Uma mulher rebelde – Ayaan Hirsi Ali (sugestão de leitura)

Ayaan Hirsi Ali
Uma mulher rebelde
Lisboa, Editorial Presença

Desde o seu nascimento em Mogadísio, Somália, em 1969, até ao momento em que consegue fugir para a Europa, Ayaan Hirsi Ali foi vítima de muitas das violências que todos os dias são praticadas sobre milhões de mulheres em todo o mundo islâmico, mas a sua inteligência acutilante e o seu espírito independente e combativo trouxeram-na até ao Ocidente e fizeram-na chegar a membro do parlamento holandês, sem nunca esquecer a luta pelos direitos das mulheres e de outros grupos tiranizados pela cultura muçulmana.

(excertos)

Tal como em muitos outros países da África e do Médio Oriente, «purificam-se» as rapariguinhas amputando-as dos órgãos genitais. Não há outra maneira de descrever este procedimento, feito normalmente por volta dos cinco anos. Uma vez cortado o clitóris e retalhados ou nivelados os lábios do sexo – em algumas regiões, por compaixão, limitam-se a retalhá-los e picá-los – toda a zona é cosida, de maneira que, muitas vezes, a pele sacarificada da rapariguinha forma, ao cicatrizar, uma espécie de grosso cinto de castidade. É deixado apenas um pequeno orifício para a urina sair. Apenas uma penetração violenta pode rasgar a cicatriz; é o que acontece aquando da primeira relação sexual.

A mutilação sexual das mulheres é anterior ao Islão. Nem todos os povos muçulmanos a fazem, e há algumas comunidades não muçulmanas que a praticam. Na Somália, porém, onde todas as raparigas praticamente são vítimas desta prática, a excisão é sistematicamente feita em nome do Islão. Uma rapariga não excisada será possuída pelos demónios, sucumbirá ao vício, tornar-se-á uma prostituta e, depois da morte, uma alma penada. Os imãs nunca desaconselham esta prática já que, na sua opinião, ela faz que as raparigas se mantenham puras.

Muitas raparigas morrem em consequência da excisão ou das infecções que provoca. Há outras complicações que podem deixar sequelas penosas, por vezes definitivas. O meu pai era um homem moderno e que considerava esta prática bárbara, tendo insistido sempre em que as suas filhas não fossem submetidas a ela. Neste particular, era um homem que estava muito à frente do seu tempo. Mahad, aos seis anos, também não tinha sido circuncidado, mas talvez por outras razões.

Pouco depois da minha primeira briga na madrassa, a minha avó decidiu que era altura de sermos todos submetidos à purificação ritual. O nosso pai estava na cadeia, a nossa mãe andava em viagem, mas felizmente estava lá a avó para velar pelo respeito das tradições ancestrais.

Depois de ter feito os preparativos, a avó andou toda a semana numa excelente disposição. Foi instalada uma mesa especial no seu quarto e, durante toda a semana, recebemos as visitas das tias, conhecidas e desconhecidas. Quando chegou o grande dia, eu não estava com medo, apenas com curiosidade. Não fazia ideia do que ia acontecer, sabia apenas que era um dia de festa e que, os três, íamos ser purificados. Depois disso, já ninguém poderia chamar-me kintirleey.(1)

Mahad foi o primeiro. Mandaram-me sair do quarto, mas eu espreitei por um buraco da porta. O meu irmão estava deitado no chão, com a cabeça e os braços pousados nos joelhos da avó. Entre as pernas de Mahad, que duas mulheres mantinham abertas, estava ajoelhado um homem que eu nunca tinha visto.

Estava calor no quarto, pairava no ar um cheiro a suor e a incenso. A avó sussurrava ao ouvido de Mahad: «Não chores, não manches a honra da tua mãe. Estas mulheres vão contar tudo o que viram. Cerra os dentes.» Mahad não emitia qualquer som, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara crispada de dor.

Eu não via o que o homem lhe estava a fazer, mas vi-lhe as mãos cheias de sangue e tive muito medo.

Era a minha vez. A avó aproximou-se de mim e disse: «Vão tirar-vos esse kintir comprido, e então, tu e a tua irmã, ficareis puras.» A julgar pelas palavras e pelos gestos da avó, esse vergonhoso kintir entre as minhas pernas, o meu clitóris, cresceria tanto que me balançaria nas pernas a cada passo que desse. Pegou em mim e, com uma mão firme, colocou-me na mesma posição que Mahad. Duas mulheres abriram-me as pernas. O homem, provavelmente um circuncisor itinerante do clã dos ferreiros, pegou numa tesoura. Com a outra mão, pôs-se a apalpar e a puxar o que eu tinha entre as pernas, como a minha avó quando ordenhava uma cabra. «Cá está ele, o kintir, cá está», disse uma mulher.

Vi então as lâminas a baixarem entre as minhas pernas e o homem cortou-me os pequenos lábios e o clitóris. Ouvi um som, como o do golpe do talhante quando retira a gordura da carne. Senti uma dor fulgurante, indescritível, e desatei a gritar. Tinham ainda de me coser: lembro-me da agulha comprida e embotada com que o homem furava os meus lábios ensanguentados, dos meus gritos de angústia e dor, das palavras da minha avó. «Isto é só uma vez na vida, Ayaan. Sê forte, ele está quase a acabar.» O homem acabou, cortou o fio com os dentes.

É tudo do que me lembro.

Lembro-me disto e também dos gritos de gelar o sangue de Haweya, que foi a última. Embora fosse mais pequena do que nós — tinha quatro anos, eu tinha cinco, Mahad seis — , deve ter-se debatido mais, ou talvez as mulheres já estivessem cansadas de nos segurarem, por isso agarravam-na com menos firmeza: foi assim que ficou cheia de cortes nas coxas. Ficou com as cicatrizes para o resto da vida.

Adormeci e só acordei ao cair da noite. Tinham-me atado as pernas para impedir que eu me mexesse e para facilitar a cicatrização. Sentia a bexiga a pontos de rebentar, mas já tentara urinar e a dor era insuportável. Coberta de sangue e suor, sacudida por calafrios, o meu sofrimento não acabava. No dia seguinte, a minha avó conseguiu que eu fizesse umas gotas. A dor era inimaginável. Quando estava deitada, era muito forte, mas, quando urinava tornava-se tão intensa como no momento em que tinha sido retalhada.

A nossa convalescença durou cerca de duas semanas. A avó estava sempre à nossa cabeceira, inesperadamente meiga e afectuosa, acorrendo a cada grito de angústia, a cada gemido, mesmo durante a noite. Depois de cada passagem dolorosa pela casa de banho, lavava-nos cuidadosamente as feridas com água morna e fazia-nos os pensos com panos embebidos num líquido roxo. Depois voltava a atar-nos as pernas e dizia-nos para ficarmos completamente imóveis, senão as feridas abrir-se-iam e seria necessário chamar o senhor para que ele voltasse a coser-nos.

Ao fim de uma semana, o homem veio examinar-nos. Achou que Mahad e eu cicatrizávamos bem, mas que Haweya, pelo contrário, tinha rasgado os pontos de sutura de tanto se debater nos braços da avó e quando urinava. Era preciso voltar a cosê-la. Lembro-me dos seus gritos quando o homem o fez: era uma agonia para ela. Aquilo foi uma tortura para nós os três, mas Haweya foi sem dúvida quem mais sofreu.

Mahad já andava a pé, completamente curado, quando o homem voltou para tirar os pontos. Mais uma vez, magoou-me muito. Começava por soltar os fios com uma pinça de depilação, depois arrancava-os com puxões secos. A avó e duas outras mulheres tiveram de me segurar. Depois disto fiquei mesmo com uma grande cicatriz entre as coxas, que me doía se me mexesse muito, mas, pelo menos, não voltaram a atar-me as pernas e não tinha de ficar deitada todo o dia sem me mexer.

Urna semana depois foi a vez de Haweya. Foram precisas quatro mulheres para a segurarem. Dessa vez eu estava dentro do quarto e nunca mais esquecerei a expressão de pânico na sua cara e os gritos lancinantes que ela soltava, lutando com todas as suas forças para manter as pernas fechadas.

A partir de então, Haweya nunca mais foi a mesma. Ficou várias semanas doente, com febre, perdeu muito peso, enfraqueceu. À noite tinha pesadelos horríveis e, durante o dia, isolava-se, tornando-se cada vez mais solitária. A minha irmãzinha, que dantes era traquina e alegre, passava horas sem fazer nada, de olhar perdido. Depois daquela operação, começámos todos a fazer xixi na cama, e Mahad ainda durante muito tempo.

(1) que tem clítoris

**

Neelie tinha previsto ir ver o filho, que vivia em S. Francisco, e foi lá que nos encontrámos. Eu disse-lhe que pensava ficar nos Estados Unidos para fazer um doutoramento. Falámos de política. Ela ouviu-me a falar do século das Luzes, de John Stuart Mill, da jaula que a opressão das mulheres representava, depois olhou-me com um ar decidido e disse: «Você não é socialista. Você é das nossas.»

Nellie disse-me ainda que os meus sonhos de estudos universitários não passavam de uma quimera; nunca levavam a lado nenhum. Por mais entusiasmo que a minha tese de doutoramento suscitasse, acabaria no fundo de uma gaveta sem fazer avançar um milímetro que fosse a causa das muçulmanas. O mais importante era eu expor perante os responsáveis políticos a realidade vivida por essas mulheres e assegurar-me de que as leis existentes – sobre a igualdade entre os sexos, por exemplo – eram concretamente aplicadas. O meu combate situava-se ao nível da acção, não das ideias. Devia apresentar-me às eleições e entrar para o Parlamento, onde teria um verdadeiro impacte sobre a emancipação das mulheres muçulmanas e sobre a integração dos imigrantes.

Passei a noite a pensar no que Neelie me dissera. Eu estava a tentar chegar aonde? A três coisas: primeiro, que a Holanda acordasse e cessasse de tolerar a opressão das mulheres muçulmanas no seu solo; o governo deveria tomar medidas para as proteger e para castigar os seus opressores. Segundo, queria suscitar na comunidade muçulmana um debate sobre a reforma de alguns aspectos do Islão que permitissem aos seus membros fazer perguntas e criticar as suas crenças. Isso apenas poderia acontecer no Ocidente, onde os muçulmanos tinham a liberdade de se exprimir.

Terceiro: queria que as mulheres muçulmanas compreendessem até que ponto o seu sofrimento era inaceitável. Queria ajudá-las a dotarem-se de um vocabulário de resistência. Inspirava-me em Mary Wollstonecrait, a pioneira feminista que, simplesmente, disse às mulheres que a sua capacidade de raciocínio valia tanto como a dos homens e que mereciam ter os mesmos direitos. Mesmo depois de ter publicado A Vindication of the Rights of Women, passou-se mais de um século antes que as sufragistas pudessem desfilar nas ruas exigindo o direito ao voto. Sabia que a libertação das mulheres muçulmanas das suas grilhetas mentais levaria muito tempo ainda. Não esperava ser imediata e maciçamente seguida pelas mulheres muçulmanas. Quando as mulheres estão tão condicionadas à humildade, já não têm praticamente inteligência própria e, infelizmente, são incapazes de se organizar e de exprimir as suas opiniões.

Quando eu estava no grupo de reflexão do Partido do Trabalho, tentando fazer passar estas minhas ideias, acusavam-me sempre de não ter estatísticas que as apoiassem. Na verdade, porém, não existiam números. Quando tentava saber quantas raparigas tinham sido mortas pelos pais por questões de honra, na Holanda, os funcionários do Ministério da Justiça respondiam-me: «Não temos registos de mortes ocorridas com base nessa categoria de motivação. Isso significaria estigmatizar um grupo social.» O Estado registava o número de homicídios ligados à droga, mas não os crimes de honra porque os funcionários se recusavam a reconhecer que tais crimes eram cometidos efectiva e regularmente.

Nem sequer a Amnistia Internacional tinha qualquer estatística respeitante às mulheres vítimas de crimes de honra no mundo. O número de homens presos e torturados era conhecido, mas não o das mulheres flageladas em público por adultério. Era um assunto que não lhes interessava.

Decidi que, se viesse a ser membro do Parlamento, me poria como missão sagrada efectuar um recenseamento destes crimes. Queria que, de cada vez que um homem matasse a filha porque ela tinha um namorado qualquer em qualquer parte, isso fosse registado. Queria que todas as violências domésticas – incluindo a violação e o incesto – fossem registadas e classificadas no respectivo grupo étnico e que se pudesse calcular quantas rapariguinhas tinham sido excisadas por ano nas mesas de cozinha holandesas. Eu sabia que estes números, uma vez conhecidos, criariam uma onda de choque no país. E desacreditariam definitivamente a atitude complacente dos relativistas que afirmavam a igualdade entre todas as culturas. Já ninguém teria a desculpa de não saber.
Se eu estivesse no Parlamento, poderia transformar as minhas convicções em actos, e não apenas falar sobre elas. E Neelie tinha razão: mesmo eu considerasse o Partido do Trabalho como o meu partido – e apesar da minha lealdade para com Paul Kalma e Job Cohen – algumas das suas ideias não se me adequavam. A finalidade da social-democracia era defender os grupos, não os indivíduos. O Partido Liberal, talvez mais duro, baseava a sua filosofia nos valores da liberdade individual. Sentir-me-ia ali mais à vontade.

Além disso, na política, eu era – e continuo a ser – uma mulher de uma só causa. Estou convicta, também, de que essa causa será para a nossa sociedade e para o nosso planeta o principal problema a resolver no século XXI. Todas as sociedades ainda dominadas pelo Islão oprimem as mulheres ou atrasam o seu desenvolvimento. Quase todas estas sociedades são pobres e se debatem com conflitos e guerras, ao passo que as sociedades que respeitam os direitos das mulheres e a sua liberdade são prósperas e vivem em paz.

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