Tobias e o Anjo – Susanna Tamaro (sugestão de leitura)

Susanna Tamaro
Tobias e o Anjo
Lisboa, Editorial Presença

Marta é uma menina de oito anos que vive só… quer dizer, vive no quarto andar de um grande prédio, nuns subúrbios tristonhos com prédios todos iguais.
Também tem uma televisão, um papá e uma mamã. Só que qualquer destes três nunca parece disposto a escutá-la e muito menos a conversar com ela. Não tem irmãos, mas por sorte o avô vem sempre visitá-la e ensina-lhe muitas coisas.
Por exemplo, que existem por aí portas secretas que as pessoas não vêem porque andam sempre cheias de preocupações.
Marta imagina que há palavras-chave para abrir essas portas e encontrar os mundos maravilhosos de que fala o avô. Porém, para achar essas portas e descobrir as palavras, Marta tem de encontrar o seu próprio caminho…
Tudo começou naquele dia em que o avô não apareceu!

Tobias e o Anjo

Excerto

A voz das coisas

Quantas línguas existem no mundo?», perguntava-se Marta, naquela noite, a sós na cama. Há as línguas que as pessoas falam: francês, alemão, espanhol, chinês, italiano. Para indicar a mesma coisa, usa-se uma palavra diferente em cada país. Mas uma mesa continua a ser uma mesa, um relógio um relógio, uma maçã uma maçã. Apenas varia o som para chamar essas coisas.

Os cães também têm a sua língua. Quase todas as noites, Marta ouvia os seus uivos subir da rua e das varandas do prédio. O do segundo andar, por exemplo, zangava-se por tudo e por nada: bastava o eco de um latido para ele se atirar contra as grades, a rosnar. Era evidente que os cães se compreendiam entre si. Talvez até se compreendessem entre cães de países diferentes. Um cão francês podia conversar com um cão russo e um russo com um esquimó. Não precisavam de estudar línguas para falar uns com os outros.

O mesmo se passava entre gatos, pardais, condores, abutres, hienas, elefantes e láparos. Talvez que até as aranhas e os escorpiões estivessem em condições de se compreender.

Um dia, tinha visto na televisão um documentário sobre este assunto. Havia um aranho que estava apaixonado por uma aranha. A aranha era tão gorda e peluda que dava a impressão de ter uma peruca; dormitava no centro da teia e ele devia ir ter com ela. Às aranhas — explicava uma voz —, a boca só serve para comerem, não têm língua nem garganta, por isso «ele» não podia chamar a sua «ela». A única maneira de se fazer notar era transformar-se numa espécie de músico: com as patas anteriores, dedilhava os fios da teia como se fossem cordas de harpa. Pling plong, meu amor, pling plong, espera, aí vou eu.

Para os aranhos apaixonados, é muito importante ter o ritmo da música no sangue. Devem fazer pling plong e não, por exemplo, pling pling. De facto, basta um pequeníssimo sinal de vibração diferente para que a bela ara­nha, em vez de se voltar para o seu pretendente com um sorriso, lhe salte para cima e o devore num instante. Sim, porque pling pling, para uma aranha esfaimada, quer dizer precisamente isto: — Sou uma mosca e caí na armadilha, come-me, depressa.

No entanto, à parte estes tristes acidentes de percurso, também as aranhas conseguiam, de uma maneira ou de outra, comunicar entre si.

Uma vez, em pleno Inverno, Marta foi passear com o avô para um extenso parque, perto do seu bairro. A relva estava queimada pela geada e as árvores já tinham perdido as folhas. Soprava uma forte nortada e não havia ninguém por ali. A certa altura, o avô parou no meio de um pequeno grupo de carvalhos novos.

— Notas alguma coisa de estranho? — perguntou.

— Não. Ah, sim — respondeu ela —, conservam as folhas. Estão todas secas, mas ainda lá estão.

— Isso mesmo. Os carvalhos nunca deixam cair todas as folhas no Inverno. E sabes porquê?

Marta abanou a cabeça.

— Escuta — disse o avô.

Naquele momento, uma rajada de vento sacudiu os ramos, e dos ramos desceu um tinido seco e leve. Assemelhava-se muito ao barulho da cauda da cobra-cascavel, que tinha visto na TV.

— Ouviste? É a voz do carvalho, no Inverno. Se não fossem as folhas secas, seria muito fácil confundi-lo com um castanheiro-da-índia ou com um ácer. Cada árvore tem a sua própria voz. Só tens que aprender a escutá-la.

O Sol estava a pôr-se e eles encaminharam-se para a saída do parque. Devido ao frio, Marta já não sentia o nariz nem os pés: só a mão que dava ao avô se mantinha quente. De vez em quando, uma lata rolava diante deles, ao mesmo tempo que uns sacos de plástico rodopiavam no ar como medusas tontas.

— Avô! — gritou Marta. — As latas também falam?

— Sim, as latas e os sacos de plástico.

— E as flores?

— As flores também. As flores, as pedrinhas, as conchas…

— E os motores dos automóveis?

— Ah, esses vociferam. Já para não falar dos autocarros…

— E a roupa a secar?

— Também, Marta, também. Se ouvires os lençóis e as peúgas estendidas, podes aprender um poema completo…

Naquele dia, assim que voltaram para casa, Marta abraçou-se a uma perna do avô.

— Avô, mas tu sabes tudo!

O avô fez-lhe uma festa na cabeça.

— Talvez, meu pintainho, talvez.

Permaneceram assim algum tempo, em silêncio, enquanto o relógio de pêndulo da cozinha batia as cinco horas.

Agora, o relógio batia as três. Marta tinha experimentado contar carneiros, mas de nada lhe serviu. Em vez de carneiros prestes a saltar o tapume, via o avô. Apoiava os cotovelos à paliçada e sorria-lhe com doçura. Vestia o habitual casacão bege com gola de pele sintética e tinha os olhos um pouco tristes. Não trazia cachecol. O cachecol, tinha-o Marta nas mãos. O avô tinha-se esquecido dele da última vez que viera visitá-la.

Quanto tempo passara entretanto? Seis dias? Dez? Tinha tentado telefonar-lhe, mas ninguém respondia de casa dele. Não viera na terça-feira, nem na quinta. Eram os seus dias fixos. Semana sim, semana não, vinha também ao domingo.

Marta tinha pegado no cachecol e enrolara-o ao seu urso, como se fosse um sobretudo. Conservava o cheiro do avô. Cheiro a espuma de barbear, a autocarro e a fritos.

Pela janela aberta, entrava o uivo do cão do segundo andar. Ao uivo sobrepôs-se o alarme de um automóvel. Marta mudou de posição: por mais voltas que desse, a cama parecia-lhe feita de alfinetes.

Quatro horas, e o papá sem voltar. A mamã dormia com máscaras nos olhos. A senhora do andar de cima tinha posto a roupa a lavar. Levantou-se uma aragem e os lençóis inflavam como velas de um galeão. Flap flap strr, flap flap schee, sche. A voz do vento, a voz das ondas. Para onde ia partir aquele navio?

O avô tinha razão, cada coisa possui a sua própria voz. Mas também havia coisas sem voz, o futuro, por exemplo, ou as perguntas sem resposta. Havia tantas na sua cabeça! Ao adormecer, Marta viu-as: pareciam luzes a derramar-se numa margem distante. O galeão velejava em direcção oposta, rumo à grande noite silente de um mar sem faróis, de um céu sem estrelas.

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