Água – Bapsi Sidhwa (sugestão de leitura)

Bapsi Sidhwa
Água
Lisboa, Editorial Presença

Chuya, uma mulher-menina de oito anos, fica viúva de um homem de quarenta e seis, dois anos após o seu casamento e, por decisão da sogra, é deixada numa casa de viúvas, onde é obrigada a viver uma vida de penitência e de infelicidade. Essa casa é liderada por Madhumati, uma mulher sem escrúpulos que obriga as mais jovens a prostituir-se em troca de marijuana.
Este livro conta uma história passada em 1938, na Índia colonial, em pleno movimento de emancipação da mulher, liderado por Mahatma Gandhi.

 Água

Excerto

Madhumati alcançou a varanda a transpirar, respirando com dificuldade. Entrou pela porta das escadas e chamou Kalyani.

Kalyani apareceu à porta, a tremer de medo e deu de caras com Madhumati. O longo cabelo escuro caía-lhe húmido pelas costas.

Madhumati falou-lhe num tom baixo e enfurecido:

— A Chuyia diz que te vais casar…

Kalyani anuiu.

— Endoideceste? Ninguém se casará com uma viúva.

Kalyani falou com uma certeza serena.

— Ele vai fazê-lo..

Madhumati emitiu um sopro de desdém.

— Desavergonhada! Vais afundar-te e vais afundar-nos a todas! Seremos amaldiçoadas. Temos de viver em pureza, para morrer em pureza — explicou-lhe Madhumati, sem ter noção da hipocrisia de pregar tal coisa a uma jovem que era obrigada a prostituir-se contra a sua vontade.

Kalyani sofrera tempo demais, vivendo aquela vida dupla e agora, estava disposta a enfrentar Madhumati.

— Por que razão me enviaste então para a outra margem do rio? — perguntou, calmamente.

Madhumati sentia-se ultrajada por Kalyani contestar as suas atitudes.

— É pela nossa sobrevivência! É a nossa única forma de sobrevivência e ninguém tem o direito de a questionar! Nem mesmo Deus! — proferiu irada.

Antes que Kalyani se apercebesse do que lhe estava a acontecer, Madhumati agarrou-a pelos cabelos e arrastou-a até ao barsati que servia de arrecadação junto ao seu quarto. Retirando uma tesoura do interior do sari, cortou-lhe uma mecha de cabelo num movimento surpreendentemente rápido. Kalyam caiu de joelhos aturdida, demasiado entorpecida para resistir. Madhumati prosseguiu retalhando-lhe o resto do cabelo até lhe deixar apenas uns escassos tufos. Kalyani permaneceu imóvel, como um pássaro jovem caído do ninho.

Tendo terminado a sua missão destrutiva, Madhumati fechou a porta à rapariga encolhida de medo girando a chave na imensa fechadura. Prendeu a chave ao sari e voltou a sua atenção para os rostos atentos das viúvas reunidas no pátio lá em baixo.

Madhumati manteve-se na balaustrada de olhar alucinado, com as órbitas vermelhas e inflamadas anormalmente dilatadas.

— Teríamos ardido no inferno por causa dela. Salvei-vos a todas! — disse, justificando a brutalidade da sua atitude. — Vamos ver se a puta agora se casa.

As viúvas estavam ofegantes e sem fala, Shakuntala voltou-se para Chuyia que perguntou:

É verdade?

Shakuntala repreendeu-a.

— Fala baixo!

E dirigiram-se ambas, abatidas, até ao quarto de Shakuntala, deixando as outras viúvas a olhar estupidamente para a figura gigantesca de Madhumati descendo as escadas. Chuyia agarrou-lhe no sari.

Didi, vais deixar Kalyani sair, não vais? — implorou.

— A simples ideia de voltar a casar já é um pecado — replicou Shakuntala com os pensamentos em tumulto. O seu amor por Kalya opunha-se às suas profundas crenças religiosas.

— Porquê? — perguntou Chuyia, inocentemente.

— Pergunta a Deus — retorquiu Shakuntala asperamente, impaciente consigo mesma por duvidar daquilo que acreditava estar escrito nas escrituras.

Profundamente magoada, Chuyia desapareceu a correr sem uma palavra.

Os ombros de Shakuntala cederam ao cansaço. Não conseguia reunir energia suficiente para a chamar e lhe explicar que estava zangada com ela.

Pouco tempo depois, sentou-se na sua mesinha, folheando alguns textos religiosos, tentando encontrar passagens que mencionasse as leis que governavam a conduta e o estatuto das viúvas. De acordo com o Manusmriti, o texto sânscrito mais importante nas tradições ortodoxas, a cabeça de uma viúva é rapada, os seus ornamente removidos e ela deve viver num luto perpétuo. Deve respeitar jejum, não comer coisas «picantes» para não estimular a sua energia sexual, evitar ocasiões de bom agoiro por ser considerada mau agoiro (por ter provocado a morte do marido), permanecer solteira, devotada e leal à memória do marido.

O Vriddha Hirata posterior era mais explícito. Devia abster-se de mastigar noz de bétele, usar perfume, flores, ornamentos e poupas coloridas, retirar comida de um recipiente de bronze, tomar duas refeições por dia e aplicar colírio nos olhos. Só podia vestir uma veste branca, dominar os seus sentidos e a ira, e dormir no chão.

Com os pensamentos num turbilhão, o olhar de Shakuntala projectou-se através da janela. As viúvas escandalizadas estavam novamente reunidas em redor de Madhumati. Esta estava sentada no seu takth, com o couro cabeludo a transpirar, de rosto vermelho do esforço por ter subido e descido as escadas até ao barsati. Kunti estava inclinada sobre ela, limpando solicitamente a transpiração do pescoço e do ombro exposto, e Snehlata estava agachada junto ao takth, abanando lentamente a folha de palmeira que servia de leque. A força da monção estava a desvanecer-se, mas a atmosfera ainda estava muito húmida.

O que tinha acabado de ler apenas afirmava aquilo que ela conhecia e aceitava – não encontrou em parte alguma nada que pudesse redimir Kalyani. Voltar a casar condenaria a alma do marido ao inferno e amaldiçoaria os karmas de toda a sua família. Apesar da sua aceitação incondicional do Dharma Shastras que advoga que a viuvez é um castigo por uma existência pecaminosa no passado, a situação difícil de Kalyani veio abalar a sua fé na lei.

Fechou a cortina e afastou-se da janela. Abriu a esteira junto da janela e deitou-se, era algo que nunca fazia àquela hora do dia. As memórias da sua vida de antigamente, que reprimira ao longo dos anos como uma parte terminada da sua vida porque era pecado recordar, afloraram-lhe a consciência, deixando inundar-se por elas.

O nascimento de Shakuntala tinha sido uma surpresa para os pais na sua meia-idade avançada. Já tinham quatro filhos robustos e a filha foi recebida como a Deusa Lakshmi, precursora da prosperidade e da felicidade. A sua família era proprietária de muitas terras e o pai era uma figura respeitada na aldeia. Os irmãos idolatravam-na, envolvendo-a em todo o tipo de actividades que geralmente as raparigas na aldeia não tinham permissão para fazer. Ensinaram-lhe a ler e ela conseguia recitar as multiplicações até 20. Tinha uma mente aguçada e rapidamente começou a ler os livros que eles traziam para casa.

Os pais estavam decididos a arranjar-lhe um bom casamento numa família que a tratasse bem e que lhe permitisse fazer as coisas às quais estava habituada. Shakuntala permaneceu junto dos pais muito mais tempo do que aquilo que muitas famílias teriam considerado prudente. Quando os pais começavam a desesperar por pensarem nunca iriam conseguir encontrar um marido apropriado antes de a filha atingir a puberdade, ouviram falar de um jovem viúvo numa aldeia vizinha que estava pronto a casar outra vez. Tal como todas as jovens na aldeia, Shakuntala estava ansiosa por se casar e, aos 14 anos, a sua cabeça estava repleta de fantasias românticas.

Os horóscopos deles coincidiam e o casamento rapidamente foi acertado. Como de costume, a família da noiva assumiu todas as despesas e o pai presenteou o noivo com um belo dote que excedeu as expectativas da família.

Shakuntala fechou os olhos e, tal como Bua, visualizou o banquete de casamento: grandes pratos atestados de puris fritos e inchados, legumes condimentados, montinhos de arroz de açafrão aromáticos e toda a espécie de picles, sumos de fruta e seiva fresca da palmeira. Tabuleiros de doce de amêndoa e caju recortado em forma de losango e thalis de aço apinhados de laddoos reluzentes, cobertos com uma folha prateada que se evaporava na língua. Tal como Bua, podia sentir o sabor dos laddoos e sentir a água a crescer na boca. Sorriu, fazendo uma pequena prece de agradecimento pelo facto de Bua ter comido o seu laddoo antes de morrer.

Que coisa mais mesquinha de se negar a uma idosa, pensou Shakuntala, e depois a sua mente centrou-se numa série de mesquinharias que eram negadas às viúvas para que estas conservassem a sua pureza.

Que Deus a preservasse da percepção distorcida que se tinha da pureza, pensou. Mas se não tivesse sido a caridade dos irmãos, ela teria sido obrigada a prostituir-se, tal como Kalyani.

Os pensamentos de Shakuntala regressaram ao passado. O seu noivo era jovem, tinha apenas mais 13 anos do que ela. Embora tivesse sofrido muito com a morte da primeira mulher, quando passou um ano, ele descobriu que o seu coração não se tinha endurecido com a perda e estava pronto a abrir-se a Shakuntala.

No primeiro ano de casamento, o marido mostrou-se bastante paciente, e ela desabrochou de menina para uma bela mulher. Com o passar dos anos, foram-se apaixonando profundamente. Na esperança de que Shakuntala fosse o instrumento através do qual o filho pagaria a dívida aos antepassados reproduzindo filhos, a sogra tratava-a com benevolência e carinho. No entanto, à medida que os anos iam passando, a sogra começou a culpá-la por não ser capaz de gerar filhos, tornando-se cada vez mais detestável para a sua nora estéril. Apesar de a sua relação ser muito apaixonada e ardente, Shakuntala ficava decepcionada todos os meses perante a deprimente evidência da sua fertilidade falhada, ansiando desesperadamente por um filho. Ela tinha apenas 30 anos quando o marido começou a cuspir sangue, definhando diante dos seus olhos. Perto do fim, nem Shakuntala nem a sogra saíam da sua cabeceira. Nos curtos períodos de lucidez, entre momentos de delírio, o marido pegava-lhe na mão e apertava-a contra a sua cara: os seus olhos imploravam à mãe que tomasse conta dela quando ele fosse embora. O rosto da mãe ia-se endurecendo cada vez mais.

A boa sorte, que até então lhe regera a vida como uma espécie de talismã mágico, chegou ao fim com a morte do marido. Foi obrigada a ficar com a família do marido, com a sogra amargurada e rancorosa e, durante o ano que permaneceu junto deles, viveu num inferno terreno. No princípio, Shakuntala pensou que morreria de tristeza e não sabia como poderia viver sem o amor e a protecção do marido. A dor era ainda maior graças ao tratamento doentio que recebia dos sogros. Passara da condição de adorada à de maltratada e era olhada como uma coisa imunda. A cabeça foi rapada de modo a retirar o pecado e a poluição que havia no seu cabelo e para a marcar como um ser assexual que uma viúva tinha de ser. Ainda conseguia vislumbrar a fúria nos olhos da sogra quando esta lhe partiu as pulseiras de vidro e lhe arrancou o mangal-sutra do pescoço, iniciando os rituais de passagem para a viuvez. Viu-se despojada de todas as suas jóias e bens e só podia cobrir o corpo com um tecido branco. No fundo, ia morrendo de fome aos poucos, já que estava limitada a uma refeição por dia – uma refeição frugal de arroz sem condimentos e daals para purificar o seu corpo da luxúria. Tinha de dormir no chão. A sua única função útil – a de esposa e reprodutora de filhos desaparecera para sempre. Não só era responsabilizada pela morte do marido, como também era considerada uma ameaça para a família dele e, sobretudo, ao espírito do marido morto, pela sua condição feminina vital e potencial sexualidade.

Sentia que a vigiavam constantemente, com medo de que cometesse algum pecado que lhes trouxesse maldições e enviasse o marido para o inferno.

Um ano depois, Shakuntala soube que tinha de partir. Os seus irmãos trataram de tudo para que ela fosse para o ashram, em Rawalpur, e para que recebesse regularmente um pequeno montante. Os seus pais já tinham falecido e ela abençoou os irmãos nas suas orações. O dinheiro que recebia e, o facto de poder ler e escrever com facilidade, proporcionaram-lhe um estatuto independente no ashram. A família do marido ficou contente por se ver livre dela e não tivera qualquer contacto com eles durante 12 anos. Shakuntala tinha encontrado um lar no ashram e jamais o poderia abandonar.

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