O mundo encantado de Beatrix Potter – Richard Maltby, Jr. (sugestão de leitura)

Richard Maltby, Jr.
O mundo encantado de Beatrix Potter
Porto, Civilização Editora

A sua imaginação e o seu talento para desenhar eram o único escape de Beatrix Potter a uma rotina dura. Mas a publicação do seu conto infantil A História de Pedrito Coelho empurrou-a para um novo mundo, onde, pela primeira vez, ela experimentou o sucesso, a independência e, o mais inesperado de tudo, o amor.

 

Excerto

 O mundo encantado de Beatrix Potter

Capítulo Cinco

… E os seus nomes eram Flopsi, Mopsi, Rabinho-de-Algodão e Pedrito.

 As palavras tinham entrado na cabeça de Beatrix, quando era criança, e nunca mais saíram. Lembrou-se delas, anos mais tarde, quando estava a escrever uma carta a Noel Moore, o filho de uma antiga preceptora. Noel estava doente, e ocorreu-lhe a ideia de que ele podia ficar animado se incluísse uma pequena história acompanhada de algumas figuras. Voltou a recordar-se das palavras na altura em que, no seu estúdio, as escreveu, com uma caligrafia perfeita, numa chapa a acompanhar os seus desenhos finais para entregar a F. Warne &. C.ª. E, agora, as palavras estavam num manuscrito, no escritório de um verdadeiro editor, enquanto Beatrix Potter mostrava as suas novas pinturas a cores a Norman Warne.

“… Agora, meus queridos”, disse a Senhora Coelho, uma manhã, “podam andar pelos campas ou descer o caminho, mas não entrem na horta do Senhor Gregário. O vosso pai teve lá um acidente; a mulher do Senhor Gregário meteu-o num empadão…”

Sem o perceber, cada vez que acabava uma nova página, dava consigo a imaginar a reacção de Norman Warne. Será que exclamava: “Encantador!” e pousava a mão na face? O seu rosto abrir-se-ia num sorriso descontraído?

Agora, no escritório, com o livro dela na mão, ele reagia com todo o encantamento que ela tinha imaginado. Virava as páginas lentamente, comentando, arquejando, surpreendendo-se, chamando os empregados para virem ver.

Beatrix, de pé a seu lado enquanto ele lia, teve de súbito consciência de quão perto estava dele, consciência do calor que vinha do seu fato de tweed, consciência do aroma fresco e agradável a hamamélis. Levantou os olhos e reparou numa pequena faixa do seu pescoço entre o cabelo bem cortado e o colarinho. Mister Warne. Repetiu as palavras para si mesma. Mister Warne.

Pedrito, que era muito traquinas, correu logo para a horta do Senhor Gregário, e meteu-se por baixo do portão!…

Alguns dias mais tarde, Mr Warne e Miss Potter, no interior de uma carruagem e na companhia de Miss Wiggin, atravessavam o Sudeste de Londres até junto de um sombrio edifício de tijolo, na Swan Street, onde uma rua estreita e atravancada os conduziu até à porta de uma fábrica. Miss Wiggin corria atrás deles, ofegante. No interior, Norman levou Beatrix através de uma coxia, ladeada de estrondosas impressoras, até uma máquina em particular que tinha sido designada para ela. Norman fez sinal ao impressor que podia começar.

Beatrix sentiu um frémito de exaltação quando viu o ajudante de impressão empurrar o cilindro sobre a chapa de metal. O impressor colocou uma folha de papel sobre a matriz, baixou um tampo para comprimir bem o papel, levantou o tampo, estendeu o braço, pegou na folha de papel por um dos cantos e cuidadosamente retirou-a da chapa. Mostrou-a a Beatrix.

– Ah, não! – exclamou ela.

O azul estava escuro e pesado. Olhou para Norman.

– Demasiado escuro – disse este para o impressor. – Tente de novo.

O ajudante limpou a chapa com álcool, acrescentou alguma tinta branca e misturou um novo tom de azul. Beatrix e Norman esperavam ofegantes. Miss Wiggin, sentada numa cadeira perto dali, esperava simplesmente. O ajudante voltou a colocar tinta na chapa e o impressor pôs uma nova folha de papel.

– Meu Deus, não! – exclamou Beatrix.

– Tente outra vez – disse Norman para o impressor.

Mais uma vez o álcool, a mistura das tintas, o passar do rolo, a prensagem, e, a seguir:

– Não! – disse Beatrix, desapontada. – Ainda está…

Norman acenou com a cabeça para o impressor, cuja afabilidade se ia extinguindo.

mas ao virar o bordo de um canteiro de pepinos, quem havia ele de encontrar senão o Senhor Gregório!

O dia prosseguiu. O ajudante de impressão continuou a acrescentar tinta branca à azul, mas cada mistura só conseguia aclarar a cor minimamente.

– Meu caro senhor – disse Norman finalmente, dirigindo-se ao impressor. – Deixe-nos olhar para a chapa pintada a aguarela. Veja. O azul, aqui, é muito mais atenuado e claro.

O ajudante e o impressor olharam para a aguarela, juntaram-se e, com uma irritação mal disfarçada, decidiram pôr de parte o conjunto total de tinta. Iriam começar tudo de novo, anunciaram, desta vez com a tinta branca a que iriam juntar a azul. Uma prova de cor foi apresentada a Beatrix.

– Muito melhor, mas agora está demasiado… – disse ela.

– Está muito aproximada – acrescentou, tentando parecer optimista.

O impressor acrescentou mais uns salpicos de índigo. Perder um dia inteiro a correr atrás dos caprichos de uma mulher! “As mulheres não deviam ser autorizadas a entrar no local de trabalho”, pensou ele. “São demasiado emotivas” Os seus pensamentos transpareceram no rosto. Olhou para Norman que simplesmente acenou com a cabeça, de modo firme, para que ele prosseguisse. O impressor tentou novamente.

Pedrito estava ofegante e a tremer de medo, e não tinha a menor ideia de qual o caminho a seguir…

Norman fez o impressor tentar mais duas vezes. À medida que ele ia ficando cada vez mais decidido, Beatrix teve uma sensação súbita e inesperada. De quê? De conforto! De segurança? Estavam a tomar conta dela! Beatrix orgulhava-se da sua independência. Raramente pedia ajuda, preferindo resolver os problemas que aparecessem por si própria. Com os pais a envelhecerem, no n.º 2 de Bolton Gardens, passou a tomar cada vez mais decisões até que, agora, era ela que, de facto, governava a casa. Era ela que lidava com os pedreiros e jardineiros e canalizadores – e sentia satisfação a fazê-lo. Mas aqui, de pé, no meio de poeirentos feixes da luz do dia, no interior de uma tipografia ruidosa, enfrentando um operário que, a cada minuto que passava, ia ficando cada vez menos cordial, Beatrix sentiu um relaxamento curioso pela presença de um homem que, de modo agradável, e ainda com total firmeza, tinha assumido o controlo da situação. De vez em quando, Norman olhava para ela, e Beatrix sentiu subitamente que era… compreendida. Em toda a sua vida, teria havido alguém que a tivesse compreendido?

O impressor exasperado mostrou outra folha.

– Sim – disse ela.

– Óptimo! – declarou Norman para o homem. Houve um suspiro de alívio à volta. – Excelente trabalho, senhor – continuou ele, de um modo tão sincero que o impressor se esqueceu de que estava zangado. Norman sorriu uma vez mais. – Agora, vamos ver os vermelhos.

O Senhor Gregório viu-o de relance no canto, mas Pedrito não se importou. Esgueirou-se por debaixo do portão e, finalmente, estava a salvo no meio do bosque, do lado de fora…

Mais tarde nessa semana, Beatrix e Norman encontravam-se na tipografia, enquanto as páginas iam saindo, uma a uma, do rolo da impressora para serem levantadas sobre uma plataforma de madeira, darem uma reviravolta no ar e serem depositadas numa caixa pelo verso da folha. Dentro da caixa estava a totalidade do seu livro, impresso dos dois lados de cada folha, em magníficas cores suaves. Beatrix e Norman sorriram. Miss Wiggin observava à distância, aborrecida até à exaustão.

Lamento dizer que o Pedrito não esteve muito bem durante a noite. A mãe meteu-o na cama, fez um chá de camomila e deu uma dose ao Pedrito! “Uma colher de sopa tomada ao deitar.” … Mas Flopsi, Mopsi e Rabinho-de-Algodão comeram pão, leite e amoras ao jantar.

Beatrix e Norman olharam para esta última página do livro, que era agora uma maqueta encadernada, e então folhearam de trás para a frente. Aí as imagens eram: Gregório quase a apanhar Pedrito com um crivo de jardim, o Pedrito a puxar o casaco preso pelos botões na rede de uma groselheira, o Pedrito a perder os sapatos no meio das batatas. Finalmente havia a página de rosto com o título: A História do Pedrito Coelho, de Beatrix Potter.

Beatrix pegou no livro acabado. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Ficou atrapalhada e limpou as lágrimas. Olhou para Norman e os seus olhos encontraram-se.

Foi só um instante, mas para Beatrix pareceu uma eternidade, tão comprida que teve de desviar o olhar.

– Miss Potter – disse Norman. – Interrogo-me se… não quero ser, hum… a minha família… os outros Warne… gostariam muito…