Nuvem Azul – Conto do povo Kwakiutl (índio América do norte americano)

Nuvem Azul

Conto do povo Kwakiutl (ou Kwakwaka’wakw)

Foi no Inverno. A rapariga tinha quinze invernos de idade e a mãe disse-lhe:

— Em breve serás uma mulher. Diz-me, quando sentires alguma coisa fora do normal.

A mãe construiu, afastada da aldeia, uma pequena cabana para a filha que tinha de ficar ali sozinha. Durante dois dias e duas noites não deveria comer nem beber, e nem sequer poderia derreter neve para beber a água.

Ao fim do segundo dia, a mãe veio à cabana e verificou que a rapariga tinha feito tudo o que lhe dissera. A mãe não trouxera comida nem água e disse:

— Minha filha, tu és a única filha que me restou. Os teus irmãos, há muito que estão a viver no País das Almas e só tu estás ainda comigo. Faz tudo para que o Grande Espírito seja misericordioso para connosco. Tens de jejuar ainda alguns dias. Mais dois sóis, e estarei de volta para ver se seguiste as minhas ordens.

A mãe deixou a rapariga, que obedeceu às suas ordens. Nada comeu nem derreteu neve para acalmar a sede, mas saiu para a floresta, tirou a casca das árvores e com elas fez uma manta para afastar o frio.

Passados os dois dias, a mãe regressou. Trazia um vaso onde derreteu neve. A rapariga bebeu até à última gota e pediu mais, mas a mãe recusou, dizendo-lhe:

— Filha, seguiste as minhas ordens. Os espíritos vão falar contigo. Terás sonhos que hão-de mostrar-te o caminho.

A mãe saiu, deixando, uma vez mais, a jovem sozinha. Durante a noite, esta ouviu uma voz que gritou:
— Segue-me!

A rapariga deixou o seu duro leito e saiu da cabana para a noite luminosa. À sua frente estendia-se um caminho brilhante como prata, que conduzia ao céu, e seguiu por ele. De um lado encontrava-se a lua, clara e resplandecente, do outro, o sol com o seu brilho flamejante. A rapariga viu a imagem da Mulher Eterna enquanto alguém lhe declarava:

— Vais ter uma longa vida. Terás a força de prolongar a vida dos outros.

A rapariga prosseguiu e chegou junto de um homem que tinha uns cornos na cabeça.

— Eu sou Manitu Wininis — disse. — Dá este nome ao teu primeiro filho.

A jovem continuou a subir o caminho resplandecente e chegou à abertura do céu. Aí estava um ser com a cabeça envolta de raios de sol e o peito enfeitado com jóias extraordinárias.

— Não tenhas medo — disse. — Eu sou Nuvem Azul, o véu que está às portas do céu. Chegaste até aqui e quero tornar-te sábia e forte, mas com a condição de passares a minha prova.

Mal tinha acabado de falar, começaram a chover do céu agulhas afiadas de cor azul, que passavam pelo corpo da rapariga e caíam ao chão, sem que ela sentisse qualquer dor. Seguiram-se pequenos picos aguçados, mas voltou a não sentir dor alguma.

— Está bem! — exclamou Nuvem Azul. — Vou conceder-te uma vida longa. Regressa à tua cabana e ganha forças. Sobe para as costas deste peixe, que te levará a casa sã e salva.

Um peixe imponente apareceu a voar pelo céu. A rapariga sentou-se nas suas costas fortes e ele levou-a de volta à terra.

Na manhã seguinte, a mãe veio à cabana. Trazia um peixe mas a rapariga não quis comer. Durante todo o dia ficou deitada no seu leito, fraca e cansada, revivendo o que acontecera na noite anterior. Quando, no dia seguinte, a mãe regressou, a rapariga contou-lhe o que lhe tinha sucedido. A mãe ficou feliz.

— Os deuses falaram contigo — disse.

A rapariga permaneceu mais três dias na cabana sem comer nem beber coisa alguma. A certa altura, viu uma figura pequena descer do céu, que lhe comunicou:

— Tu vais ter força, vais poder ver o que os outros não vêem, e, com isso, ajudar a tua tribo — e a figura transformou-se num pássaro que voou para o céu.

A jovem tornou-se vidente. Tinha terminado o jejum. A mãe foi buscá-la e deu uma grande festa na aldeia.

A jovem passou a ver e a saber coisas que os outros não viam e desconheciam. Quando, de uma vez, a sua tribo, desesperada e com fome porque não aparecia nenhum animal, acampou num grande lago e o chefe lhe pediu que indicasse o caminho a seguir, ela soube aconselhá-lo. Mandou os homens erguerem uma grande cabana e enfeitá-la. Todos se reuniram na sua tenda e ela bateu no tambor, cantou canções e deitou-se no chão. Escutou o interior da terra e ouviu os espíritos. Perguntou-lhes em que direcção a tribo devia seguir para encontrar animais selvagens.

Os espíritos responderam-lhe e indicaram o caminho. Mandaram-na seguir para oeste e, de facto, encontraram animais em abundância.

A rapariga tornou-se curandeira e teve uma longa vida, tal como Mulher-Eterna e Nuvem-Azul haviam profetizado.

Gabriele Dietz (org.)
Sternenmädchen
Berlin, Elefanten Press, 1995
Tradução e adaptação

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