Pequenos assassinos – Matt Whylman (sugestão de leitura)

Matt Whylman
Pequenos assassinos
Porto, Campo das Letras

Por vezes as armas falam mais alto do que as palavras.
É pelo menos nisso que Sonny e Alberto acreditam. Na cidade onde vivem, parece que as únicas pessoas que merecem respeito são os traficantes de droga.
Os traficantes são ricos.
São poderosos.
Não têm medo de ninguém.
De modo que Alberto não pode deixar de ficar contente quando um dia é contratado como assassino a soldo por um traficante.
A sua família nunca mais irá ter fome. E ele vai passar a ser uma figura importante.
A vida parece ter finalmente começado.
Mas nesta violentíssima cidade da América Latina os assassinos de palmo e meio são descartáveis. E não demorará muito até que Alberto e Sonny o descubrirem.

 

O rapaz

Distrito de San Cristobal, Medellín, Colômbia — neste momento.

Minorca faz justiça à alcunha. Não consegue ver o alvo que se preparo para atingir, mas sabe que vai ser difícil apanhá-lo com um tiro na cabeça.

O motorista — um homem com um olho mortiço, conhecido apenas como Manu — espreita pelo retrovisor. Minorca está estendido lá atrás. Tem um pé no banco, mas Manu não foi contratado para lhe ensinar boas maneiras. Isso era coisa para a mãezinha dele, sempre chorosa, ou para o patrão que lhe pagava a renda, e miúdos como este ouvem-no sempre a ele primeiro. O Minorca veste jeans de cintura descaída e uma t-shirt branca, as mangas arregaçadas como uma túnica, e está a tentar fazer um ar adulto mascando pastilha elástica. A t-shirt é demasiado grande para ele. O revólver também. Manu consegue distingui-lo dentro do coldre, um 38 automático que o jovem assassino vai ter de disparar com ambas as mãos para aguentar a estocada.

Estão estacionados numa rua residencial e poeirenta, com palmeiras dos dois lados. Os troncos são escanzelados e raspados, cada um coroado por folhas verdes que bordejam o horizonte ao longo de toda a cidade. O carro é do mesmo tom de verde, exceptuando a ferrugem e as marcas de lama. É um velho Dodge Dart que Manu por vezes usa como táxi clandestino. Mesmo com as janelas abertas, tresanda a suor, tabaco e purificador do ar. Se tiverem de esperar muito mais tempo, pensa Manu, o cheiro há-de matá-los antes do calor.

São duas da tarde, e um sol brutal mantém a maior parte das pessoas dentro de casa. A única actividade tem lugar um pouco mais à frente, onde um bando de miúdos mais velhos chutam uma bola de futebol entre eles. Minorai não tira os olhos deles desde que chegaram. Nos seus sonhos, ainda há-de chegar a jogador profissional no Atlético Nacional, o melhor clube de Medellín, mas neste momento a droga que lhe corre nas veias não deixa que o formigueiro lhe chegue aos pés. Afinal de contas, Minorca está aqui para cumprir uma missão, e portanto Manu injectou-lhe duas doses dos medicamentos antipânico que guarda no porta-luvas do carro.

Ouve lá, se um gajo se engana e exagera na dose, aquela coisa põe-te a ressonar num segundo. Era apenas uma questão de os manter concentrados sem destruir a adrenalina natural que transformava os mais pequenos em corrente eléctrica. Nas mãos certas, era uma mistura letal. Como a lei não permitia prender um menor por assassínio, isso tornava-os ideais para o cargo. A menos que o governo fizesse cumprir a sua inútil legislação e os tomasse sob sua alçada, os assassinos a soldo, como este, acabariam sempre na rua. Aí seriam protegidos, e encontrariam mesmo um objectivo de vida, mais do que aquilo que o Estado tinha para lhes oferecer. É verdade que tinham sido criados alguns centros de reabilitação para salvar os delinquentes deles próprios, mas não estavam nem perto de serem suficientes. Abandonados mas intocáveis, estes miúdos davam assassinos perfeitos.

Ouvem-se vozes numa entrada: um casal que conversa. O Minorca concentra-se no edifício de betão no outro lado da rua e ouve Manu confirmar que é ele – o idiota que fala demais. Vêem um homem de negócios de meia-idade sair do edifício, e concordam que a mulher deve ser a que vem atrás. O homem pára para dizer umas palavras de despedida à mulher, atira o casaco sobre um ombro, e avança rua abaixo, tal como tinham dito ao Minorca. Manu volta-se para observar o rapaz e vê-o a mascar pastilha elástica ainda com mais fúria. Todos os miúdos passavam por esta fase. Os problemas só começavam quando se fartavam daquilo que faziam, ou pensavam que podiam evitar os tiros, mas esta ainda tem muito que andar. Manu vira-se, mete a mão fora da janela e abre a porta de trás. Ter de trancar a porta é uma dor de alma, mas é uma precaução necessária contra mudanças de opinião.

“Um bocadinho de medo nunca fez mal a ninguém”, é a última frase que o rapaz lhe ouve. “Se puderes, faz um trabalho limpo. Até pode ser que consiga aqueles bilhetes para o campeonato que o chefe está sempre a prometer.”

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