Um Amigo Invulgar – L. S. Mathews (sugestão de leitura)

L. S. Mathews
Um Amigo Invulgar
Lisboa, Editorial Presença

Não sabemos se Tigre é rapaz ou rapariga, porque a história é contada pela própria criança que a vive e ela não se lembrou de deixara clara essa questão. Sabemos que tem 11 anos e acompanhou os pais na sua missão como voluntários numa organização humanitária, para virem ajudar as pessoas deste país onde havia guerra. Tigre só se lembra desta pequena aldeia, e dá-nos a conhecer o seu mundo com uma limpidez quase táctil. Sabemos que é um país devastado, onde existe fome, doença e as pessoas carecem de tudo, um país, além disso, assolado pela seca extrema e por chuvas torrenciais que transformam a poeira em lama pardacenta. Um dia, numa poça de lama deixada pela chuva, Tigre encontra um lindíssimo peixe de escamas irisadas. Quando os pais lhe anunciam que têm de partir numa perigosa jornada pelas montanhas, para fugir aos soldados que se aproximam, Tigre sabe que não poderá deixar para trás o seu amigo peixe. Uma história invulgar, generosa, contada com a magia de um sonho, que poderá ser apreciada de muitas maneiras, conforme o olhar de quem a lê.

 

 

(Excerto)

Tal como eu, os adultos estavam calmos e pareciam não ter grande pressa. O Guia atravessou a lama até ao outro lado usando um tronco que tinha caído e apanhou outros bocados de lenha para fazer uma espécie de barragem. Depois, o pai passou-me por cima e retomámos o caminho no outro lado, sem problemas.

Aí, no fim do caminho, estava a burra, de costas para nós. Quando nos ouviu aproximar, virou-se e deu um zurro de boas-vindas. Era tão bom vê-la outra vez, que corri para lhe dar um abraço. Mas acho que ela estava era realmente contente por ver o Guia.

— O que é que lhe aconteceu quando fugimos? — perguntei.

— Nada! — respondeu o pai. — Ela escondeu-se algures e apareceu quando nós aparecemos.

Neste lado, o caminho não tinha mato e era largo. Sentámo-nos à beira do caminho, numa zona em que a montanha se estendia por debaixo de nós. Aqui, contámos as nossas histórias em voz baixa.

O pai e a mãe tinham fugido na mesma direcção do Guia, que praticamente tivera de lutar com ambos, pelo que parecia, para os impedir de irem atrás de mini enquanto os homens armados ainda estavam no seu encalço. Conseguiram ficar escondidos no mato até haver segurança e depois começaram a procurar. Estavam todos arranhados por causa dos espinhos.

Tinha sido ideia do Guia virem procurar-me no ribeiro de lama porque ele sabia que eu sabia que tínhamos de o atravessar. O Guia achava que, se eu tivesse conseguido escapar, o que era mais que provável, teria o bom senso de encontrar o caminho para ali.

Senti orgulho por ele achar aquilo, é claro, mas o facto de ter vindo ali parar tinha tido mais a ver com o pânico do que com o bom senso. Mesmo que o tivessem percebido, eles foram suficientemente gentis para nada dizerem quando lhes contei a minha história.

— Ah! — exclamou o Guia, quando cheguei à parte em que encontrei o homem mais novo morto. — Sabes, ele não concordava com o plano dos outros e a estas pessoas não agrada que os seus se virem contra eles.

— Não me parece certo abandonarem-no ali, daquela maneira — acrescentou a mãe. — Ele era filho de alguém, como se costuma dizer por aqui. — Fez-se silêncio por alguns momentos.

— E agora — explicou o Guia, olhando para mim cuidadosamente — temos de continuar e não pensar mais nestes homens. Eu pedi a alguns amigos meus, soldados a sério, para os procurarem e eles já estão a fazê-lo. Eles também vão — acrescentou, virando-se para a mãe — tratar do jovem.

— Temos de terminar isto, Tigre — disse o pai, cansado. — Estão prontos?

— Sim — concordou a mãe, levantando-se.

— OK — disse eu, sentindo-me muito, muito mais forte, agora que estávamos todos juntos outra vez. Mas não consegui deixar de olhar em volta, quando me levantei.

O Guia percebeu.

— Não podemos estar sempre a olhar para trás, Tigre. Agora temos de confiar. Precisamos de descer a montanha e concentrar-nos. O que tiver de acontecer acontecerá. Só podemos dar o nosso melhor, não é? E é mais difícil apanhar um Tigre do que aqueles homens pensam. — E sorriu inesperadamente, algo que não fazia com frequência e que provocava sempre um sorriso nos outros mesmo que se estivessem a sentir mal.

Fomos até à berma e olhámos para baixo.

Não havia caminho, somente cascalho e arbustos, alguns em crescimento, outros derreados. Eu já tinha descido declives parecidos, mas nunca numa distância tão grande. Não era uma descida a pique e, de vez em quando, havia saliências, ou zonas mais planas onde podíamos descansar e recuperar as forças, ou ir lá parar, caso escorregássemos.

O Guia partiu primeiro e a burra verificou a firmeza do caminho dando pancadinhas com os cascos da frente. Apesar da queda, parecia menos preocupada do que quando teve de entrar na lama.

Vendo-os de pé e a descer, todos os seguimos, eu e a mãe primeiro e o pai logo atrás. Recomendámos-lhe que não caísse, porque não nos agradava a ideia de ele aterrar em cima de nós.

A princípio, podíamos andar quase normalmente, especialmente porque de vez em quando apareciam pequenas áreas de caminho por entre o cascalho. Era óbvio que o Guia o conhecia muito bem, porque nos conduziu através dos montes de pedra e terra sem forma definida, escolhendo exactamente o local onde o caminho teria existido. Quando este reaparecia, era um alívio, mesmo que por alguns passos apenas.

Tínhamos de caminhar de lado, cada vez com mais frequência, tentando manter o equilíbrio com o pé de trás quando o da frente deslizava. A cada passo, as pedras soltas deslocavam-se e caíam montanha abaixo. O andar pesado do pai atirava pedras e terra para cima de mim e da mãe, pelo que ele teve de ficar um pouco para trás.

Nas partes mais difíceis, parecia-nos que levávamos horas a dar apenas alguns passos. A única coisa boa que os deslizes ocasionais tinham era que fazíamos essa parte do caminho mais depressa.

Nenhum de nós dizia nada, porque estávamos todos muito concentrados.

Uma vez, de um ponto mais elevado atrás de nós, o pai disse:

— Observem o Guia. Sigam os passos dele com precisão. Ele sabe o que faz.

Reparámos que estávamos a olhar para os nossos próprios pés. Isto desviava-nos ligeiramente da rota e também nos fazia estar desatentos aos conselhos que o Guia nos dava relativamente ao caminho escolhido. Por exemplo, ele era especialista em encontrar arbustos que seguravam bem o solo com as raízes e em apontar-nos raízes ou tufos de erva a que nos podíamos segurar.

Por volta do meio-dia tínhamos feito seis horas de caminhada e de escorregadelas. Sem trocarmos uma palavra, tínhamos o olhar fixo no único sítio plano à nossa frente, uma saliência salpicada de arbustos, onde sabíamos que iríamos descansar, assim que lá chegássemos.

A burra, que a certa altura tinha ultrapassado o Guia, chegou lá primeiro e tinha, como é natural, a mesma ideia em mente. Parou de imediato e começou a debicar os arbustos com determinação.

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