“Maravilhas” ignoram o passado esclavagista de Portugal

“Maravilhas” ignoram escravatura

Catedráticos de África, Europa e América acusam o Governo português de querer apagar o seu passado esclavagista.

Vários catedráticos proeminentes especializados no estudo da África de expressão portuguesa e no colonialismo português redigiram uma carta aberta em três línguas (inglês, francês e português), em protesto contra a recente tentativa do Governo português para distorcer a História manchada de sangue da expansão colonial portuguesa.

O Governo português e instituições académicas como a Universidade de Coimbra estão a promover um concurso internacional para encontrar as «Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo» [anunciadas no passado dia 16 de Junho]. Muitas destas maravilhas, dispersas pelo globo, foram erigidas no auge do poder imperial português.

Algumas são, efectivamente, impressionantes. Mas as notas explicativas tratam-nas como pouco mais do que exemplos de excelência arquitectónica. Pelos textos que acompanham o concurso, ninguém suporia que, durante séculos, diversos desses locais desempenharam um papel de charneira no comércio de escravos do Atlântico.

Estimativas indicam que cerca de 12 milhões de africanos foram sequestrados e transportados através do Atlântico na época da escravatura. Portugal e o Brasil foram responsáveis por metade deste número. O comércio de escravos é um facto da maior relevância, que domina a história da expansão colonial portuguesa; mas foi deliberadamente omitido no concurso das «maravilhas».

A carta aberta salienta que, nas últimas décadas, tem havido uma crescente consciencialização da «memória dolorosa do comércio de africanos escravizados, valorizando o património que lhe é associado». Algumas das antigas nações esclavagistas, nomeadamente a França, reconheceram o comércio de escravos como um crime contra a Humanidade, e a França adoptou mesmo uma data específica, 10 de Maio, como «Dia Nacional de Memória do Comércio Negreiro, da Escravatura e da sua Abolição».

O Vaticano, em tempos cúmplice da escravatura, desculpou-se, na pessoa do Papa João Paulo II, quando este visitou a Casa dos Escravos na ilha de Goreia, em frente da costa do Senegal, em 1992. Vários Chefes de Estado de países que estiveram envolvidos no comércio de escravos, incluindo Inácio Lula da Silva, do Brasil, e dois Presidentes dos Estados Unidos, Bill Clinton e George W. Bush, condenaram a escravidão e o passado trágico das suas nações. Em 2007, a Grã-Bretanha comemorou o 200.° aniversário da abolição do comércio de escravos, e o primeiro-ministro de então, Tony Blair, expressou pesar pelo papel britânico na escravização de africanos.

Mas Portugal, assinala a carta aberta, está a remar contra esta maré de reconhecimento e contrição. A lista de «maravilhas» inclui locais como o centro histórico de Luanda, hoje capital de Angola, a ilha de Moçambique, que foi a primeira capital do país, Ribeira Grande na ilha cabo-verdiana de Santiago, e o castelo de S. Jorge da Mina no actual território do Gana.

Todos estes lugares estiveram profundamente envolvidos no comércio de escravos e esse facto é sistematicamente omitido na literatura do concurso. Apenas um texto das «Sete Maravilhas» diz que o Castelo de S. Jorge da Mina foi um depósito de escravos, depois de ter sido ocupado pelos holandeses em 1637. O pressuposto é claro: os holandeses eram esclavagistas, mas os portugueses não; no entanto, assinala a carta aberta, os portugueses fundaram a feitoria de S. Jorge da Mina como entreposto do tráfico de escravos em 1482. Servia igualmente de centro do comércio do ouro e de outros bens; mas não há nenhuma dúvida de que grande número de escravos passou pela Mina quando estava sob o controlo português, para ser desembarcado no Brasil.

A carta aberta acusa o Governo português e os organizadores do concurso de ignorarem «a dor daqueles que tiveram os seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos». «Seria possível desvincular a arquitectura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colónias euro peias?», perguntam os autores da carta.

A carta aberta foi assinada por dezenas de catedráticos de Universidades de África, Europa e Américas do Norte e do Sul, que quiseram «repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados».

Paul Fauvet

Allafrica.com (excertos)

29.05.2009

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