Sinais do fim de um mundo – Michel Béaud

Sinais do fim de um mundo

  • Desprezo pela Terra e pela vida

Desprezando-se a si mesmo e aos outros, indiferente ao lugar por onde passa, assim como ao tempo que está para vir, o homem do nosso tempo propaga resíduos e dejectos pelo mundo: desde os papéis gordurosos, o gás de escape e os detritos domésticos aos poluentes ricos, metais pesados e detritos radioactivos.

Atira sacos de plástico, caixas e garrafas, embalagens, recipientes e materiais diversos pelas janelas dos carros e dos comboios, em lugares bonitos ou sublimes e até no coração dos desertos e dos cumes dos Himalaias. Acumula pilhas de resíduos perto das suas aglomerações. Lança objectos de trabalho, de consumo e de lazer e muitas toneladas de metais pesados, de resíduos petrolíferos ou de produtos químicos nos mares e nos oceanos; certo da sua capacidade técnica, acumula armas bacteriológicas ou químicas e materiais radioactivos, esquecendo que toda a maquinaria social se pode, um dia, desconjuntar. Destrói as mais belas paisagens até ultrajar a recordação, infecta os terrenos, contamina a terra, a água, o ar. Chega mesmo a obstruir as órbitas mais úteis do espaço com perigosos destroços.

Secagem do mar de Arai, empobrecimento das terras da Ucrânia, descarga nuclear de Cheliabinsk: acidentes sem limites do estatismo totalitário. Florestas devastadas, água imprópria para a irrigação, rios transformados em esgotos químicos por causa dos erros da industrialização. Expulsão dos gases dos navios em pleno mar, destruição das paisagens pela implantação de grandes superfícies, tumefacção das embalagens, recipientes; produtos para deitar fora: prejuízos colectivos para benefícios privados. Danos devidos à insaciável voracidade do homem moderno que invade, se apropria, se apodera, pilha, desperdiça, transforma o planeta numa lixeira e destrói, por muito tempo, os recursos que pensávamos ser inesgotáveis.

Beneficiando de milénios de adaptação e de aprendizagem recíprocas das sociedades e do seu ambiente, de saberes e de belezas, a sociedade, que pretende emergir à escala mundial, é ávida, destruidora, sem consciência. Recursos desperdiçados, terrenos degradados, desertos alargados, águas diminuídas e contaminadas, mares e oceanos transformados em últimas descargas de múltiplos perigos, paisagens ocupadas pelas nossas catedrais industriais e nucleares, depósitos dos nossos detritos radioactivos: as gerações futuras deverão lutar contra tudo isto.

 

  • O aumento dos perigos

Em Minamata, pequeno porto do Japão, nos anos cinquenta e sessenta, uma doença atinge os gatos, de seguida, os pescadores, as suas famílias e outros habitantes. Esta doença ataca o sistema nervoso, conduz à perda de controlo de si mesmo e, depois, à morte; mais tarde, nascem pequenas larvas: a empresa química Chisso que, desde 1932, tinha despejado cerca de 100 toneladas de mercúrio na baía, recusa-se, durante mais de vinte anos, a admitir a sua responsabilidade. Mil e duzentos mortos, dez mil pessoas com a saúde afectada e só em 1996 chegará ao fim de uma longa batalha jurídico-administrativa para a indemnização das vítimas.

Três de Dezembro de 1984, uma fuga de quarenta toneladas de gás isocianato de metilo da fábrica de pesticidas da União Carbide, em Bhopal, provoca, num só dia, entre dois a três mil mortos e numerosas vítimas, das quais milhares estão condenadas a uma morte mais ou menos lenta; a empresa litiga diante dos tribunais americanos, depois indianos, para finalmente negociar com o governo de Deli, em 1989, um acordo «para pagar todas as contas» com indemnizações em valores de uma sexta parte das pedidas de início.

Vinte e seis de Abril de 1986, o reactor n° 4 da central electronuclear de Chernobil explode; as primeiras vítimas são os técnicos da central; são precisos vários dias para que as autoridades soviéticas sejam informadas e tomem a informação em consideração, para que as populações sejam evacuadas e que o exército comece a enterrar o reactor na areia. As autoridades suecas, que tinham sido alertadas da existência de uma elevação da radioactividade no dia 27, difundem a informação no dia 28. Em França, o director do Serviço Central da Protecção contra as radiações ionizadas só no dia 10 de Maio tomará conhecimento de que a nuvem radioactiva sobrevoou o território. Iniciou-se, assim, uma longa saga onde se descobre como é difícil tanto parar um reactor acidentado como limitar a difusão (através das lixeiras, águas, plantas e animais) da radioactividade dispersada.

Minamata, Bhopal, Chernobil: estes acidentes, guias da modernidade industrial, deveriam incitar à reflexão sobre dois séculos de doenças e acidentes de trabalho, de catástrofes industriais e mineiras, de poluição contínua, acidental ou periódica. Isto porque, na Europa Ocidental e na América do Norte a partir do século XIX, no grupo soviético e nos novos países industriais a partir da última guerra, nos países pobres e emergentes desde há já alguns anos e em todo o mundo, existem empresas que podem prejudicar a saúde dos seus trabalhadores, a água, o ar, os terrenos circunvizinhos e, portanto, a vida das populações. Se algumas se comportaram de uma maneira responsável, muitas colocaram o imperativo industrial e a procura pelo menor custo acima do respeito pelos homens e pela vida.

 

Michel Béaud: O Desequilíbrio do Mundo. 2007

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