As cinco pessoas que encontramos no céu – Mitch Albom (sugestão de leitura)

Mitch Albom
As cinco pessoas que encontramos no céu
Lisboa, Bertrand Editora, Lda.

Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido nem importância, e lamenta o facto de não ter vivido mais intensamente.
No dia do seu 83º aniversário, morre num acidente trágico ao salvar a vida de uma criança. A última coisa que sente é duas mãozinhas a segurar as suas – e depois o silêncio. É então que tudo começa.

As cinco pessoas que encontramos no céu

Excerto

Todos os pais prejudicam os filhos. É inevitável. A juventude, como um vidro cristalino, absorve as impressões do quem a manuseia. Alguns pais deixam manchas, outros provocam brechas, alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos, sem reparação possível.

Os estragos causados pelo pai de Eddie foram, no início os estragos da negligência. Quando era bebé, Eddie raramente ia para o colo do pai e, em criança, costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. A mãe de Eddie dava-lhe carinho; o pai encarregava-se da disciplina.

Aos sábados, o pai de Eddie levava-o ao cais. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce, mas, passada uma hora, o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar, geralmente; ao fim da tarde, frequentemente embriagado, Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais.

Ainda assim, durante horas incontáveis da sua juventude na marginal, Eddie esperava pela atenção do pai, sentado nas balaustradas ou empoleirado, em cima de caixas de ferramentas, na oficina. Muitas vezes, dizia «Eu posso ajudar, eu possa ajudar!», mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante, de manhã, antes de o parque abrir para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior.

Pelo menos quatro noites por semana, o pai jogava às cartas. A mesa tinha dinheiro, garrafas, cigarros e regras. A regra de Eddie era simples: não incomodes. Uma vez, tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas, mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão, dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. «Pára de respirar por cima do meu ombro!», disse. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si, lançando um olhar fulminante ao marido. Eddie nunca mais se aproximou.

Noutras noites, em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia, o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. Vasculhava os poucos brinquedos, atirando-os contra a parede. Depois, obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo, na cama, enquanto ele tirava o cinto e lhes batia, aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse, mas, mesmo quando ela o fazia, o pai avisava-a para «não se meter». Vê-la no corredor, agarrada ao roupão e tão indefesa como ele, piorava ainda mais a situação. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram, então, duras, calejadas e vermelhas de raiva, e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros, estalos e chicotadas. Esse foi o segundo estrago, depois da negligência. O estrago da violência. Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar, pelo soar dos passos no corredor, a força com que ia ser espancado.

Ao longo desse tempo todo, apesar de tudo, Eddie adorava secretamente o pai, porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher, um rapaz dedica-se ao pai, mesmo que não faça sentido, mesmo que não haja explicação para tal.

 

E, de vez em quando, como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira, o pai de Eddie deixava uma rugia de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. No campo de basebol, junto do pátio da escola da Avenida 14, o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo, o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e, quando ele o fazia, Edd corria de base em base. Outras vezes, quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco, o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. Também isto recebia a aprovação do pai. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias», como lhes chamava a mãe —, Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto, mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. Tu é que és forte. Tens de tomar conta do teu irmão. Não deixes que ninguém lhe toque.»

Quando Eddie começou o liceu, imitava o horário de Verão do pai, levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. No inicio, limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples, manobrando as alavancas dos travões, fazendo os carrinhos parar suavemente. Anos depois, foi trabalhar para a oficina. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. Dava-lhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». Apontava para uma corrente enredada e dizia» «Conserta-a». Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». E de todas as vezes, depois de terminada a sua tarefa, Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado».

À noite, reuniam-se à volta da mesa do jantar, a mãe rechonchuda e transpirada, a cozinhar ao fogão, o irmão, Joe, a falar pelos cotovelos, com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via, os seus fatos-de-banho, o seu dinheiro. O pai de Eddie não ficava impressionado. Uma vez, Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. «Aquele», disse ele, «só tem resistência para a água.»

Ainda assim, Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar, tão bronzeado e limpo. As unhas de Eddie, como as do seu pai, estavam manchadas de gordura e, à mesa do jantar, Eddie limpava-as com a unha do polegar, tentando retirar a sujidade. Apanhou o pai a observá-lo, uma vez, e o velho sorriu.

— Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele, e mostrou as suas próprias unhas sujas, antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja.

Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. Sem tomar consciência disso, iniciara um ritual de sinalização com o pai, abdicando de palavras ou de afecto físico. Tudo devia ser feito internamente. Sabiam o que sentiam e ponto final. Recusa de afecto. Os estragos estavam feitos.

 

E, então, uma noite, deixaram de falar. Foi depois da guerra, quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família, na Avenida Beachwood. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e, quando voltou para casa, tarde, deparou com Eddie a dormir no sofá. As trevas do combate tinham mudado Eddie. Não saía de casa. Raramente falava, mesmo com Marguerite. Passava horas a olhar pela janela da cozinha, a ver o carrossel, a esfregar o joelho ferido. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar), mas, a cada dia que passava, o pai estava cada vez mais agitado. Não compreendia o conceito de depressão. Para ele, era sinal de fraqueza.

— Levanta-te — gritou, proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego.

Eddie mexeu-se ligeiramente. O pai voltou a gritar.

— Levanta-te… e arranja um emprego!

O velho estava trôpego, mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão.

— Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te… e… ARRANJA UM EMPREGO!

Eddie apoiou-se nos cotovelos.

— Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e…

— CHEGA! — gritou Eddie, pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. Lançou um olhar fulminante ao pai, o seu rosto a escassos centímetros do dele. Sentiu o hálito a álcool e cigarros.

O velho olhou para a perna de Eddie. Baixou a voz e grunhiu:

— Vês? Não… estás… assim… tão ferido.

Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro, mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar. O velho arregalou os olhos. Era a primeira vez que Eddie se defendia, a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova, em vez de aguentá-la como se a merecesse O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado, suspenso no ar, as suas narinas adejaram, os dentes rangeram e ele recuou, cambaleante, e soltou o braço das garras de Eddie. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se.

Nunca mais voltou a falar com o filho.

Esta foi a marca final no vidro de Eddie. O silêncio. Assombrou os seus restantes anos de vida. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento, remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi, silêncio no casamento de Eddie, silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. Ela implorava, chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias, para que deixasse o rancor para trás, mas o pai de Eddie limitava-se a dizer, por entre os maxilares cerrados, o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». E assunto encerrado.

Todos os pais prejudicam os filhos. Esta foi a sua vida juntos. Negligência. Violência. Silêncio. E, agora, algures para lá da morte, Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve, novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor, quase inexplicavelmente, ele ainda desejava, um homem que o ignorava, até no Céu. O seu pai. Os estragos estavam feitos.

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