitados no chão. O príncipe passou por eles e subiu as escadas para a galeria, onde encontrou as criadas a dormir. Dirigiu-se então para a parte velha do palácio.
Quarto após quarto, foi seguindo o mesmo caminho que a princesa seguiu há muito tempo atrás. Finalmente chegou à escadaria onde encontrou as pegadas dela. Seguiu-as.
A porta, em cima, não estava trancada. Ele abriu-a e entrou.
No chão estava a bela princesa.
O seu cabelo estava tão brilhante, a sua cara tão fresca, como no seu décimo quinto aniversário, há cem anos atrás.
O príncipe, encantado com tal beleza, ajoelhou-se e beijou-a.
A princesa acordou logo. Sorriu e levantou-se. Em baixo, no salão, a rainha e o rei espreguiçaram-se e abriram os olhos. Os convidados começaram a mover-se. O gato acordou; o rato escondeu-se atrás de uma cadeira.
O príncipe pegou na mão da princesa e desceram juntos, através dos quartos vazios, em direcção ao salão. À medida que se aproximavam, ouviam música e vozes; passaram pelas criadas que conversavam atrás da galeria; o salão estava impregnado de um aroma a flores, e a luz entrava pelas janelas.
Lá fora, a floresta encantada tinha desaparecido e, com ela, a última magia da fada. O rei e a rainha cumprimentaram o príncipe, e ele declarou o seu amor pela princesa e pediu a sua mão em casamento. Eles aceitaram imediatamente. Assim, a festa de aniversário, que tinha sido começada cem anos antes, tornou-se um casamento. Os músicos tocaram uma melodia muito viva, a dança começou, e todos os sinos repicaram em celebração.

Clássicos dos Contos de Fadas
Porto, Ed. AMBAR, 1996

  • A princesinha, vítima de um malefício, é salva graças à coragem de um príncipe.
    Este conseguiu transformar um espaço fechado sobre si mesmo num local cheio de alegria e de luz. Como?
    Em tua opinião, por que motivo terá sido o príncipe o único a conseguir penetrar no castelo?
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